quinta-feira, 22 de outubro de 2026
LITERATURA

Quatro séculos sem Shakespeare e Cervantes

Proximidade do quadricentenário da morte dos mestres europeus traz filme sobre a dupla

Sheyla Sousapor em
Quatro séculos sem Shakespeare e Cervantes
Proximidade do quadricentenário da morte dos mestres europeus traz filme sobre a dupla

Quatro séculos sem Shakespeare e Cervantes

William Shakespeare pôs no papel e no palco, como nenhum outro autor, a lu­ta pelo poder e os dramas do amor. Miguel de Cervantes criou o personagem que se tornou o símbolo maior da aventura humana entre sonho e loucura. Mortos há 400 anos, os pais do teatro e da literatura modernos deixaram para nosso tempo, mais do que isso, pistas valiosas para nossa compreensão do mundo e de nós mesmos. Nos próximos di­as, eles serão lembrados pelo público por um conjunto de obras que retrataram a tragédia e a comédia da vida.

Oficialmente, eles morreram em 23 de abril. Mas os leitores que homenagearem os dois nes­se dia estarão participando, na verdade, de uma pequena ficção. Explica-se: naquela época, a Inglaterra ainda usava o calendário juliano, enquanto a Espanha já havia adotado o gregoriano, comum hoje em todo o Ocidente. Assim, o 23 de abril em que Shakespeare morreu corresponde ao nosso 3 de maio. O bardo inglês, portanto, se foi dez dias após o romancista espanhol – e ainda há a tese de que Cervantes te­ria morrido no dia 22. Nada que atrapalhe as celebrações, é claro, e elas já estão a todo vapor desde o início do ano pelo mundo, inclusive no Brasil. A confusão de datas, porém, acrescenta à festa uma dimensão farsesca que provavelmente divertiria os dois autores.

A diferença de calendários é também um bom lembrete da distância entre os mundos de Shakespeare – a turbulenta Inglaterra da rainha Elizabeth imersa em conspirações – e de Cervantes – a Espanha opulenta que vivia seu Século de Ouro. Apesar disso, é grande a tentação de imaginar que os gigantes das letras se conheceram, ou ao menos se leram, como mos­tram livros e filmes dedicados ao assunto.

A primeira hipótese, pouco provável, é tema do filme Miguel e William, dirigido pela espanhola Inés Paris, que será exibido dia 29 no Rio como parte dos festejos do Instituto Cervantes. A comédia romântica especula que Shakespe­a­re, em um período pouco documentado de sua vida, na década de 1580, teria morado em Ma­dri, conhecido o romancista e até, vá lá, disputado com ele o amor de uma mulher.

A hipótese de que eles se leram tem um defensor de peso, o historiador francês Roger Chartier. Especialista na história do livro e da leitura, Chartier publicou em 2011 o ensaio Cardenio entre Cervantes e Shakespeare (Civilização Brasileira), que investiga a relação en­tre os dois autores a partir de um fato curioso. A peça A História de Cardenio, atribuída a Shakespeare e seu colaborador John Fletcher, é protagonizada por um personagem saído das páginas de Dom Quixote. Cardenio é um ho­mem amargurado que narra ao Cavaleiro da Triste Figura a desventura amorosa que o levou a ter a mulher de sua vida roubada por um figurão. A peça elimina Quixote e se concentra na história de amor. (Agência O Globo) 

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