sexta-feira, 2 de outubro de 2026
Cidades

Detento cria horta e descobre vocação

Iniciativa tem como objetivo inserir socialmente e transformar a vida do reeducando

Sheyla Sousapor em
Detento cria horta  e descobre vocação
Iniciativa tem como objetivo inserir socialmente e transformar a vida do reeducando

Um pedaço de terreno baldio transformou a vida do reeducando Wellington Carlos dos Santos, de 56 anos. Inserido no programa Começar de Novo, que visa à inserção social de pessoas que cumprem pena, o homem descobriu um novo caminho, após passar 18 anos preso: semear, plantar e colher na horta criada, por sua iniciativa, na área do Fórum da comarca de Anicuns.
“O tempo em que passei fechado me fez enxergar o mundo de forma diferente, aproveitar a liberdade, dar valor ao trabalho e buscar oportunidades para crescer”, conta o reeducando, que hoje cumpre regime semiaberto, utilizando tornozeleira eletrônica.
A infância na roça o inspirou a olhar para a terra de forma diferente, conforme relata. “Inicialmente, eu fui chamado para fazer a limpeza da área externa do prédio. Mas o trabalho acabava rapidamente e eu me sentia constrangido ao ficar à toa. Olhei, então, para aquele espaço vazio ao lado do estacionamento, que poderia ser aproveitado para uma plantação e fiquei incomodado. Tive a ideia e fui bem recebido pela juíza”, conta em relação à magistrada titular da comarca, Lígia Nunes de Paula.

Para criar a horta, Wellington pesquisou na internet, por conta própria, técnicas de cultivo. Fez vários testes, construiu canteiros e hoje produz alface, rúcula, rabanete, cenoura, salsa, coentro, couve e cebola. A safra é destinada a entidades sociais da cidade e o restante é compartilhado com os servidores do fórum.
Preso por homicídio em abril de 1998, Wellington passou a maior parte do tempo na Penitenciária Coronel Odenir Guimarães, no Complexo Prisional de Aparecida de Goiânia. Depois, pediu transferência para o presídio de Anicuns, cidade onde sua família e a de sua mulher, Selma Oliveira, residem. No tempo em que passou recluso, aproveitou para estudar. “Tinha cursado até a quarta série do ensino fundamental. Já que estava ali, na cadeia, fui procurar o que fazer e concluí o ensino médio. A experiência não foi tão negativa. Acredito que a violência é gerada por falta de educação também”, conta.

Contra o sistema
A visão de Wellington em, não apenas abraçar oportunidades, mas criá-las, é louvável, na opinião da juíza Lígia. “Contudo, ele é, infelizmente, uma exceção. Nas cidades do interior, há muitos problemas com drogas e o fato de ele não ter vícios foi fundamental para o sucesso da iniciativa”.
Segundo a magistrada, na comarca, de 40 mil habitantes, há 40 detentos – um número alto proporcionalmente. “Há, também, um índice elevado de transgressões e faltas graves entre os presos dos regimes aberto e semiaberto, que provocam a regressão ao fechado. Faltam, por parte da Superintendência Executiva de Administração Penitenciária, iniciativas para apoio psicológico e amparo para a reinserção social. Wellington luta contra o sistema”, avalia.
Pelo sucesso, a iniciativa de Wellington foi reconhecida pelos servidores que, inclusive, o integram a eventos e festas de confraternização.

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