quinta-feira, 22 de outubro de 2026
Saúde

Pandemia do coronavírus revela desigualdades raciais, conclui pesquisa

O ensaio científico foi publicado nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz e assinado por pesquisadoras da fundação e do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Uerj| Foto: Reprodução/ Agência Brasil

Redação O Hojepor em
Pandemia do coronavírus revela desigualdades raciais
O ensaio científico foi publicado nos Cadernos de Saúde Pública da Fiocruz e assinado por pesquisadoras da fundação e do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Uerj| Foto: Reprodução/ Agência Brasil

Análise publicada em forma de ensaio científico nos Cadernos de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e assinado por pesquisadoras de unidades da fundação e do Núcleo de Pesquisas Urbanas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) diz que a desigualdade no acesso a direitos básicos como saúde, saneamento e trabalho tornou a população negra e periférica mais vulnerável à pandemia de Covid-19, desmentindo ideia inicial de que as consequências da doença seriam igualmente sentidas na sociedade.

O ensaio tem como principal autora a pesquisadora Roberta Gondim, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp) da Fiocruz, e é creditado também às pesquisadoras Ana Paula da Cunha, Ana Giselle dos Santos Gadelha, Christiane Goulart Carpio, Rachel Barros de Oliveira e Roseane Maria Corrêa. Com a análise de dados de abril e maio, o texto cita o mito da democracia racial para comparar que uma ideia semelhante circulou quando foi repetido nos primeiros meses que a pandemia seria “democrática”, representando o mesmo risco a todos os que não fizessem parte dos grupos em que a doença tem mais chances de apresentar suas formas mais graves, como idosos e doentes crônicos.

“Ocorre que a realidade da classe trabalhadora de baixa renda, majoritariamente negra e moradora de territórios vulnerabilizados, é outra. São predominantemente trabalhadores precarizados, que não têm o privilégio de ficar em casa, em regime de trabalho remoto; que utilizam os transportes públicos superlotados; têm acesso precário ao saneamento básico; e estão na linha de frente do atendimento ao público no setor de serviços, incluindo os de saúde”, descreve o ensaio. 

Como resultado desse quadro, a análise mostra que, depois de chegar ao país com viajantes das classes média e alta, o vírus se disseminou de modo a afetar mais a população negra. Na Semana Epidemiológica 15 (4 a 10 de abril), a população branca representava 73% das internações e 62,9% dos óbitos. Cerca de um mês e meio depois, na Semana Epidemiológica 21, os dados mostram proporções semelhantes de brancos e negros em relação às hospitalizações. Nos óbitos, entretanto, a população negra passa a representar 57%, enquanto a branca representa 41%.

O ensaio alerta que o fato de a proporção de negros ser mais expressiva entre os óbitos que entre as  hospitalizações “reforça a análise sobre a dificuldade de acesso dessa população aos serviços de saúde, principalmente os de maior complexidade, como os leitos de cuidados intensivos”. Além disso, a pesquisa também aponta que há um alto percentual de ausência de registro de raça e cor nos casos confirmados e óbitos por covid-19, apesar de a Portaria n° 344 de 2017 do Ministério da Saúde determinar que essa informação deve ser preenchida obrigatoriamente nos atendimentos em serviços de saúde. “A ausência do registro dessa variável também revela o racismo, nos moldes institucionais, pois impede que vejamos a verdadeira magnitude da exclusão da população negra”.

O texto acrescenta que “a pandemia apresenta sua face mais cruel” nas periferias e favelas, e cita como um dos exemplos o bairro de Brasilândia, em São Paulo, onde taxas de contaminação e óbitos superaram as regiões centrais da cidade no fim de maio. Já em Fortaleza, no Ceará, a dinâmica de contágio se intensificou em bairros pobres como Grande Pirambu e Barra do Ceará, depois da disseminação em bairros ricos turísticos.

Cenário

As pesquisadoras relacionam esse cenário com o enfrentado pela população negra nos Estados Unidos, país que também teve uma história marcada pela escravização de povos africanos. O estudo cita a cidade de Chicago, onde os negros representavam 29% da população e 70% das mortes por covid-19 até a primeira semana de abril.

“A população negra norte-americana, em comparação à branca, tem os piores indicadores de saúde: menor expectativa de vida ao nascer, maior proporção de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza, maiores taxas de mortalidade infantil, maior taxa de mortalidade relacionada à diabetes, dentre outros”, cita o ensaio, que aponta uma diferença: “O Brasil conta com um sistema universal de saúde, com o pressuposto de cobrir as necessidades de saúde de toda a população. Entretanto, também apresenta grandes disparidades nos indicadores sociais, em face das desigualdades sociorraciais”.

O ensaio também traz dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que mostram a desigualdade socioeconômica entre negros e brancos no país, como o acesso ao saneamento básico, fundamental para os cuidados de higiene necessários para prevenir a covid-19: 12,5% dos negros e 6% dos brancos vivem em locais sem coleta de lixo no país; 17,9% dos negros e e 11,5% dos brancos não tem abastecimento de água por rede geral; e 42,8% dos negros e 26,5% dos brancos não possuem esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial em casa.

Governo

Em setembro, uma portaria do governo federal instituiu um incentivo financeiro para o fortalecimento das equipes e serviços da atenção primária no cuidado à saúde de populações específicas, no valor total de R$ 319,4 milhões. A verba é do Fundo Nacional de Saúde (FNS) se destina à distribuição para municípios e Distrito Federal, em parcela única.

O incentivo financeiro tem a finalidade de apoiar a gestão local na qualificação da identificação precoce, do acompanhamento e monitoramento de populações específicas com síndrome gripal, suspeita ou confirmação da covid-19. A Agência Brasil procurou o Ministério da Saúde para comentar o ensaio e aguarda retorno. (Agência Brasil) 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Coronavírus Pandemia

Veja também

Adolescente é apreendido suspeito de matar filho de 3 meses em Caiapônia

Crime

Adolescente é apreendido suspeito de matar filho de 3 meses em Caiapônia

Segundo a Polícia Militar, jovem relatou ter apertado o pescoço do bebê enquanto ele chorava; mor...
México suspende importações de frango brasileiro e Goiás reforça vigilância sanitária

Exportações

México suspende importações de frango brasileiro e Goiás reforça vigilância sanitária

Suspensão ocorreu após foco da doença de Newcastle em uma granja de Santa Catarina; Goiás não r...
Carteira assinada cancela o Bolsa Família? Entenda como o auxílio funciona

DÚVIDA SOBRE BENEFÍCIOS

Carteira assinada cancela o Bolsa Família? Entenda como o auxílio funciona

Emprego formal não provoca corte automático; permanência depende da renda por pessoa, da data de ...
Bombeiros resgatam arara encontrada em residência e a devolvem ao ninho em Caiapônia

MEIO AMBIENTE

Bombeiros resgatam arara encontrada em residência e a devolvem ao ninho em Caiapônia

Sem ferimentos aparentes, ave foi recolocada no ninho após suspeita de que ainda estivesse aprenden...
Goiânia autoriza regularização de 481 imóveis no Condomínio Rio Branco

Direito à moradia

Goiânia autoriza regularização de 481 imóveis no Condomínio Rio Branco

Escrituras serão entregues gratuitamente em até 120 dias; moradores aguardam há décadas pela doc...
Goiás tem alerta para tempestades com ventos de até 60 km/h e granizo para esta quinta-feira (23)

PREVISÃO DO TEMPO

Goiás tem alerta para tempestades com ventos de até 60 km/h e granizo para esta quinta-feira (22)

Aviso amarelo do Inmet vale até as 23h59 desta quinta-feira (22); previsão inclui chuva de até 50...
mercado central

memória goiana

Sete mercados municipais preservam história e tradição de Goiânia

Criados a partir da expansão de Goiânia, os espaços reúnem comércio, gastronomia, artesanato, m...
UEG abre seleção para intérprete de Libras com remuneração de R$ 2,9 mil

Concurso Público

UEG abre seleção para intérprete de Libras com remuneração de R$ 2,9 mil

Inscrições gratuitas vão de 20 de outubro a 19 de novembro