sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Fontes renováveis

Sem água, hidroelétricas reduzem oferta de energia e pode travar economia

Especialista aponta para necessidade de investimento em outras fontes de energias

Daniell Alvespor em
Sem água
Especialista aponta para necessidade de investimento em outras fontes de energias | Foto: Reprodução

Com a falta de água, a usina de maior potencial de geração de energia hidrelétrica em Goiás, na cidade de Itumbiara, tem gerado menos energia do que em agosto de 2001, momento em que houve o apagão em todo o Brasil. De acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), a unidade estava com nível de água do reservatório em média de 11% há 20 anos. Atualmente, trabalha com apenas 10%.  O relatório prevê ainda que as represas de Furnas, São Simão, Itumbiara (essas em Goiás), Emborcação e Nova Ponte (em Minas Gerais) esgotarão seus volumes úteis antes do recomeço das chuvas.

Segundo o ONS, a usina de Itumbiara pode produzir cerca de 2.083 MW (megawatt), porém, com a quantidade de água acima das turbinas (volume útil) em baixa, a planta acaba gerando menos energia. Na última segunda-feira (6), a geração média de energia da unidade era de 388 MW, o que representa 19% da sua capacidade, conforme aponta a Furnas, que administra a usina. Nesta mesma data, no ano de 2001, o nível do reservatório era de 11,8%. Aplicando a mesma proporção, a produção era de 21,3% da capacidade, portanto 437 MW – mais do que é produzido atualmente.

O engenheiro eletricista Victor Bitencourt aponta que uma das formas de contornar a situação seria com investimentos em outras fontes de energia. Segundo ele, 500 MW é a potência suficiente para suprir a demanda energética média de uma cidade de cerca de 1 milhão de habitantes, de forma instantânea.

Ele explica como funciona a capacidade de produção energética das usinas quando têm baixo volume de água nos reservatórios. “Esse volume útil não muda a capacidade da usina, mas limita a geração de energia [para que o nível não abaixe a ponto de não ter mais água suficiente]. O que se faz é não gerar tudo para não descer muito [o nível da água], ou gerar de acordo com a quantidade de água que chega”, diz.

A quantidade de água que chega é chamada de afluência. Conforme a ONS, o país enfrenta as “afluências mais baixas dos últimos 91 anos no Sistema Interligado Nacional (SIN)”.

Embora a situação seja preocupante, o órgão afirma que está “tomando todas as medidas técnicas e operacionais cabíveis para manter a continuidade do atendimento ao consumidor de energia elétrica no Brasil”. A ONS mapeia e avalia as usinas que fazem parte do SIN. Além dessas unidades, segundo o próprio órgão, há geradoras menores que também comercializam energia, mas não integram o sistema, portanto não estão mapeadas pelo Operador. “Esse período é crítico e as menores hidrelétricas acabam parando ou funcionando só parte do dia, por exemplo”, afirma o especialista.

Alto custo

Com as hidrelétricas gerando menos energia, será necessário acionar usinas térmicas que também produzem energia, porém com um custo maior, aponta Victor. “Nessa crise, o comitê de monitoramento elétrico precisa acionar as térmicas emergenciais, que têm um sistema a partir de diesel comum, o mesmo do caminhão. Em Goiás temos quatro dessas. O problema é que o custo é bem mais alto”, avalia.

Colapso

Em junho deste ano, a ONS alertou que cinco das hidrelétricas que abastecem o Estado corriam o risco de entrar em colapso. Segundo a pesquisa, pelo menos oito grandes usinas hidrelétricas no Centro-Sul do Brasil devem ficar com seus reservatórios perto do colapso total até 30 de novembro, quando é o período final de estiagem.

“Considerando-se as previsões de afluência obtidas com a chuva de 2020, prevê-se a perda do controle hidráulico de reservatórios da bacia do rio Paraná no segundo semestre de 2021. A perda do controle hidráulico na bacia do Paraná implicaria em restrições no atendimento energético nos subsistemas Sul e Sudeste/Centro-Oeste”, informou a ONS por meio de nota técnica.

Crise hídrica

Neste cenário, há duas formas de observar a crise hídrica, explica o presidente da Associação para Recuperação e Conser­vação do Ambiente (Arca), Gerson de Souza. Uma delas é em relação ao abastecimento de água e para o fornecimento de energia elétrica. Ele ressalta que esse agravamento tem relação direta com a ação humana e aponta como preocupante o contexto da crise e irreversível o desmatamento no Cerrado.

O titular diz que a crise de abastecimento de energia ocorre com a antecipação do agravamento da seca para agosto. Por isso, há indícios de agravamento da seca em Goiás já há quatro meses do fim da estação chuvosa. Os reservatórios já não recebem mais quantidade de água para o abastecimento e geração de energia. (Especial para O Hoje)

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Goiás seca

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