quarta-feira, 6 de maio de 2026
Crescimento de Goiânia

Discussão sobre Plano Diretor é criticada por especialistas

Marcada por falta de consenso sobre como documento deve ser debatido, audiência teve participação de vereadores cidadãos

Redaçãopor Redação em 11 de dezembro de 2021
Marcada por falta de consenso sobre como documento deve ser debatido, audiência teve participação de vereadores cidadãos. | Foto: Reprodução
Marcada por falta de consenso sobre como documento deve ser debatido, audiência teve participação de vereadores cidadãos. | Foto: Reprodução

Yago Sales

Na tarde de sexta-feira (10), durante três horas, vereadores, sob a égide da Comissão Mista, e a população civil organizada goianiense, discutiram, ou pelo menos tentaram, o novo Plano Diretor de Goiânia que chegou finalmente à Câmara Municipal sob a promessa de aprovação em poucos dias. A rapidez é criticada por representantes de segmentos que, desde 2007, se debruçam para compreender o que Goiânia deixou de ganhar e, de maneira mais aguçada, pode perder caso o texto seja aprovado a toque de caixa ainda este ano pelos vereadores. 

Com relatoria da vereadora Sabrina Garcêz, o Plano Diretor é um documento que norteará o crescimento de Goiânia. Com isso, é discutido aspectos geográficos que podem influir no engarrafamento das vias, enchentes e problemas habitacionais. 

Embora a reunião tenha sido híbrida – presencial e online – a arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, estava no plenário na discussão. Para ela, “Percebi que 99% das falas foram uníssono o pedido para que o Plano seja discutido em reuniões temáticas para entendermos o que foi proposto para que não aconteça como a reunião em que o Plano não foi discutido, mas o mérito e o processo – que concordo que devem ser discutidos”, analisa ela. 

Ela defende que é preciso mais tempo para debater o tema. “Os vereadores estão lá representando a sociedade civil, e a organizada mais ainda, que é uma associação, um instituto”, diz ela, ao se lembrar que um representante subiu na tribuna pedindo para que um trecho não passe no Plano. “E a Comissão rebateu ele, foi muito agressivo, dizendo que ele não tem que querer. Então você verá que é uma disputa não exatamente pela cidade, mas por terreno, por lugar. Eles desqualificaram as falas e deixaram dúvidas se o debate vai ser aberto. E isso é muito ruim, por isso não senti muita abertura”, diz ela.  

 Representante dos moradores do Setor Jaó, Adriana Dourado defende que a reunião de sexta deveria ser anulada. E não é a única pessoa que participou que defende que não há legalidade. O último volume do Plano Diretor foi disponibilizado no site da Câmara apenas no final da tarde de quinta-feira, o que teria dificultado a leitura e maior aprofundamento do documento. “Se observarmos do ponto de vista do rito, da forma, do prazo de divulgação previsto em lei, essa audiência de hoje é nula. O artigo 4° da Resolução 25 do Concidades afirma que para a publicidade referida no artigo 40 do Estatuto das Cidades, o prazo de divulgação tem que ser de no mínimo 15 dias de antecedência”, destaca. 

Para ela, se não houve a observância dessa norma, juridicamente, a audiência é nula. “Bom, dito isso, o Plano Diretor tem vários temas. Mobilidade, Zoneamento, Meio Ambiente, etc. Para se promover um debate minimamente técnico, os temas deveriam ser abordados uma por audiência”, explica ela. Segundo ela, o debate na Câmara de Goiânia e por parte de Rogério Cruz (Republicanos) ficou aquém em relação a outras cidades. “Como discutir o futuro de um bairro se o poder público não leva aquela o debate para aquela comunidade? Se você analisar outros planos diretores, você perceberá a nítida diferença no nível dos debates”, lembra. Para ela, aqui em Goiânia não há debate. “É um falso cumprimento de uma imposição legal. A Lei fala que as audiências têm que ser feitas e elas são feitas por formalidade, tipo, para grego ver, sabe?”.  

Preocupado com a cidade, Lenine Bueno, que é Urbanista pela Universidade de Bruxelas, mestre em promoção do desenvolvimento pela Universidade Antuérpia, participou da audiência para tentar contribuir com o Plano Diretor. Ele defende que tenha sido uma boa reunião, mas se preocupa com o aspecto técnico da discussão. “Agora, em um país como o nosso, a estratégia de participação passa por um processo que vai mais além das discussões sobre parâmetros técnicos. Se restringir a isso é uma armadilha tecnicista que atende aos interesses da elite endinheirada.”

Em entrevista ao jornal O Hoje logo depois da reunião, ele indaga: “Um Plano Diretor leva quanto tempo para ser elaborado? Dias? meses? anos? Como exigir de populares semi-alfabetizados que assimilem seu conteúdo em uma audiência pública fajuta?”, opina. 

Por isso, diz ele, a cidadania deve se organizar e exigir que a discussão aconteça a partir da participação efetiva, com material didático, com semanas de presença de técnicos da equipe da elaboração Plano Diretor e – devidamente treinados – realizando oficinas de trabalho, rodas de conversa, simulação com desenhos e reuniões do que ele classifica como “síntese, explicando, debatendo e tendo a humildade  de servir ao povo, não se servir do povo”. Ele também criticou o posicionamento da relatora do Plano Diretor, Sabrina Garcez: “Marcam-se três audiências, passamos o trator, garantimos nossa parte da ação, não-participação e estamos conversados! Um absurdo!”, afirma.

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