quinta-feira, 30 de julho de 2026
Mamografia

Pandemia expõe queda no número de mamografias e atrasa diagnóstico precoce do câncer de mama

Especialistas destacam importância da realização do exame para que, por meio de um diagnóstico precoce, as chances de cura aumentem

Maiara Dal Boscopor Maiara Dal Bosco em 19 de fevereiro de 2022 às 11:33
Especialistas destacam importância da realização do exame para que, por meio de um diagnóstico precoce, as chances de cura aumentem | Foto: reprodução
Especialistas destacam importância da realização do exame para que, por meio de um diagnóstico precoce, as chances de cura aumentem | Foto: reprodução

A mamografia é o principal meio de detecção, em fase inicial, do câncer de mama, segundo tipo de câncer mais comum na população feminina brasileira. Porém, desde o início da pandemia, a procura pelo exame diminuiu drasticamente. Dados mais recentes do Ministério da Saúde (MS) apontam queda de 84% no número de exames realizados, em 2020, pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Em Goiás, essa diminuição chegou a quase 50%.

Sobre a diminuição na procura pelo exame, a Rosângela Bueno, médica radiologista do Cebrom Oncoclínicas, aponta que, com medo do contágio pelo coronavírus, muitas mulheres não fizeram a rotina anual de prevenção de muitas doenças, e que não foi diferente com o câncer de mama. “Grande parte dos casos suspeitos deixaram de ser diagnosticados. Isso faz com que o prognóstico piore bastante e a efetividade do tratamento diminua consideravelmente. Claro, tudo isso impacta fortemente na qualidade de vida da pessoa”, afirma Bueno.

A médica ressalta que o rastreamento mamográfico deve ser feito a partir dos 40 anos para assintomáticas e sem histórico familiar. “As principais entidades médicas recomendam a realização até os 74 anos. Após essa idade, as mulheres com expectativa de vida superior a 7 anos devem continuar fazendo o exame”, explica a médica radiologista.

Envelhecimento

Já Rubens Pereira, médico mastologista do Cebrom Oncoclínicas, explica que o câncer é uma doença do envelhecimento, isto é, o organismo vai perdendo a capacidade de corrigir erros. O câncer de mama, por sua vez, é uma doença multifatorial, e um dos principais fatores de risco é a idade.

O médico enfatiza que é utilidade pública divulgar à população, principalmente às mulheres, sobre a importância da realização da mamografia. Segundo ele, diagnosticar precocemente ou não a doença é que determinará se as chances de cura serão grandes ou pequenas, se haverá a necessidade de retirar a mama ou só um nódulo, bem como se o tratamento será realizado ou não com quimioterapia. “A mamografia proporciona um aumento significativo da chance de cura e diminuição das mutilações”, pontua.

O médico destaca que, para fazer prevenção, o ideal seria uma cobertura após os 40 anos de idade em torno de 70% das mulheres. Entretanto, no Brasil o índice é de apenas 20%. “Na pandemia, em torno de 800 mil mulheres deixaram de fazer a mamografia no Brasil em 2021. Com isso, a quantidade de diagnósticos diminuiu e pode ser que mais de 4 mil mulheres tenham ficado sem o diagnóstico para a doença, o que significa que esses casos vão imergir lá na frente, em uma situação mais avançada, o que dificultará o tratamento e a cura”, afirma Pereira.

De acordo com o especialista, o exame de mamografia consegue reduzir a taxa de óbito pela doença em torno de 30%. “Dados apontam que mais de 66 mil novos casos vão surgir no Brasil a cada ano e, destes, mais de 18 mil são óbitos. Com isso, o Brasil se coloca na situação de um país em desenvolvimento, já que, na maioria dos casos o câncer é diagnosticado na fase avançada a chance de cura é maior se o diagnóstico é feito precocemente”, destaca.

Além disso, o especialista expõe um problema que contribui para a diminuição dos diagnósticos da doença: apesar de o Brasil ser suprido de aparelhos para a realização de mamografias, com cerca de 4 mil equipamentos, quando 1,5 mil seriam suficientes, a maioria está concentrada nos grandes centros urbanos. “Em Goiás, 115 aparelhos estão localizados na Grande Goiânia, então as pacientes que residem no interior acabam precisando, além de orientação, de transporte. A burocracia também é extensa, é preciso agendar o exame, por meio do SUS, fazer o exame, posteriormente a biópsia e exames complementares”, pontua.

Superação

Joana de Souza e Silva, 73, conta que descobriu a doença no final de 2010, após um familiar recomendar que ela fizesse um check-up para verificar como estava a saúde. E assim foi feito. Durante os exames de rotina ginecológicos, Joana conta que a médica alertou-a sobre a suspeita de um câncer de mama. “Com a realização da biópsia e a confirmação do diagnóstico, e com a doença já avançada, foi preciso retirar a mama”, destaca.

Ela conta, ainda, que o processo de retirada da mama ocorreu de forma tranquila, e que optou por não colocar prótese de silicone no lugar da mama que foi retirada – a esquerda. “Quem disse que eu quero colocar a prótese?”, indagou à época. “Eu coloco somente [enchimento] no sutiã, fiquei preocupada em fazer outra cirurgia e ocorrer rejeição. Hoje levo uma vida normal, e em momento algum me sinto triste ou revoltada. Estou com saúde”, afirma Silva.

Mãe de oito filhos, ela revela ainda que antes de descobrir a doença, não se preocupava com a possibilidade. “Sempre fui muito sadia, tive meus filhos de parto normal, trabalhava muito na roça. É o que eu sempre falo, é importante ter fé e acreditar, porque aquilo que vem só para moldar é só para moldar, uma provação mesmo”, destaca.

Mudança

Já Reijane Pinheiro, professora de ensino superior, tinha 46 anos quando descobriu o câncer de mama, em 2017. Ela conta que o único ano que passou sem realizar a mamografia foi 2016, e que foi neste ano que a doença surgiu. “Em 2015 eu havia feito o exame, que não constou nenhum problema”, afirma.

Após se deparar com laudos incompatíveis e ter realizado a revisão dos exames, ela realizou a cirurgia para a retirada da mama direita, que estava comprometida. “Até então eu estava em dúvida se fazia quimioterapia ou não, por conta de alguns erros do laboratório. Fiz a revisão de todo o material, e descobri que tinha metástase na axila. Um comprometimento assim muda a perspectiva do tratamento”, relata.

Ela destaca que, quando teve confirmado o diagnóstico do câncer de mama, o maior impacto foi conseguir olhar a vida sob outra perspectiva, que não da forma automática. “A sua própria existência é colocada como questão naquele momento. Vejo como um momento muito positivo, sobre como eu tenho que viver a minha vida, e enxergar as questões que são mais importantes, aproveitar um dia de cada vez. Essa foi a grande lição”, ressalta Pinheiro.

A professora relata ainda que a doença a confrontou com o jeito dela de viver. “Não estava legal. Passei a repensar sobre as cobranças em ter que fazer coisas o tempo todo, ser perfeita no trabalho, ou enquanto mãe. Passei a repensar toda essa relação, subjetiva, de quem sou eu, e o que realmente vale a pena. O câncer me ensinou e tem me ensinado muito”, frisa Pinheiro, que recentemente passou por sua segunda cirurgia de reconstrução mamária. (Especial para O Hoje)

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