sábado, 24 de outubro de 2026
Transgênero

Caminho rumo ao autoconhecimento

Para a maioria das pessoas, quando se fala em gênero, há dois papéis estabelecidos: o homem e a mulher.

Lanna Oliveirapor em

O mundo mudou, fato, mas ainda hoje há muita desinformação e preconceito em torno das identidades de gênero. Entender essa realidade faz parte do processo de desconstrução de conceitos que se arrastam desde o início dos tempos. Pesquisa inédita na América Latina aponta que 1,9% da população brasileira é de pessoas transgênero ou não binárias: são 4 milhões de indivíduos segundo o estudo desenvolvido pela Faculdade de Medicina de Botucatu da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Caminho rumo ao autoconhecimento
Gael da Silva, homem trans que há uma semana passou pela cirurgia, diz que isso lhe proporcionou a liberdade de ser quem é

Para a maioria das pessoas, quando se fala em gênero, há dois papéis estabelecidos: o homem e a mulher. Sua constituição e comportamento estão primordialmente ligados ao sexo biológico. Um transgênero seria justamente aquele que não se identifica, nem se expressa, segundo o esperado para o seu gênero sexual. Quem é transgênero normalmente tem a sensação de estar no corpo errado, sofrendo um desconforto constante em relação ao próprio sexo. A partir daí, abriu-se a discussão sobre a mastectomia masculinizadora.

A cirurgia é um dos grandes desejos dos homens trans. Por isso, o procedimento vem sendo muito procurado por esse público, que visa adquirir uma aparência compatível com a sua identidade de gênero. Este é o caso do Gael da Silva, homem trans que passou pela cirurgia. Ele diz que para chegar a esse momento precisou caminhar por uma vida inteira de descoberta sobre si mesmo. “A relação com o meu corpo sempre foi muito conturbada. Começou na minha infância, mas não entendia o que estava acontecendo”, revela Gael.

O cirurgião plástico Fernando de Nápole, médico especialista na área, explica ao Essência que no procedimento, toda a estrutura é retirada, o que inclui as glândulas mamárias, gordura e excesso de pele. As aréolas são diminuídas e reposicionadas. “Diferentes técnicas podem ser aplicadas para atingir um bom resultado, o que depende do tamanho e do tipo de mama que será operada”, diz. O médico continua, “essa cirurgia costuma durar entre 2 e 4 horas. A anestesia utilizada no procedimento é geral, associada ou não com uma infiltração local”.

Gael fez a cirurgia há uma semana, realizada pela médica cirurgiã plástica Raquel Eckert Montandon, e diz que isso lhe proporcionou a liberdade de ser quem é. “Estou muito feliz com meu corpo e com o resultado. Recentemente tive o meu retorno e foi emocionante ver como está ficando o resultado da cirurgia. Foi uma sensação inexplicável onde me emocionei muito. Esses dias estão sendo os mais felizes para mim, pois adquiri a minha identidade completa”, conta emocionado. Mas o processo até aqui não foi fácil e começou em fevereiro de 2021.

Fernando de Nápole enfatiza que esse processo começa muito antes de estar com o paciente na sala cirúrgica. O Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde estabeleceram uma série de requisitos para a realização da redução das mamas com finalidade masculinizadora. O paciente precisa ter 21 anos e passar por um acompanhamento multiprofissional, com psicólogo, psiquiatra, assistente social, endocrinologista e o cirurgião. “Esse acompanhamento é considerado essencial para que o paciente tenha certeza sobre a transformação”, diz o médico.

Para Gael, aos 38 anos, tudo começou com a terapia com uma psicóloga e o acompanhamento com uma médica endocrinologista para o processo de utilização do hormônio, parte fundamental para o processo de transgênero. “A terapia foi fundamental para o processo, pois a cada dia eu tinha mais certeza do que realmente eu sempre fui a minha vida toda. Sem a mesma eu não teria caminhado, pois a caminhada envolve muitas coisas”, conta o paciente. É preciso ter em mente a importância de se cuidar mentalmente e fisicamente.

Existem três formas de fazer a cirurgia hoje no Brasil. A primeira é fazê-la pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, há poucos hospitais públicos no Brasil que fazem essa cirurgia, por isso as filas de espera são tão grandes. A segunda forma é fazer o procedimento com um médico particular. Outra alternativa, pouco difundida, é a possibilidade de conseguir a liberação da cirurgia pelos planos de saúde. Sim, os convênios são obrigados a liberar a mastectomia. E o médico Fernando de Nápole realiza a cirurgia em qualquer uma destas possibilidades.

“Tenho a dizer para quem está nessa caminhada que o processo de se sentir completo é lindo, mas é preciso de acompanhamento psicológico para a concretização da transformação transgênera e da cirurgia”. O cirurgião plástico complementa dizendo que é importante destacar que essa cirurgia é irreversível quanto à capacidade de amamentação, então é preciso que se tenha certeza da decisão. Falar do processo é falar de felicidade, de liberdade e dignidade. Que a informação traga consigo respeito, empatia e autoaceitação.

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