terça-feira, 6 de outubro de 2026
Opinião

Limites para processo de seleção: discriminação perversa quando genérica

O período de experiência revela-se mais preocupante pois, numa sociedade em que a rotatividade de mão de obra é constante, poucos são os empregados

Redação O Hojepor em

Paulo Sergio João

Ingo Wolfgang Sarlet observa que “a dignidade da pessoa humana parte do pressuposto de que o homem, em virtude tão-somente de sua condição humana e independentemente de qualquer outra circunstância, é titular de direitos que devem ser reconhecidos e respeitados por seus semelhantes e pelo Estado” (in “Dignidade da pessoa humana e direitos fundamentais na Constituição Federal de 1988”, 7ª ed., Porto Alegre, Livraria do Advogado, ed. 2009, p. 43).

Todavia, conceituar de modo efetivo e jurídico o que seja dignidade da pessoa humana nos leva a assumir que é mais fácil dizer o que ela não é do que extrair um conceito efetivo.

Deste modo, seguindo a toada da identificação do que não é convergente com a dignidade humana, ocorreu-nos o tema da admissão de trabalhadores e dos processos de seleção. É usual que sejam exigidos dos trabalhadores além de cartas de referência e período de experiência anterior, certidão de antecedentes criminais. As cartas de referência dizem respeito aos relacionamentos passados e servem como forma de avaliação do candidato por indicação, confirmando que a perda do emprego anterior não fora maculada por atuação profissional inadequada em todos seus aspectos.

O período de experiência revela-se mais preocupante pois, numa sociedade em que a rotatividade de mão de obra é constante, poucos são os empregados que conseguem acumular períodos de trabalho que efetivamente possam representar experiência para o cargo por absoluta ausência de experiência capaz de transmitir confiança no processo de seleção.

Tudo isso tem a ver com inclusão social e a forma de atender ao respeito à garantia constitucional da realização da dignidade humana.

Claro que levado o trabalho à sua condição máxima de oportunidade de que, por meio dele, possa o trabalhador se realizar e exercer sua cidadania, as condições impostas mereceriam revisão de forte flexibilização de suas exigências.

Do outro lado, há uma exigência frequente que tem excluído trabalhadores do mercado de trabalho de forma inexorável: a tal da certidão negativa de antecedentes criminais.

O primeiro questionamento que se faz é de saber qual seria a justificativa de sua exigência numa sociedade tão desigual e injusta, que marginaliza o ser humano e, ainda, se tal condição não estaria servindo como fator excludente de inclusão social de trabalhadores vítimas muitas vezes de uma sociedade injusta e de um Estado que não respeita os direitos humanos.

Em 21/7/22, o sítio do TST publicou a seguinte notícia: “Exigência genérica de certidão de antecedentes criminais por supermercado é ilícita”, informando que a 8ª Turma, revertendo decisão do regional, condenou empresa a pagamento de danos morais por exigir, para admissão, antecedentes criminais para seleção de empregados. O acórdão é da lavra da ministra Delaíde Miranda Arantes, que admitiu, de acordo com o incidente de recursos repetitivos, julgado pela SDI-1 que fixou a tese de que se aplicaria a exigência quando se tratasse de fidúcia especial.

Trata-se de decisão e de jurisprudência que demonstra a relevância de oportunizar emprego e trabalho sem restrições a todo trabalhador e que atende ao respeito da dignidade da pessoa humana, especialmente diante de uma sociedade desigual socialmente e economicamente.

Paulo Sergio João é advogado e professor da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

A vez é da equipe de Daniel e da presidência da Assembleia

OPINIÃO

A vez é da equipe de Daniel e da presidência da Assembleia

Nem Zacharias Calil, que é parlamentar federal, tirou quase 1 milhão de votos, é profissional con...
Aava tem 123 mil votos, mas fica fora da Câmara e resultado expõe fragilidade do PSB sob sua própria presidência

OPINIÃO

Aava tem 123 mil votos, mas fica fora da Câmara e resultado expõe fragilidade do PSB sob sua própria presidência

Presidente estadual do PSB, vereadora teve a sétima maior votação para deputado federal em Goiás...
Entorno do DF é o mapa da mina da eleição para governador desde 1998

OPINIÃO

Entorno do DF é o mapa da mina da eleição para governador desde 1998

Região Metropolitana de Brasília tem 1 milhão de eleitores, com ambições próprias, sem qualque...
flávio

OPINIÃO

Vinda de Flávio definiu que 2º turno será Daniel x Wilder em Goiás

Bolsonarismo reage nos últimos dias e institutos de pesquisa ainda não alcançaram os que se decid...
gracinha

OPINIÃO

Quais candidatos a senador vão desistir em favor de Gracinha?

Dois ex-ministros, um de Temer, outro de Bolsonaro, renunciaram à candidatura em SP para que os fav...
Daniel fazer seu grupo crer que vai ganhar no 1º turno pode complicar no 2º

OPINIÃO

Daniel fazer seu grupo crer que vai ganhar no 1º turno pode complicar no 2º

Quando Caiado precisou de Vilela para se eleger senador, em 2014, não pôde contar, o que descamba ...
A dez dias da eleição, debate entre candidatos ao governo de Goiás termina sem empolgar eleitor

OPINIÃO

A dez dias da eleição, debate entre candidatos ao governo de Goiás termina sem empolgar eleitor

Com propostas e críticas, candidatos mostraram preparo, mas faltaram conexão com o público, difer...
Fake news e corrupção já venceram nas urnas de 2026 e querem mais

OPINIÃO

Fake news e corrupção já venceram nas urnas de 2026 e querem mais

Além dos crimes atribuídos em Goiás a familiares do governador e a fintech que operaria em seu ma...