terça-feira, 21 de julho de 2026
Saúde

Lei garante a distribuição gratuita de canabidiol

O medicamento tem eficácia comprovada no tratamento de diversas doenças como fibromialgia, Alzheimer, TDAH, epilepsia e dores crônicas

Larissa Oliveirapor Larissa Oliveira em 22 de maio de 2023 às 11:30
Scientist with gloves researching and examining CBD hemp oil in pipette. Concept of herbal alternative medicine, pharmaceutical industry
Scientist with gloves researching and examining CBD hemp oil in pipette. Concept of herbal alternative medicine, pharmaceutical industry

O Governo do Estado de Goiás sanciona lei n° 0104/23, que garante o fornecimento gratuito de medicamentos à base de canabidiol. Essencial para o tratamento de diversas doenças, a substância derivada da Cannabis Sativa começará a ser distribuída pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no prazo de 90 dias, quando a lei deve entrar em vigor a contar do dia 18 de maio. A nova sanção prevê que o poder público adquira os fármacos de empresas nacionais e celebre convênios com organizações sem fins lucrativos que representam os pacientes.

Dessa forma, serão valorizadas as entidades brasileiras que possuem autorização legal para o cultivo e manipulação de plantas do gênero Cannabis para fins medicinais. Segundo a lei, elas devem ser, preferencialmente, sem fins lucrativos. Além disso, o poder público deve promover campanhas, fóruns, seminários, simpósios e congressos para divulgar a terapêutica canábica à população em geral e aos profissionais de saúde. Outro tópico importante da lei é sobre a produção nacional desses medicamentos. 

Apesar do uso medicinal da planta já ser autorizado por meio de medida judicial e prescrição médica, a maior parte da população não tem acesso. Os medicamentos são, em sua maioria, importados e possuem preços proibitivos, tornando-os inacessíveis. Como as pessoas que buscam o tratamento canábico são aquelas que já não reagem aos tratamentos convencionais, a lei argumenta que os fármacos à base de Cannabis sejam produzidos na Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego).

Cannabis

Alguns chamam de chá, outros de erva ou ganja, mas também já foi conhecida por diamba e até fumo d’Angola. São inúmeras denominações durante os milhares de anos de existência de uma planta cujo nome científico é Cannabis Sativa. Os registros de seu uso datam de até quatro mil anos a.C. Comparado a isso, a atual política de criminalização e repressão às drogas, especificamente da maconha, é recente. A história revela que a planta sempre esteve presente na vida humana. 

O consumo de substâncias psicoativas é um fato histórico de diversas civilizações, e suas finalidades são incontáveis. Atualmente, a maconha é considerada ilícita no Brasil. Entretanto, nem sempre foi assim. O processo histórico que culminou com a proibição da Cannabis no país é datado do início do século XX. Esse paradigma proibicionista, porém, está cada vez mais questionado devido às inúmeras descobertas científicas sobre o uso terapêutico e medicinal da planta.

Preconceito

Coincidentemente, as proibições legais em relação à planta surgiram em governos ditatoriais e militares. Em 1935, o Ministro das Relações Exteriores emitiu um ofício ao Ministro da Educação e da Saúde. Segundo o mestre em história Jonatas C. de Carvalho, o documento foi intitulado como “Proposta de sistematização do serviço repressivo”. A partir da justificativa de “salvação nacional”, criou-se a Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes (CNFE). 

Essa mesma justificativa foi utilizada pelos militares ao apoiarem o golpe de 1930, que levou Getúlio Vargas à presidência, e pelo próprio Vargas ao implementar o regime ditatorial do Estado Novo, em 1937. O verdadeiro objetivo dessa agência era reunir todos os esforços no combate às substâncias psicoativas. “É possível afirmar que a história do proibicionismo no Brasil, o modo como este fora internalizado e a criação da CNFE estão intimamente interligados.”, afirma Jonatas Carvalho. 

Após a Segunda Guerra Mundial, os membros da CNFE passaram a ter poder de polícia e iniciou-se uma campanha nacional contra o uso recreativo da Cannabis. Para justificar o poder coercitivo e punitivo sobre os usuários, a comissão usava a mídia para fazer propagandas sobre os efeitos “nocivos” da erva. Utilizar os meios de comunicação como ferramenta de defesa das ações do governo não era difícil. À época, o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) já censurava e controlava as rádios e os jornais. 

Dessa forma, ao longo de quase quatro décadas de sua atuação e existência, a CNFE colaborou na consolidação da política proibicionista no Brasil. Além disso, contribuiu fortemente com a criação de um preconceito em relação à Cannabis, que existe até hoje no país. Foi atribuída uma correlação da erva ao crime, à violência e às diferentes populações marginalizadas da sociedade. Portanto, o estigma histórico sobre a planta se tornou o principal problema para a desmistificação do uso dela para fins terapêuticos e medicinais. 

Medicamento

Comumente, existe uma clara divergência entre o que são drogas e o que são medicamentos. Essa diferença parte de uma dicotomia maniqueísta de que os dois conceitos são opostos, em que o primeiro é negativo e o segundo é positivo. Esse conhecimento é resultado da cultura proibicionista e criminalizadora que se fortificou a partir do século passado.

Dentro do conhecimento científico, porém, drogas são substâncias que, ao serem introduzidas em um organismo vivo, modificam processos bioquímicos e resultam em mudanças fisiológicas ou comportamentais. Isso significa que os remédios são drogas. Afinal, eles são vendidos em drogarias. Portanto, a definição de droga não está diretamente relacionada à ilegalidade e nem ao prejuízo da saúde.

Entretanto, devido ao processo histórico de criminalização da maconha, a planta foi colocada na categoria de droga no sentido do senso comum. Mas os recentes estudos com a Cannabis já comprovaram suas propriedades terapêuticas e medicinais. Assim sendo, maconha é sim uma droga, mas também é medicamento, pois melhora a qualidade de vida de quem a usa.

Canabinóides

Embora os estudos sejam recentes, o tratamento com Cannabis existe e é comprovado cientificamente. Existe eficácia no tratamento de muitas doenças, como esclerose múltipla, fibromialgia, Alzheimer, Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), epilepsia e dores crônicas. O Instituto de Medicina Orgânica (IMO) é uma das diversas instituições do país de apoio à pesquisa e tratamento com moléculas da planta. O instituto conta com uma equipe multidisciplinar de profissionais da saúde que vão desde médicos e enfermeiros a odontólogos, nutricionistas e fisioterapêutas.  

Segundo a cirurgiã dentista Raquel B. Pires-Lohr, que atua no IMO, o corpo humano possui um sistema chamado endocanabinóide. Ele é composto por receptores e neurotransmissores que regulam condições fisiológicas básicas como a cognição, a disposição, o apetite, o sono, o humor e as emoções. Tem se estudado que uma disfunção nesse sistema pode causar o aparecimento ou agravamento de algumas patologias. “Por isso que o tratamento com canabinóides tem gerado respostas positivas”, afirma Raquel. 

O sistema endocanabinóide foi descoberto apenas neste século e ainda é pouco estudado. Porém, já se sabe que o corpo humano produz canabinóides naturalmente. “Os canabinóides da Cannabis não intoxicam o corpo, pois são substâncias que ele já possui, eles apenas estimulam a conexão de neurônios e a transmissão de informações necessárias para o sistema nervoso central”, é o que afirma a biomédica e gestora de relacionamentos do Instituto de Medicina Orgânica (IMO), Isabela Carvalho.

Tratamento

A Cannabis Sativa, nome científico da maconha, é composta por mais de 480 fitocanabinoides, que são as moléculas vegetais que compõem a planta. Os canabinóides mais estudados e conhecidos são o Canabidiol (CBD) e o Tetrahydrocannabinol (THC). O CBD possui potencial terapêutico e é muito utilizado para o tratamento de doenças crônicas pela ação analgésica que possui. O THC, por sua vez, é o componente psicoativo da planta. Ao contrário do que o senso comum afirma, ele não é o composto maléfico da erva. 

Segundo a enfermeira do Instituto de Medicina Orgânica (IMO) e do projeto Curando Ivo, Jennifer Marques, o tratamento com Cannabis não é com o CBD e THC apenas, é com a planta toda, pois todas as moléculas agem em conjunto. “Apesar de muitos terem medo do THC, ele não é vilão, não causa nenhuma doença neurodegenerativa e nenhum efeito colateral permanente. Pelo contrário, ele ativa neurônios que influenciam o prazer, a memória, o pensamento, a coordenação e a percepção do tempo”, afirma Jennifer. 

O ativista e fundador da Associação Curando Ivo, Filipe Suzin, luta pelo acesso à medicamentos à base de canabinoides para ajudar o avô com Alzheimer. Segundo a biomédica Isabela Carvalho, que acompanhou o tratamento, o Seu Ivo apresentou melhoras em apenas duas semanas. “Ele já conseguia reconhecer alguns de seus parentes e lembrar de pequenas coisas que antes não conseguia”, afirmou. Atualmente, a Associação Curando Ivo recebe milhares de pessoas com os mais variados tipos de condições de saúde. 

Democratização

Em 2014, o Conselho Federal de Medicina (CFM) permitiu a prescrição de canabidiol por médicos em todo o país. No ano seguinte, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) retirou a maconha da lista de substâncias proibidas e permitiu a importação de qualquer produto dela derivado, mediante receita médica. No final de 2019, a Anvisa aprovou o registro e venda de medicamentos feitos à base de derivados da Cannabis Sativa

Cada vez mais, grupos e organizações não governamentais incentivam a pesquisa com a planta e lutam pela democratização do acesso aos seus recursos medicinais e terapêuticos. “Saber como ela interage com usuários adultos, compreender a experiência dessas pessoas e o que alguns estudos com esses pacientes vêm apontando não é só fundamental, como questão de saúde pública. Assim como preconiza o Art 196 da Constituição, a saúde é direito de todos e dever do Estado”, defende Filipe Suzin.

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