quinta-feira, 30 de julho de 2026
Análise Ambiental

Cerca de 6 mil toneladas de rejeitos do Césio-137 ainda são monitoradas

Análises ambientais da água, vegetação e do solo são feitas de forma anual pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) mesmo após 35 anos do desastre

Larissa Oliveirapor Larissa Oliveira em 18 de julho de 2023 às 11:00
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Quase 36 anos após o maior acidente radiológico do mundo, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) ainda monitora cerca de 6 mil toneladas de rejeitos oriundos do acidente com o Césio-137. Os resíduos radioativos retirados após a descontaminação das áreas atingidas de Goiânia seguem sob segurança especial. O material está armazenado no Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste (CRCN-GO), no município de Abadia de Goiás. Trata-se de uma das unidades técnico-científicas da Cnen.

De acordo com o órgão, os rejeitos estão armazenados em tambores e soterrados em estruturas subterrâneas. O Batalhão Ambiental da Polícia Militar de Goiás realiza a segurança física e um Programa de Monitoração Ambiental (PMA) mantém a segurança em relação ao armazenamento dos materiais. Segundo o CRCN-GO, as ações visam “garantir a proteção à saúde do homem e do meio ambiente”. A unidade da Cnen em Goiás informa que análises ambientais da água, vegetação e do solo são feitas anualmente.

Conforme o Centro de Abadia de Goiás, a estrutura que abriga o Césio-137 tem se mostrado segura. “As doses efetivas obtidas a partir dos resultados das análises têm se mostrado abaixo do limite estabelecido pela Comissão Nacional de Energia Nuclear para impactos dos repositórios nos indivíduos do público, indicando que a instalação vem operando com total segurança, sem causar impacto radiológico ao meio ambiente circunvizinho”, afirma o órgão. 

Relembre

Em setembro de 1987, aconteceu o acidente com o Césio-137 em Goiânia, capital do Estado de Goiás. Até hoje, o evento é considerado o maior acidente radiológico do mundo. No âmbito radioativo, o incidente só não foi maior que o da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, que ocorreu um ano antes. Segundo a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen), a tragédia envolvendo o Césio-137 deixou dezenas de mortos e centenas de pessoas contaminadas, além de outras tantas com sequelas irreversíveis.

Tudo começou a partir de uma disputa entre o Instituto Goiano de Radiologia (IGR) e a Sociedade São Vicente de Paulo (SSVP) que levou à venda do terreno em que se localizava o IGR para o Instituto de Previdência e Assistência do Estado de Goiás (Ipasgo). O antigo prédio do IGR começou a ser demolido em maio de 1987, até que uma liminar da Justiça determinou a suspensão das obras. O imóvel ficou abandonado e inclusive começou a ser invadido pelo mato.

Entretanto, todo o mobiliário permaneceu intacto, incluindo uma máquina radiológica contendo uma cápsula com o isótopo 137 do elemento químico césio (137Cs). Em setembro do mesmo ano, dois catadores de materiais recicláveis, Roberto dos Santos Alves e Wagner Mota Pereira, encontraram o maquinário radiológico. A fim de reaproveitar o chumbo, material bastante comercializável, os catadores desmontaram a máquina em casa. Nesse momento, cerca de 19 gramas de cloreto Césio-137 ficaram expostos ao ambiente. 

Algumas partes retiradas foram vendidas para um ferro-velho, no dia 18 de setembro de 1987. O proprietário se chamava Devair Ferreira. À noite, ele percebeu que o pó branco emitia uma luz em tons azulados quando estava no escuro. O fascinante material chamou a atenção entre parentes, vizinhos e amigos. Os moradores da região levaram amostras para casa sem saber que a substância era altamente perigosa. A partir da ação do vento, as partículas de césio começaram a se dispersar, contaminando o solo, plantas e animais.

As pessoas que tiveram contato com o elemento se tornaram fontes irradiadoras, contaminando os locais e indivíduos próximos. No dia 28 de setembro, a esposa de Devair, Maria Gabriela, começou a desconfiar que os casos crescentes de náuseas, perda de apetite, vômitos e diarreia, associados com fortes dores de cabeça e febre, poderiam estar ligados ao material trazido pelo seu marido. Portanto, levaram a amostra à Vigilância Sanitária, que avaliou que os níveis de radiação eram extremamente altos. 

Em seguida, a Comissão Nacional de Energia Nuclear (Cnen) foi alertada e iniciou o Plano de Emergência Radiológica. A Cnen também avisou a Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) sobre o acidente. As primeiras providências foram identificar, monitorar, descontaminar e tratar a população envolvida. As áreas consideradas como focos principais de contaminação foram isoladas e iniciou-se a triagem radiológica de pessoas no Estádio Olímpico, a fim de identificar radiação e prestar atendimento às vítimas. 

Os focos principais, onde havia altas taxas de exposição, foram descontaminados, removendo-se grandes quantidades de solo e demolindo construções. Um rastreamento radiológico aéreo foi realizado para a recuperação dos locais afetados. De acordo com a Secretaria de Estado da Saúde (SES-GO), foram monitorados 67 km² de área e apontados 42 sítios contaminados. Os principais focos foram a casa de Devair e Maria Gabriela, onde o material radioativo permaneceu por dias, além do ferro-velho e a Vigilância Sanitária.

Lixo radioativo

Se a descontaminação não fosse possível ou fosse ineficiente, o objeto era considerado rejeito radioativo. Devido à elevada contaminação, muitos locais foram considerados rejeitos radioativos e necessitaram ser demolidos. Árvores foram cortadas, frutos foram descartados e o solo foi removido e substituído. Em áreas mais críticas, como o ferro-velho, o solo também recebeu camadas de areia e de concreto. Segundo a SES-GO, foram gerados 3500 m³ de lixo radioativo. Por isso, foi definido um plano de gerenciamento.

Os cálculos apontavam a necessidade de 300 anos para que todos os rejeitos perdessem o potencial de contaminação e irradiação. Em 1995, o município de Abadia de Goiás foi criado exclusivamente para abrigar de forma definitiva todo o material de alta periculosidade. Conforme a SES-GO afirma, o acidente radiológico com o Césio-137 “forneceu ensinamentos e possibilitou aprendizados em relação às consequências de se lidar com ciência e tecnologia e ampliou os cuidados que priorizam o respeito à vida”.

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