quarta-feira, 2 de setembro de 2026
Discriminação

Goiás teve o maior aumento de casos de racismo no Brasil: 246,6%

De 2021 a 2022, o número mais que triplicou, passando de 51 a 179 registros

Larissa Oliveirapor em
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|A montage blend of African American faces close up, both men and women with different shades and colors in skin tone. Melanin beauty.|Montreal, Canada - July 13, 2016: On the hottest day of the summer (37 C), hundreds of protesters gathered at Nelson Mandela Park for a Black Lives Matter rally, in solidarity to similar protests in the United States, and to condemn the racial profiling and police brutality in Montreal. After the rally, the protesters took the streets and marched down for three hours and about 10 km. The march finished around 10pm without incident.

De acordo com o Anuário de Violência, divulgado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública nesta quinta-feira (20), Goiás é o estado com maior crescimento de casos de racismo no Brasil. Em 2021, foram registrados 51 casos. Já em 2022, o número mais que triplicou, totalizando 179 registros. O aumento foi de 246,6%. Durante o mesmo período, os casos de injúria racial também ampliaram. Passando de 576 para 865, houve um crescimento de 48,3%. Além disso, os registros de racismo social, como homofobia e transfobia, saltaram de 24 para 64, um aumento de 163,4% entre um ano e outro.

A delegada Carolina Pereira Neves, do Grupo Especializado no Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Geacri), explicou ao O Hoje que os crimes estão previstos na Lei nº 7.716/89. “O racismo ocorre quando o ofensor pretende discriminar toda a coletividade de indivíduos pertencentes a um grupo que compartilha a identidade em razão de raça, cor, etnia ou procedência nacional”, orientou. Segundo a especialista, o racismo é um crime mais amplo que está caracterizado por uma série de condutas discriminatórias.

“Como, por exemplo, o Art. 4º, III, que prevê proporcionar ao empregado tratamento diferenciado no ambiente de trabalho, especialmente quanto ao salário”, exemplificou. Conforme a delegada esclareceu, a injúria racial tem pena de reclusão de dois a cinco anos. “Consiste em ofender a dignidade ou decoro de alguém pela utilização de elementos relativos à raça, cor, etnia ou procedência nacional. Como exemplo, observamos as ofensas pelo uso de palavras depreciativas ligadas à raça e cor com o objetivo de insultar a honra da vítima”, afirmou Carolina Pereira Neves.

Racismo

A diarista Juliana Martins Souza, de 26 anos, já ouviu muitas ofensas enquanto trabalhava como diarista. A jovem se esforçava para conseguir pagar as contas e estudar, mas era atacada pelos termos “macaca”, “cabelo de vassoura” e “preta nojenta”. Conforme contou ao O Hoje, atualmente ela é fisioterapeuta, mas mesmo assim ainda é desrespeitada enquanto exerce seu trabalho. Ela conta que já ouviu tantas palavras que a machucaram quando ainda era estudante, que hoje tem que lidar com esses traumas psicológicos.

“Ser observada pelas pessoas com olhar de pena, de desdém e de ‘nossa, essa menina é quem vai me atender’ é sempre um constrangimento. Os traumas psicológicos sempre vêm à tona ao ver atos de ataque contra pessoas pretas. Não há justificativas para ofensas a uma pessoa que não é aquilo que você acredita ser o correto, porque independentemente da cor da pele, o respeito deve ser primordial em tudo”, enfatiza a fisioterapeuta Juliana Martins.

Leila Monteiro do Nascimento, de 39 anos, contou ao O Hoje que já teve que ir até o colégio de seu filho após ele ser ofendido por colegas. “Felipe chegou em casa e me contou que os colegas falavam que o cabelo dele era de coco de passarinho. E o ápice foi quando dois colegas tomaram alguns utensílios do material dele e falaram que o lugar dele era no zoológico. Eu procurei a escola e tomei as providências. É triste ver que a sociedade já cresce com preconceito e ofensas raciais”, argumentou a mãe do menino de 9 anos. 

Intolerância

Segundo Deyvid Morais, doutor em sociologia, tanto o racismo como a injúria racial são crimes de intolerância. “Infelizmente, ainda estamos em um cenário de tendência desses casos. Primeiro é importante salientarmos que o racismo no Brasil é estrutural, o que significa que quando um caso de injúria racial é cometido, infelizmente já falhamos em uma série de passos da luta antirracista na sociedade”, destacou o professor, que leciona na Universidade Federal de Goiás (UFG).

Conforme o docente informou ao O Hoje, frequentemente há um descaso das autoridades e impunidade. “Isso faz com que muitas vítimas desistam de formalizar as denúncias. Isso agrava ainda mais os dados divulgados sobre Goiás, pois devemos considerar uma possível subnotificação existente. Os números espelham a dificuldade em relação às campanhas e políticas públicas no país, especialmente em termos de continuidade”, afirmou Deyvid Morais.

O professor apontou que, nos últimos anos, várias ações por parte do poder público foram extintas ou não priorizadas. “O que acarreta uma desmobilização do debate na sociedade e permite, indiretamente, a tolerância institucional à violência racial. Por isso, para reverter esse quadro a médio e longo prazo, é necessário urgentemente retomar e ampliar essas políticas tanto em nível municipal, quanto estadual e nacional”, argumenta o doutor em sociologia. 

Denuncie

Goiás é um dos dez estados brasileiros que possui uma delegacia dedicada ao combate dos crimes de intolerância. Trata-se do Grupo Especializado no Atendimento às Vítimas de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Geacri), comandado pelo delegado Joaquim Filho Adorno Santos. “A atuação do Geacri é com foco no acolhimento da vítima, mostrá-la que ela não está só e, em seguida, a repressão do crime”, afirma o delegado. Segundo ele, mensalmente a polícia percebe um acréscimo no número de denúncias. 

De acordo com a delegada Carolina Pereira Neves, o aumento nas denúncias de casos de racismo está relacionado à difusão de conhecimento sobre o assunto e empoderamento da comunidade. “Observamos que a população vem tomando consciência sobre as mazelas históricas e sociais geradas pelo racismo estrutural e, consequentemente, reivindicando direitos. É importante lembrar que a conscientização efetiva da sociedade depende que todos assumam práticas antirracistas”, afirmou a delegada. 

Conforme a especialista explicou ao O Hoje, o Geacri é o Grupo de atendimento a vítimas de delitos raciais e crimes de intolerância, que atua principalmente no combate ao racismo, intolerância religiosa, xenofobia e LGBTFobia. “As denúncias podem ser feitas pelo número 197 ou em qualquer delegacia. As vítimas podem procurar o grupo presencialmente das 08h às 18h, e em caso de dúvidas, entrar em contato pelo telefone funcional (62) 98495-2047. O Geacri está localizado na Praça do Violeiro, no Setor Urias Magalhães, em Goiânia, e recebe vítimas de todo o estado”, informou a delegada Carolina Pereira Neves.

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