sexta-feira, 24 de abril de 2026
Tesouro Nacional

A queda de braço entre União e Caiado sobre o RRF

Para especialista, Goiás deveria, tecnicamente, estar fora do RRF, mas poderá sofrer uma piora no cenário econômico se não mantiver

Rodrigo Melopor Rodrigo Melo em 23 de agosto de 2023
A previsão do governo é de que Goiás permaneça no RRF até 2029 | Foto: Reprodução
A previsão do governo é de que Goiás permaneça no RRF até 2029 | Foto: Reprodução

Somente neste ano, o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (UB), se reuniu duas vezes com o ministro da Economia, Fernando Haddad (PT), em Brasília, em busca da permanência do Estado no Regime de Recuperação Fiscal (RRF). A medida está em vigor desde 1º de janeiro de 2022 e resultou na suspensão da dívida estadual com a União por 18 meses e na adesão a um teto de gastos.

Segundo o governador, Goiás foi surpreendido com nota técnica do Tesouro Nacional que recomendou a exclusão de Goiás do RRF por já ter atendido todas as condicionantes do regime. Em maio, o Chefe do Executivo já havia se reunido com o ministro para solicitar alterações em metas fiscais e metodologia de cálculo de pontos do RRF.

A alegação do governo estadual é que Goiás “foi duramente penalizado quando se aprovou a queda da incidência de ICMS sobre combustíveis, energia e comunicações”, com perda apontada em R$ 5,5 bilhões naarrecadação.

De acordo com o economista Luiz Carlos Ongaratto, Goiás deveria, tecnicamente, estar fora do RRF, mas poderá ter uma piora no cenário econômico se não mantiver. 

“Apesar de momentaneamente o Estado está cumprindo as regras, o que permite de fato essa saída do regime de recuperação, por outro lado, tem uma projeção negativa, e com isso haverá uma piora nas contas conforme foi colocado pelo próprio governador.”, apontou Ongaratto, acrescentando a possibilidade de Goiás perder ainda mais arrecadação com a aprovação da reforma tributária da forma como o texto está.

Além da perda de arrecadação do ICMS, durante reunião, o governo também argumentou sobre o aumento de gastos com pessoal decorrentes da implantação do piso nacional da educação e enfermagem, dentre outras novas obrigações que comprometem o caixa das unidades federativas.

RRF

O RRF foi criado para fornecer os instrumentos para o ajuste de contas aos Estados com grave desequilíbrio financeiro. Esse desequilíbrio é considerado grave quando a Receita Corrente Líquida (RCL) anual é menor do que a Dívida Consolidada ao final do último exercício; quando as despesas correntes são superiores a 95% da RCL ou as despesas com pessoal ultrapassam 60% da RCL; e quando o valor total de obrigações é superior ao valor das disponibilidades de caixa.

Goiás conseguiu cumprir esses três requisitos de entrada e usufrui ainda do benefício da suspensão do pagamento de suas dívidas. Porém, como explica o economista Júlio Paschoal,

dentro do regime, “o Estado não poderá gerar numa despesa que amplie a relação receita/dívida.”

O que a União quer

O ministro Haddad teria dito que a recomendação do Tesouro em excluir Goiás do regime fiscal foi feita com base em uma nota técnica, mas irá analisar as considerações prestadas pelo Estado.

O economista Júlio Paschoal explicou que há uma fiscalização por parte do Tesouro no período que você assina esse regime. “A partir do momento que o Estado cumpre todos os requisitos colocados para assinatura do regime de recuperação fiscal, ele se torna apto para sair do regime e voltar a pagar os juros da dívida”.

Porém, especialista diz que é preciso considerar a perda de arrecadação, além da pandemia.

“Goiás tinha a receita estimada, em 2023, por volta dequase 40 bilhões. Desse valor, 70 % é ICMS, ou seja, R$ 28 bilhões. Desses 70%, 60 % vêm de energia elétrica, combustíveis e telecomunicações entre 65 % e 70%, o que faz sobrar 30 % para ação fiscal. Dentro desses 30%, houve a derrubada das alíquotas de combustíveis. Isso deu um prejuízo para Goiás, me parece, superior a R$ 1 bi, que não foi ainda compensado. Houve a pandemia, que trouxe uma queda de receita, posteriormente houve uma política de redução de alíquotas para poder colocar os preços dos combustíveis no padrão, que não forçasse a inflação. Então, não seria interessante para o Estado, nesse momento, sair do regime”. A previsão do governo é de que Goiás permaneça no RRF até 2029. 

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