quinta-feira, 5 de novembro de 2026
Déficit Primário 2023

Governo Lula fecha ano com rombo de R$ 230,5 bilhões nas contas públicas

A gestão Lula encerrou o ano passado com o segundo maior rombo nas contas públicas registrado na série histórica que se iniciou em 1997

Tathyane Melopor em
Governo Lula fecha ano com rombo de R$ 230,5 bilhões nas contas públicas
Mesmo sem considerar o pagamento dos precatórios

O primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi marcado por desafios econômicos, revelando um rombo nas contas públicas que atingiu o patamar de R$ 230,5 bilhões em 2023, correspondendo a 2,12% do Produto Interno Bruto (PIB). Este é o pior resultado desde o ano de 2020, marcado pela pandemia de Covid-19. 

O déficit primário, divulgado pelo Tesouro Nacional na última segunda-feira (29), evidencia um cenário desafiador para as finanças governamentais, impactadas pela regularização dos precatórios e pela complexidade na gestão fiscal. A gestão Lula encerrou o ano passado com o segundo maior rombo nas contas públicas registrado na série histórica que se iniciou em 1997. Mesmo sem considerar o pagamento dos precatórios, o déficit teria atingido R$ 138,1 bilhões, equivalente a 1,27% do PIB, o que ainda seria o pior resultado desde 2020. 

Os dados apontam para um descompasso entre as expectativas iniciais, agravado pela necessidade de lidar com passivos herdados durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), especialmente no que se refere às dívidas judiciais. 

O governo Lula obteve ainda uma autorização do Supremo Tribunal Federal (STF) para quitar um passivo de R$ 92,4 bilhões, uma medida que, embora necessária, impactou as contas públicas. O resultado foi pior do que a meta informalmente traçada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que almejava entregar um déficit de até 1% do PIB no primeiro ano de governo.

Antes mesmo da posse de Lula, o governo buscou flexibilizar os gastos por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), autorizando a ampliação de até R$ 168 bilhões nos gastos em 2023. O objetivo era recompor ações do Orçamento que haviam sido impactadas por cortes severos. O desafio na gestão fiscal foi evidenciado pelo rápido esgotamento dos limites orçamentários, sinalizando a necessidade de ajustes constantes.

Avaliação do mercado

A antecipação do pagamento de precatórios, o resgate de valores do Fundo PIS/Pasep e as despesas extraordinárias contribuíram para o déficit fiscal, evidenciando a complexidade do desafio que se estende para os próximos anos. Mesmo considerando alguns desses fatores como extraordinários, a equipe econômica reconheceu que algumas despesas foram tomadas por decisão do governo, destacando a importância de escolhas estratégicas na gestão fiscal.

A discussão sobre a manutenção ou não da meta fiscal em 2024 e o tamanho do contingenciamento representam desafios importantes para o governo. No entanto, a verdadeira prova será enfrentada em 2026, quando regras como a política de valorização do salário mínimo e os pisos constitucionais de saúde e educação começarão a pressionar o limite de gastos do novo arcabouço fiscal.

Economistas de diversas instituições financeiras projetam desafios para o governo Lula, especialmente na implementação efetiva de medidas que promovam o equilíbrio fiscal. O rombo nas contas públicas, mesmo com justificativas como o pagamento de dívidas anteriores, sugere a necessidade de ações concretas para reverter a tendência de déficits recorrentes.

A XP Investimentos, por exemplo, calcula um déficit estrutural de R$ 148 bilhões e de 0,6% do PIB, indicando a necessidade de medidas permanentes para reverter essa situação. A projeção de um novo déficit primário em 2024, mesmo em um cenário otimista, levanta questionamentos sobre a viabilidade de alcançar o objetivo de déficit zero.

“Algumas receitas incluídas no orçamento permanecem altamente incertas, como os R$ 34,5 bilhões das concessões ferroviárias e os R$ 35 bilhões da mudança nos subsídios do ICMS”, disse o economista da XP Investimentos, Thiago Sbardelotto, em nota.

Perspectivas para 2024 

O secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, destacou que boa parte da piora fiscal em 2023 se deveu ao pagamento dos precatórios e a outros efeitos extraordinários. 

“Nossa sinalização para o horizonte de médio prazo é de reversão desta tendência que vem acontecendo em mais de uma década, de piora a cada um desses ciclos”, disse o secretário

Segundo ele, a expectativa é que o movimento de recuperação fiscal se torne mais evidente em 2024, conforme apontado pelo governo. “Esperamos atingir o equilíbrio ou até – um resultado – positivo nos próximos anos”, afirma Ceron.

Fernando Haddad também reiterou a intenção de atingir um equilíbrio nas contas ou até mesmo um resultado positivo nos próximos anos.

“O resultado é expressão de uma decisão que o governo tomou de pagar o calote que foi dado tanto em precatórios quanto nos governadores em relação ao ICMS sobre combustíveis. Desses R$ 230 bilhões, praticamente metade disso é pagamento de dívida do governo anterior, que poderia ser prorrogada para 2027 e que nós achamos que não era justo com quem quer que fosse o presidente na ocasião”, disse.

No entanto, as projeções para 2024 enfrentam ceticismo por parte do mercado financeiro e de alguns setores políticos. O desafio de zerar o déficit neste ano é considerado um objetivo ambicioso, e a efetiva implementação de medidas para alcançá-lo será importante. A expectativa é que o governo faça escolhas difíceis entre ajustar a meta, contingenciar o orçamento ou adotar uma combinação dessas estratégias. Analistas indicam a necessidade de reformular a meta, considerando um cenário em que um déficit é praticamente inevitável.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

CNI aciona STF contra fim da escala 6×1 e questiona novas regras trabalhistas

NEGOCIOS

CNI aciona STF contra fim da escala 6×1 e questiona novas regras trabalhistas

CNI aponta riscos para empregos e negócios e contesta PEC da escala 6x1 no STF
Presidência da Alego

Eleição na Alego

Issy Quinan forma maioria para presidência da Alego, enquanto grupo dos sete articula candidatura alternativa

Com 21 apoios declarados e o próprio voto, deputado do MDB soma um voto a mais que os 21 necessári...
Javier Milei

Fuga para EUA

Governo Milei nega participação na saída de Flávio Bolsonaro do Brasil

Casa Rosada afirma que entrada do senador na Argentina ocorreu de forma regular e sem qualquer inter...
Secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury receberá título de Cidadão Honorário de Brasília

POLÍTICA

Secretário de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury receberá título de Cidadão Honorário de Brasília

Homenagem proposta pelo deputado Thiago Manzoni será realizada em 13 de novembro, no plenário da C...
Alexandre Silveira é cotado para o Ministério da Segurança Pública

Esplanada dos Ministérios

Alexandre Silveira é cotado para o Ministério da Segurança Pública

Ministro de Minas e Energia tem apoio de integrantes do Planalto
Mulheres conquistam espaços de poder, mas desafios de representação persistem na política do DF

POLÍTICA

Mulheres conquistam espaços de poder, mas desafios de representação persistem na política do DF

Celina Leão comandará o GDF, Senado terá três mulheres e CLDF contará com cinco deputadas; espe...
Rogério Marinho

Presidência do Congresso

PL lança Rogério Marinho para disputar presidência do Senado em 2027

Líder da oposição conta com a maior bancada da próxima legislatura e apoio do Novo, mas terá de...
IA

Meta

Justiça suspende regras da Meta que permitiam uso de conteúdos jornalísticos sem autorização

Decisão liminar atende a três entidades representativas da imprensa e impede que a empresa utilize...