quinta-feira, 1 de outubro de 2026
Favorecimento político

Ação contra uso eleitoral de emendas empaca no STF e favorece farra com dinheiro público

Estatal Codevasf, que é financiada por recursos de emendas parlamentares, realizou doações que superaram R$ 500 milhões durante as pré-campanhas de 2022 e 2024

Bruno Goulartpor em
Ação contra uso eleitoral de emendas empaca no STF e favorece farra com dinheiro público
Foto: STF

A Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 7220), que questiona a distribuição de bens adquiridos com recursos de emendas parlamentares durante o período eleitoral, aguarda há dois anos julgamento no Supremo Tribunal Federal (STF). Protocolada em agosto de 2022 pelo partido Rede Sustentabilidade, a ação busca barrar essas práticas, vistas como favorecimento político, e assegurar um processo eleitoral mais justo e equilibrado.

Contudo, até o momento, o caso permanece paralisado no gabinete do ministro Kassio Nunes Marques, o que tem gerado sérias preocupações sobre a negligência da Corte em tratar uma questão que impacta diretamente a integridade das eleições no Brasil.

As emendas parlamentares, que têm como origem o orçamento federal, são recursos destinados aos estados e municípios para a execução de projetos e obras de interesse público. Entretanto, nos últimos anos, essa prática foi amplamente utilizada com objetivos eleitorais.

Leia mais: Com caneta em mãos, Mabel tem sequência de promessas a serem cumpridas

Políticos de diversos espectros têm recorrido à distribuição de bens, como tratores, caminhões e máquinas agrícolas, para seus redutos eleitorais, com o intuito de angariar apoio político e eleitoral. A estratégia é simples: em ano de eleição, a entrega desses bens é acelerada, beneficiando eleitores e fortalecendo a imagem do político apadrinhado por alguém em Brasília.

Parado desde 2022

O processo judicial em questão começou a tramitar em 2022, após a constatação de que, em ano eleitoral, o uso dessas emendas se intensificou de forma preocupante. Em 2020, no período das eleições municipais, a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf) , estatal responsável por distribuir grande parte desses recursos, realizou doações que ultrapassaram R$ 500 milhões. Em 2024, esse valor já superava R$ 540 milhões, o que representava um montante significativo de recursos, em grande parte direcionado a projetos de caráter eleitoral.

Essas doações, que se intensificam nas vésperas de eleições,é uma forma clara de abuso da máquina pública, que sem transparência na distribuição, compromete o equilíbrio das eleições. Mas, vale destacar que, no Brasil, há regras eleitorais que proíbem a distribuição gratuita de bens e serviços nos anos eleitorais, salvo em situações excepcionais. No entanto, parlamentares têm burlado a lei por meio de uma manobra jurídica, com a inclusão de um “jabuti” na Lei Orçamentária de 2022.

O “jabuti” foi um dispositivo incluído no projeto de lei original, sem relação com o seu conteúdo, que permitiu que as doações de bens fossem consideradas legais, desde que houvesse a exigência de encargos pagos pelos beneficiários. Na prática, a exigência de encargos foi usada como uma estratégia para contornar as restrições impostas pela legislação eleitoral, permitindo que as doações continuassem a ser realizadas com claros objetivos eleitorais.

Embora o Ministério Público Federal e a Advocacia-Geral da União (AGU) tenham se manifestado sobre o caso, a demora na análise da ação no STF tem repercutido mal. O partido Rede Sustentabilidade criticou abertamente a paralisação do processo, considerando que a morosidade judicial favorece a manutenção dessas práticas, que comprometem a igualdade de condições entre os candidatos.

A postura da Corte, especialmente do ministro Nunes Marques, ao não dar a devida atenção ao caso, levanta questionamentos legítimos sobre seu compromisso com a proteção do processo eleitoral. Afinal, ao manter esse tipo de prática sem fiscalização, o STF acaba permitindo que a máquina pública seja utilizada como um instrumento de manipulação política e eleitoral. Como é possível que uma farra tão escancarada com dinheiro público, em benefício de interesses políticos, continue sem uma definição por tanto tempo? A sociedade espera do tribunal a defesa da Constituição e dos direitos fundamentais.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Codevasf emendas parlamentares Nunes Marques STF uso eleitoral

Veja também

Lula abre espaço para Flávio no último debate antes do 1º turno

eleições 2026

Lula abre espaço para Flávio no último debate antes do 1º turno

Especialistas avaliam que ausência do petista reduz risco de desgaste e abre espaço para adversár...
Em visita à ADFEGO, Marconi Perillo reforça propostas para pessoas com deficiência em Goiás

ELEIÇÕES 2026

Em visita à ADFEGO, Marconi Perillo reforça propostas para pessoas com deficiência em Goiás

Candidato do PSDB prometeu apoio à construção de fábrica própria de órteses e próteses e anun...
Nesta quinta, Wilder Morais faz carreatas em 4 cidades do Entorno

ELEIÇÕES 2026

Nesta quinta, Wilder Morais faz carreatas em 4 cidades do Entorno

Candidato do PL ao governo de Goiás passa por Novo Gama, Valparaíso, Cidade Ocidental e Luziânia ...
Garotinho cita ‘Leitinho Feliz’ em debate e adversários seguram o riso

Eleições 2026

Garotinho cita ‘Leitinho Feliz’ em debate e adversários seguram o riso

Garotinho relembra programa de merenda e nome chama atenção em debate no Rio
Frente Nacional de Prefeitos apresenta carta com propostas aos presidenciáveis

eleições 2026

Frente Nacional de Prefeitos apresenta carta com propostas aos presidenciáveis

O documento reúne as necessidades e propostas dos governantes locais em temas considerados urgentes
Luciano Huck mantinha relação com Vorcaro, diz revista

"Estou com você"

Luciano Huck mantinha relação com Vorcaro, diz revista

Conversas apreendidas pela PF registram negócios, favores e até sociedade em aeronave entre aprese...
Gayer na tribuna da Câmara dos Deputados

Investigação

Gustavo Gayer recebeu R$ 417 mil de empresário citado em investigação no Pará

Rodrigo Gonçalves dos Santos fez sete repasses ao candidato ao Senado por Goiás; defesa afirma que...
Lula e Nikolas

Justiça Eleitoral

TSE manda Nikolas apagar vídeo com declaração de Lula sobre exame de próstata

Ministra Estela Aranha considerou que deputado retirou declaração sobre exames de próstata do con...