Pequi é coroado ‘Rei’ do cerrado com Lei de estímulo à produção
A legislação estabelece medidas de proteção do bioma, proibindo a exploração predatória dos pequizeiros e estimulando o cultivo de mudas
Com um tamanho semelhante ao de uma maçã e uma casca verde, no seu interior, um caroço envolto por uma polpa macia e amarelada, com uma fina camada de espinhos logo abaixo da polpa, exigindo cuidado ao consumi-lo cozido. Abaixo desses espinhos, há uma amêndoa gostosa e suave. Nas feiras e mercados, seja acompanhado de arroz ou consumido puro, fresco entre outubro e janeiro ou em conserva durante o ano todo, é inegável que o povo goiano adora pequi.
E agora a política desse fruto ganhou mais um aliado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizou a Lei 15.089, de 2025, que cria a Política Nacional para o Manejo Sustentável, Plantio, Extração, Consumo, Comercialização e Transformação do Pequi e de outros frutos e produtos nativos do Cerrado.
Publicada no Diário Oficial da União, essa nova norma visa conciliar a proteção ambiental com o desenvolvimento socioeconômico das comunidades que dependem desse ecossistema. Esta legislação se originou do PL 1.970/2019, um projeto de autoria do deputado federal Rogério Correia (PT-MG). Durante sua apreciação no Senado, os relatores foram Soraya Thronicke (Podemos-MS) e Jorge Kajuru (PSB-GO).
A lei estabelece medidas de proteção para o bioma, proibindo a exploração predatória dos pequizeiros e estimulando o cultivo de mudas dessas árvores, o que promete um futuro mais sustentável tanto para a região quanto para seus produtores.
Entre os objetivos da política federal de manejo do pequi, estão o incentivo a preservação de áreas de ocorrência do pequizeiro e de outros produtos nativos do Cerrado, identificar as comunidades tradicionais que vivem da coleta desses frutos, pesquisar o folclore relacionado ao tema e promover eventos culturais para estimular o turismo, incentivar o comércio desses produtos e desenvolver selos de qualidade e de procedência.
Fruto de polpa amarela
A realidade é que entre os goianos dos pés rachados, o pequi é um caso de amor e ódio. Uns amam e lambem até os dedos, já outros não aguentam nem sentir o cheiro. A estudante Nicole Fernandes faz parte do time que no tradicional almoço de domingo na casa da vó, serve entre cinco ou seis caroços no prato.
“Não tem como ser goiana e não gostar de pequi, ainda mais acompanhado de uma galinha caipira”, destaca.
O pequi é um fruto característico do Cerrado e seu nome, de origem Tupi, significa “pele espinhenta”. O pequizeiro é uma árvore de copa frondosa que pode chegar a 12 metros de altura. Suas folhas são grandes, cada uma composta por três grandes folíolos, cobertos por uma penugem e com as pontas entrecortadas.
A colheita do pequi acontece entre novembro e janeiro. Vale destacar que a germinação dos caroços pode levar até um ano, sendo que menos da metade deles realmente germina.
A polpa do pequi contém o dobro de vitamina C em comparação a uma laranja e é abundante em vitaminas A, E e carotenóides. Esses atributos fazem do fruto um importante aliado na luta contra o envelhecimento e na prevenção de doenças oculares. Além disso, os benefícios se estendem: sua amêndoa é utilizada para extrair um óleo nutritivo que possui propriedades anti-inflamatórias, cicatrizantes e de proteção gástrica.
Menos conhecida do que a polpa, a castanha do fruto também possui um grande potencial para diversas utilizações. Ela pode ser consumida de várias maneiras: in natura, torrada, com sal ou caramelizada. Seu óleo é aromático e pode ser empregado na fabricação de cosméticos. Além disso, a castanha é utilizada na produção de um licor, que é bem mais leve do que o derivado da polpa.
Fruto típico do centro-oeste impactará a economia regional
Os frutos do Cerrado exercem um grande impacto tanto na cultura quanto na economia da região. O pequi, o baru e outros frutos não são apenas ingredientes de receitas típicas, mas também se tornam fontes de renda para milhares de produtores que os utilizam como matéria-prima. Esses produtos podem ser processados e transformados em óleos, polpas ou cosméticos, conquistando cada vez mais espaço no mercado e estimulando a economia local.
No primeiro semestre de 2024, a Ceasa registrou vendas de R$ 1,3 milhão com a comercialização de 857 toneladas deste fruto. Em 2021, a extração de pequi totalizou mais de 74 mil toneladas, conforme dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O estado de Minas Gerais lidera a produção, seguido por Goiás e Tocantins. Segundo o IBGE, o pequi corresponde a 98,6% do extrativismo realizado no estado de Goiás.
Esse fruto é amplamente utilizado na culinária local em pratos saborosos, como o arroz com pequi, além de servir como tempero, conservar, e ainda ser matéria-prima para a fabricação de licores, sorvetes e ração animal. Em suma, o pequi é um ingrediente bastante versátil.
Para aqueles que trabalham com o fruto como o chefe Pedro Ernesto cuidar dele é também zelar pela cultura e culinária local, ele conta que existem diversas maneiras de utilizar o pequi.
“O pequi é um fruto do cerrado que é rico para fazer vários tipos de pratos entre eles sobremesa, mousse e entradas. Eu consigo fazer entradas com ele, serve também para conserva, além do convencional, que é a galinhada, frango com pequi, comida bem regional”, explica.
Ernesto destaca que está na época boa para fazer o pequi em conserva, para ir utilizando durante todo o ano. “Eu sempre compro os pequi em conserva, principalmente de Ceasa ou de produtor e já deixo guardado para o ano inteiro para poder fazer”, finaliza.