Por que esquerda e direita ‘fizeram feio’ em protestos sobre anistia?
Manifestações pró e contra a anistia de envolvidos no 8 de Janeiro fracassaram em mobilização e revelam descompasso entre elites políticas e sociedade

Bruno Goulart
Os protestos pró e contra a anistia de envolvidos nos atos de 8 de Janeiro de 2023, realizados pela direita bolsonarista e pela esquerda terminaram em um duplo fiasco de público. Enquanto o ato de Jair Bolsonaro em Copacabana reuniu cerca de 18 mil pessoas, segundo estimativas da USP, a manifestação de contra o PL da anistia, neste domingo (30), na Avenida Paulista, não passou de 6,5 mil. Juntos, os dois eventos somaram menos público do que a média de torcedores do Flamengo ou do Corinthians em jogos do Brasileirão. O que explica esse fracasso coletivo?
A pauta não é prioridade para a população
A anistia aos envolvidos na invasão de prédios públicos em Brasília virou obsessão da direita bolsonarista e bandeira de oposição para a esquerda, mas a sociedade parece indiferente. Enquanto políticos discutem o tema com fervor ideológico, a população enfrenta problemas concretos: inflação, desemprego e violência.
Leia mais: Mau humor político e economia fragilizada marcam cenário para 2026
O próprio Randolfe Rodrigues (PT-AP), vice-líder do governo no Senado, admitiu que a esquerda deveria focar em outras pautas de anistia – como a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil. “É bom para a esquerda que a extrema-direita fique nessa pauta única”, disse.
Desgaste da polarização e cansaço político
Os protestos refletem um fenômeno maior: a exaustão da população com a guerra política entre bolsonaristas e petistas. A direita insiste em uma narrativa de “perseguição”, enquanto a esquerda tenta capitalizar o tema para atacar Bolsonaro. Mas, para o cidadão comum, a discussão soa distante. Até mesmo dentro do Congresso, líderes como Hugo Mota (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) já haviam sinalizado que a anistia não tem apoio popular suficiente para avançar.
Falhas de organização
Os dois lados cometeram erros graves. Bolsonaro apostou em um ato em Copacabana, mas o número ficou abaixo do esperado, mesmo com a máquina de militância digital bolsonarista. Já a esquerda subestimou a dificuldade de mobilização: Boulos chegou a dizer que o ato seria “pequeno”, antecipando-se às críticas, mas não evitou o deboche da direita. Nikolas Ferreira (PL) brincou: “Se o Bolsonaro comer um pastel na Paulista, dá mais gente”. Flávio Bolsonaro (PL) postou “#flopou” com uma foto de um trecho vazio da avenida — que, ironicamente, nem era do local do protesto.
O STF e o governo Lula não devem ceder
Enquanto a direita pressiona pela anistia e a esquerda tenta capitalizar o tema, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o governo Lula mantêm posição firme. O cientista político Felipe Fulquim avalia ao O HOJE que o STF não hesitará em condenar os responsáveis por crimes no 8 de Janeiro, garantindo amplo direito à defesa. Já o Planalto, segundo aliados, não abrirá espaço para perdão a ataques antidemocráticos. A estratégia do governo é deixar a direita “presa” a uma pauta que não ecoa no eleitorado.
Uma guerra política sem vencedores
Os protestos pró e contra anistia foram um tiro no pé para ambos os lados. A direita mostrou que não consegue mais mobilizar multidões como antes, e a esquerda falhou em transformar o tema em uma grande bandeira popular. Enquanto isso, a sociedade parece mais preocupada com questões econômicas do que com essa batalha ideológica. A lição é clara: quem quiser vencer em 2026 precisará falar de emprego, renda e segurança — e não de uma anistia que só interessa às elites partidárias.