quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Política Tributária

Lula amplia carga tributária com mais de 25 medidas e prepara novos ajustes

Medidas podem ter um custo político de longo prazo, com prejuízo para a busca pela reeleição

Raunner Vinicius Soarespor em
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Desde o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), em janeiro de 2023, o governo federal promoveu uma série de medidas que ampliaram significativamente a carga tributária no Brasil. De acordo com o levantamento da Exame e dados oficiais do Ministério da Fazenda, ao menos 25 ações tributárias foram implementadas ou propostas, com impacto direto sobre o consumo, os investimentos e o custo de vida da população.  

A justificativa do governo é a recomposição fiscal, o combate a distorções e o financiamento de políticas públicas — mas os efeitos já são sentidos por empresas e pela população. Além disso, as medidas podem ter um custo político de longo prazo e podem prejudicar a disputa das eleições gerais de 2026. A oposição na Câmara dos Deputados, liderada pelo deputado federal Luciano Zucco (PL-RS), tem emplacado diversas críticas ao governo. Os parlamentares classificam essas medidas como “confisco disfarçado”, “escalada arrecadatória” e até mesmo como uma “afronta à democracia”. 

Leia mais: Com taxação, Trump pretende interferir na política doméstica brasileira 

A primeira medida relevante foi a reoneração do PIS/Cofins e da CIDE sobre combustíveis, que havia sido suspensa no governo anterior. A retomada das alíquotas elevou os preços da gasolina, do diesel, do etanol e pressionou o valor do transporte e dos alimentos. A reoneração do diesel, por exemplo, foi retomada em janeiro de 2024, com impacto direto sobre o frete. 

O governo também aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) em operações de câmbio, crédito e seguros. A alíquota sobre cartões internacionais foi fixada em 3,5%, o que frustrou a expectativa de redução gradual até 0% em 2028 — uma exigência para o Brasil ingressar na OCDE. A medida foi derrubada pelo Congresso em junho de 2025, mas está judicializada no STF. 

O IPI sobre armas e munições foi elevado por decreto: armas passaram de 29,25% para 55% e munições de 13% para 25%. Já o Imposto de Importação foi retomado para diversos produtos, como painéis solares (de 6% para 10,8%), veículos elétricos e híbridos (até 35% em 2026), cabos ópticos e produtos de aço e ferro (até 25%). 

Novos tributos e regulamentações 

O governo criou um imposto temporário sobre exportação de petróleo cru, com alíquota de 9,2%, que vigorou entre março e junho de 2023. Também regulamentou a tributação de apostas eletrônicas (bets), com alíquota de 18% sobre a receita bruta das empresas e 15% de IRPF sobre prêmios. 

A chamada “taxa das blusinhas” passou a cobrar 60% de imposto de importação sobre compras internacionais acima de US$ 50, além de 17% de ICMS para empresas não aderentes ao programa Remessa Conforme. 

Fundos exclusivos e offshores passaram a ser tributados em 15% ao ano, mesmo sem repatriação. Investimentos antes isentos, como LCI, LCA, CRI, CRA e debêntures incentivadas, terão alíquota de 5% a partir de 2026. Fundos imobiliários e Fiagros passaram a ser tributados em 17,5%, e criptoativos com ganhos acima de R$ 35 mil mensais também foram incluídos na nova regra. 

A Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) para fintechs e instituições de pagamento subiu de 9% para 15%. 

Reformas e propostas em debate 

Aprovada em 2023, a Reforma Tributária do Consumo criou o IVA dual (CBS federal + IBS estadual/municipal), com alíquota estimada entre 25,7% e 27,3% — uma das mais altas do mundo. A reforma também instituiu o Imposto Seletivo sobre produtos nocivos à saúde e ao meio ambiente, autorizou o IPVA para jatinhos e helicópteros e o ITCMD progressivo para heranças e doações. 

A Reforma do Imposto de Renda, ainda em tramitação, propõe isenção para quem ganha até R$ 5 mil por mês e tributação de 10% sobre lucros e dividendos acima de R$ 50 mil mensais. Também prevê o IRPF Mínimo para rendimentos acima de R$ 600 mil por ano. 

O Perse, programa de incentivo ao setor de eventos, foi extinto em 2024 após denúncias de uso indevido por setores não previstos. A tentativa de retomar o DPVAT também foi arquivada por falta de apoio político. 

Em julho de 2025, o governo lançou o IPI Verde, que reduz ou zera o imposto para veículos sustentáveis fabricados no Brasil. A medida busca compensar parte do impacto da tributação sobre veículos elétricos importados. 

Para evitar o aumento da conta de luz, o governo editou a MP nº 1.304/2025, que estabelece um teto para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE) e cria mecanismos para subsidiar políticas públicas no setor elétrico sem repassar custos aos consumidores de baixa renda. 

Impacto fiscal e reação política 

Segundo o Ministério da Fazenda, as medidas devem gerar R$ 105 bilhões em arrecadação adicional em 2025 e R$ 206 bilhões em 2026. No entanto, o Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo aponta que os brasileiros já pagaram mais de R$ 2,1 trilhões em tributos em 2025, enquanto os gastos públicos federais ultrapassaram R$ 1,15 trilhão até julho. 

Especialistas alertam que o aumento da carga tributária afeta a classe média, os pequenos investidores e o setor produtivo. A falta de propostas concretas para corte de gastos e revisão da máquina pública reforça a percepção de que o ajuste fiscal é feito exclusivamente pelo lado da receita. 

Enquanto o governo defende as medidas como necessárias para garantir equilíbrio fiscal e justiça tributária, a oposição e setores empresariais apontam riscos de retração econômica, perda de competitividade e aumento da informalidade. O debate sobre o modelo tributário brasileiro segue como um dos principais temas da agenda nacional. (Especial para O Hoje)

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
justiça tributária Lula

Veja também

Lula

Segundo turno

Lula corre contra o tempo para virar jogo contra Flávio

Presidente muda estratégia no segundo turno, aposta em vídeos diretos e mobilização nas ruas, ma...
celina leão

ELEIÇÕES 2026

Em reunião com o PL, Celina Leão diz que apoio do centro pode ampliar votos de Flávio Bolsonaro

Governadora do DF participou de encontro do PL em Brasília nesta quarta-feira (7) e afirmou que ade...
“Todos queremos o bem do DF”, diz Kiko Caputo ao apoiar Celina no 2º turno

POLÍTICA

“Todos queremos o bem do DF”, diz Kiko Caputo ao apoiar Celina no 2º turno

Presidente do Novo no DF afirmou que partido terá postura crítica e destacou convergências com a ...
Leandro Grass amplia campanha nas ruas e busca alianças no 2º turno no DF

POLÍTICA

Leandro Grass amplia campanha nas ruas e busca alianças no 2º turno no DF

Candidato do PT afirma que pretende dialogar com eleitores de adversários e diz que disputa não de...
Nikolas Ferreira

Eleições 2026

Nikolas diz que não haverá acordo com Moraes caso Flávio seja eleito: “sem anistia”

Deputado reeleito defende impeachment e prisão do ministro do STF e critica decisões relacionadas ...
Flávio Bolsonaro pode indicar filha de Luiz Fux para vaga no STF

Supremo

Flávio Bolsonaro pode indicar filha de Luiz Fux para vaga no STF

Desembargadora do TJ-RJ é cotada para Corte em eventual governo do senador, diz portal
flávio bolsonaro

Constituição

Entenda o que é preciso para mudar a Constituição e como funciona uma PEC

Declaração de Flávio Bolsonaro sobre mudanças na Carta reacende debate sobre quórum, tramitaç�...
PGR é favorável a Flávio visitar Bolsonaro em prisão domiciliar

"Visita familiar"

PGR é favorável a Flávio visitar Bolsonaro em prisão domiciliar

Defesa do candidato do PL alega que se trataria de “uma única visita de caráter estritamente fam...