quarta-feira, 23 de setembro de 2026
Importante

Saúde goiana se mobiliza contra risco de colapso por insumos caros em meio ao tarifaço

Representantes de hospitais, clínicas, sindicatos e cooperativas buscam soluções conjuntas para proteger o atendimento à população

Renata Ferrazpor em
Saúde goiana se mobiliza contra risco de colapso por insumos caros em meio ao tarifaço
Foto: Marco Monteiro/Com receio dos efeitos da guerra tarifária entre Brasil e EUA, instituições alertam para possíveis dificuldades no fornecimento de insumos e aumento de custos na rede pública e privada

Diante do cenário de incertezas causado pela possível adoção de tarifas retaliatórias entre Brasil e Estados Unidos, o Governo de Goiás, por meio da Secretaria Estadual da Saúde (SES-GO), anunciou em reunião acontecida no sábado, 26 de julho, a criação de um Fórum Permanente dos Setores Público e Privado da Saúde. 

O objetivo é acompanhar de forma conjunta os efeitos da crise comercial e construir estratégias de mitigação para evitar o colapso do sistema estadual de saúde, caso a reciprocidade tarifária entre os países entre em vigor.

A decisão foi tomada durante reunião realizada na sede da Associação dos Hospitais Privados de Alta Complexidade do Estado de Goiás (Ahpaceg), em Goiânia. Participaram o secretário da Saúde de Goiás, Rasível Santos, e representantes de entidades do setor público e privado. A estrutura do fórum será semelhante à do comitê gestor da saúde criado durante a pandemia da covid-19, reunindo gestores, especialistas e entidades da cadeia produtiva da saúde.

Segundo projeções do governo estadual, caso as tarifas sejam aplicadas, o Sistema Único de Saúde (SUS) pode ter aumento de custos de US$ 1,6 bilhão ao ano, enquanto o setor privado seria impactado com mais US$ 1,65 bilhão. A soma ultrapassa US$ 3 bilhões anuais apenas em Goiás. “No ano passado, o Estado já gastou 14,31% da receita corrente líquida em saúde, sendo que o mínimo constitucional é 12%. Ou seja, já estamos operando acima do limite”, alertou Rasível.

O secretário também demonstrou preocupação com a possível quebra de hospitais privados, o que poderia causar sobrecarga ainda maior na rede pública. “Já tivemos cinco hospitais que fecharam as portas em 2025. Agora, ouvimos relatos de que outros dez estão em risco. Quando uma unidade privada fecha, o paciente migra automaticamente para o SUS, pressionando nossos serviços”, afirmou.

De acordo com o presidente da Ahpaceg, Renato Daher, o impacto será sentido especialmente na alta complexidade. Equipamentos como ressonâncias magnéticas, tomógrafos e aparelhos de hemodinâmica dependem de peças e manutenção importadas, majoritariamente dos Estados Unidos. “Não há substituição rápida. A falta desses insumos pode levar à interrupção de serviços essenciais e ao risco de desassistência de pacientes em estado grave”, disse.

Já o presidente do Conselho de Administração da Ahpaceg, Haikal Helou, destacou o risco de colapso: “Hoje, 22% da população de Goiás possui plano de saúde. Se houver aumento de desemprego e queda na renda, como reflexo da crise, essas pessoas vão deixar de pagar os planos e buscar atendimento no SUS. É um efeito cascata.”

Indústria farmacêutica teme desabastecimento

O impacto não se restringe aos hospitais. Representantes da indústria farmacêutica goiana também expressaram preocupação. Segundo Marcelo Reis, presidente do Sindicato das Indústrias Farmacêuticas de Goiás (Sinfaego), medicamentos de alto custo como os oncológicos, imunobiológicos e para doenças raras são, em sua maioria, produzidos com patentes e tecnologia dos EUA.

“Não se consegue fazer substituição de forma simples. Muitas vezes, não há sequer similares disponíveis no mercado nacional. A depender da aplicação das tarifas, podemos ter aumento expressivo de preços ou até desabastecimento em determinadas linhas terapêuticas”, afirmou.

O presidente do Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego), Rafael Martinez, alertou que a escassez de insumos compromete a atuação dos profissionais da saúde, além de provocar aumento da carga de trabalho no setor público e possível redução de vagas no setor privado.

Além da Ahpaceg, participaram da reunião outras entidades da área da saúde. Estiveram presentes representantes da Associação dos Hospitais do Estado de Goiás (Aehg) e da Unimed Goiânia, duas instituições com forte atuação no setor hospitalar e de planos de saúde.

O encontro também contou com o Sindicato dos Hospitais e Estabelecimentos de Serviços de Saúde no Estado de Goiás (Sindihoesg) e o Sindicato das Clínicas Radiológicas e de Diagnóstico por Imagem (Sindimagem). A Cooperativa dos Médicos Anestesiologistas de Goiás (Coopanest-GO) contribuiu com informações sobre os impactos para os procedimentos cirúrgicos.

Enquanto o Instituto Brasileiro das Organizações Sociais de Saúde (Ibross) levou preocupações sobre a gestão das unidades públicas. Participaram ainda o Hospital de Olhos, o Cerof/UFG, a Clínica de Esporte e a indústria farmacêutica Halex Istar, entre outras instituições.

Além da criação do fórum estadual, o secretário Rasível Santos informou que o governador Ronaldo Caiado (UB) está articulando, junto ao Fórum Nacional de Governadores, um movimento para tentar excluir o setor da saúde da lista de possíveis retaliações comerciais. “A saúde não pode ser penalizada por uma crise econômica de natureza política e comercial. O governador está em contato com outros estados e com o governo federal para construir uma solução”, afirmou.

Outro ponto debatido foi a necessidade de incentivo à produção nacional de insumos e equipamentos médicos, reduzindo a dependência de fornecedores internacionais. Segundo a Ahpaceg, a crise tarifária evidencia a fragilidade da indústria nacional da saúde e reforça a urgência de investimentos em pesquisa, inovação e desenvolvimento tecnológico.

Além disso, o fórum terá a função de articular medidas com universidades, centros de pesquisa e instituições públicas para embasar decisões com base em dados técnicos e evidências. “Precisamos de agilidade, transparência e planejamento. Estamos nos preparando para o pior, mas esperamos uma solução diplomática que impeça esse desastre”, concluiu o secretário.

A próxima etapa será a instalação oficial do fórum, prevista para agosto, com reuniões periódicas e a elaboração de planos de contingência para diferentes cenários. A expectativa é de que, com mobilização política e técnica, seja possível minimizar os danos à saúde pública e privada de Goiás.

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Mais de 2,8 mil acidentes com escorpiões são registrados no DF

Muito cuidado!

Mais de 2,8 mil acidentes com escorpiões são registrados no DF

Onde os escorpiões se escondem? Vigilância Ambiental explica como prevenir acidentes
academia

CÂMERA OCULTA

Bancário é investigado após instalar câmera em mictório de academia em Goiânia

Equipamento foi encontrado por funcionário durante limpeza do banheiro; polícia apreendeu eletrôn...
Namorado de Isabelle Caracristi é preso durante investigação em Fortaleza

TRAGÉDIA NO CEARÁ

Namorado de Isabelle Caracristi é preso durante investigação em Fortaleza

Estudante de Direito, de 22 anos, foi encontrada morta em um condomínio na capital cearense no dia ...
chuvas

ALERTA

INMET e Defesa Civil alertam para chuvas fortes e tempestades em Goiás

Órgãos orientam população sobre riscos de alagamentos, raios e ventos intensos
Influenciador de Goiânia é detido nos EUA após tentativa de entrada pela fronteira com o México

Ugoianin

Influenciador de Goiânia é detido nos EUA após tentativa de entrada pela fronteira com o México

Conhecido como “Ugoianin”, Matheus Fernandes Machado está sob custódia do serviço de imigraç...
rick

TRAGÉDIA

Helicóptero com cantor Rick é encontrado na Serra de SC; não há sobreviventes

Aeronave havia desaparecido na tarde de segunda-feira (21), durante um trajeto entre Porto Belo e S�...
Operação mira grupo suspeito de aplicar fraude milionária contra instituição financeira em Goiás

“Falso Lastro”

Operação mira grupo suspeito de aplicar fraude milionária contra instituição financeira em Goiás

Ação da Polícia Civil cumpre prisões e buscas em Goiás, São Paulo e Mato Grosso e tenta bloque...
Gameleiras da Praça da Cirrose são avaliadas após queda de galho

ARBORIZAÇÃO

Gameleiras da Praça da Cirrose em Goiânia são avaliadas após queda de galho

Amma, Defesa Civil e SET avaliaram o local na segunda (21); bióloga da Amma afirma que poda não re...