sexta-feira, 16 de outubro de 2026
Análise

Republicanos pode ser chave para Lula romper com resistência evangélica

Negativa do presidente nacional do partido, Marcos Pereira, não encerra especulações sobre aliança estratégica com o PT. Cenário pode redesenhar o jogo eleitoral, enfraquecer o Centrão e criar pontes entre Lula, a mídia evangélica e a base conservadora

Bruno Goulartpor em
Republicanos pode ser chave para Lula romper com resistência evangélica
Presidente nacional do Republicanos, deputado Marcos Pereira diz que não há aproximação. Foto: Bruno Spada/Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

Ao O HOJE, o deputado federal Marcos Pereira (Republicanos-SP) foi categórico sobre rumores de aliança com o PT: “Não há aproximação. Continuamos independentes. E apoiaremos candidatura de centro-direita”. A fala do presidente nacional do Republicanos e bispo licenciado da Igreja Universal tenta encerrar os rumores de bastidores que apontam uma articulação com o presidente Lula para 2026. Mas, como bem se sabe na política brasileira, negativas públicas nem sempre indicam afastamento real. Às vezes, são apenas uma forma de manter o jogo em aberto.

Para o cientista político Lehninger Mota, o Republicanos representa o centro político brasileiro em sua essência mais pragmática — e, por isso, não pode ser descartado como possível aliado de Lula. “A principal característica do centro no Brasil, liderado até 2018 pelo MDB, era a capacidade de dialogar com governos tanto de esquerda quanto de direita. O MDB tinha sempre as maiores bancadas, o maior número de prefeitos, governadores… Até 2018, era o centro que conseguia ser base do Fernando Henrique, que foi base do Lula”, explica.

Com a chegada de Jair Bolsonaro (PL) ao poder, Lehninger observa que houve uma guinada. “Ele fazia parte de um centro quando parlamentar, e teve aí uma pendência, pendeu-se um pouco esse centro para a direita. E com as emendas impositivas, este centro teve uma certa independência.”

Isso, segundo o analista, fez o governo federal perder parte de seu poder de barganha. “Esses deputados de centro não discutem ideologia. A discussão deles é levar benefício para os seus redutos eleitorais e com isso continuar sendo eleitos. O Republicanos tem essa característica. Esteve com Lula, com o governo Dilma, mas agora fala dessa independência do governo por conta justamente das emendas impositivas.”

Cenários hipotéticos

Para Lehninger Mota, se essa aproximação de fato acontecer, seria “um avanço importante para o PT conseguir se reconectar com essa parte da igreja”. “Já teve uma boa relação com o Edir Macedo, o grande chefe da Igreja Universal.” Para o cientista político, esse tipo de movimento seria uma grande conquista petista, pois abriria canais em um setor onde o PT enfrenta forte rejeição: o eleitorado evangélico.

O peso da TV Record

Marcos Pereira, apesar de licenciado, é bispo da Universal e, como tal, tem influência no conglomerado que controla a TV Record e rádios em todo o País. Uma reaproximação entre Republicanos e PT poderia criar espaço para que o governo aumente sua presença nesse ecossistema de mídia — tanto pelo viés institucional, quanto pela ampliação de publicidade estatal. “Se houver uma grande melhora e uma chance maior do Lula ganhar, esses partidos podem não entrar em nenhuma discussão direta, mas farão o jogo de irrigar suas bases eleitorais”, diz o cientista político.

Leia mais: Presidente da Alego joga no governo Lula responsabilidade sob Igreja da Boa Morte

A aposta, no entanto, não é de um apoio imediato. “A maior tendência é que esses partidos fiquem aguardando o momento oportuno para se posicionar — ou também fazer campanha independente”, diz Lehninger. Com as emendas impositivas, avalia o cientista político, os partidos de centro têm cada vez menos necessidade de se comprometer com um candidato a presidente. “Eles vão irrigar seus recursos eleitorais independentemente disso, sem entrar nessa oposição ou nessa dicotomia.”

Isso significa que, se a direita não tiver um nome viável em 2026, o Republicanos pode simplesmente se afastar do confronto e optar por manter sua força institucional. “Eles não vão abraçar um candidato da direita se ele realmente não tiver chance de ser eleito. É o tempo que vai dizer a atitude do partido, que faz um cálculo racional de suas atitudes para obter o maior ganho político”, resume Lehninger Mota. (Especial para O HOJE)

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Aliança governo Lula marcos pereira Republicanos

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