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domingo, 22 de fevereiro de 2026
literatura brasileira

65 anos de Quarto de Despejo

Diário de Carolina Maria de Jesus segue como referência da literatura brasileira em um país que ainda convive com a fome

Luana Avelarpor Luana Avelar em 20 de agosto de 2025
carolina maria

Em agosto de 1960, um livro escrito em cadernos retirados do lixo chegou às livrarias brasileiras e mudou para sempre a forma como a favela seria representada na literatura. Quarto de despejo – Diário de uma favelada, de Carolina Maria de Jesus (1914-1977), completa 65 anos em 2025 e permanece como um dos testemunhos mais poderosos da desigualdade social no país.

Carolina era mulher negra, mãe solo e catadora de papel. Morava no Canindé, às margens do rio Tietê, em São Paulo. Com apenas dois anos de escolaridade formal, registrava em linguagem direta a fome diária, o racismo que a isolava e a precariedade de um espaço urbano relegado ao esquecimento. Sua escrita, marcada pelo improviso, era também de uma clareza implacável. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas tomou conhecimento de seus cadernos e, dois anos depois, eles se transformaram em livro.

O impacto foi imediato. Em menos de um ano, o diário vendeu mais de cem mil exemplares, superando logo a marca de um milhão. Em pouco tempo, foi traduzido para mais de 13 idiomas e publicado em mais de 40 países. A voz de uma catadora de papel alcançava leitores de diferentes continentes e expunha ao mundo as contradições do Brasil urbano e industrial que tentava projetar uma imagem de modernidade.

A força da obra estava na crueza de seus relatos. Carolina descrevia a panela vazia, a criança que perguntava “tem mais?” e o silêncio imposto pela fome. Denunciava sem recorrer a metáforas, e ao escrever que “o Brasil precisa ser dirigido por uma pessoa que já passou fome”, transformava a experiência individual em sentença política.

O livro não envelheceu porque a realidade que revela também não desapareceu. Em 2025, dados da Organização das Nações Unidas apontam que o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome, com menos de 2,5% da população em subalimentação. A estatística é positiva, mas milhões ainda enfrentam insegurança alimentar, o que reafirma a pertinência das páginas escritas por Carolina. O Canindé foi demolido para a construção da Marginal Tietê, mas outras comunidades reproduzem a mesma cena de exclusão que ela descreveu nos anos 1950.

O sucesso da obra abriu caminho para outras da autora, como Casa de alvenaria e Diário de Bitita. Também inspirou diferentes adaptações culturais: em 1961, foi levado ao palco com Ruth de Souza no papel principal; em 1971, virou documentário alemão, censurado pela ditadura militar; em 1983, foi transformado em especial televisivo da Rede Globo. Apesar do reconhecimento inicial, Carolina enfrentou preconceitos de classe e raça, além de períodos de esquecimento. Morreu em 1977, em Parelheiros, longe dos holofotes, mas deixou uma obra que resistiu ao tempo e à marginalização.

Nas últimas décadas, sua literatura foi redescoberta e consolidada como parte fundamental da tradição brasileira. Hoje, Quarto de despejo é leitura obrigatória em escolas, objeto de pesquisa em universidades no Brasil e no exterior, e referência em debates sobre gênero, raça e desigualdade. Mais do que narrar a favela, Carolina escreveu a partir dela, inaugurando uma perspectiva inédita no cânone literário nacional. Sua voz não representava a favela de fora, mas de dentro, como experiência vivida.

Ao completar 65 anos, o livro reafirma sua atualidade. Continua a mostrar um país marcado por desigualdades estruturais, no qual a fome permanece como questão política e social. Carolina Maria de Jesus transformou escassez em palavra, improviso em documento e cotidiano em literatura. Fez de seu diário um clássico, capaz de atravessar gerações sem perder a urgência nem a potência de sua denúncia.

 

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