terça-feira, 29 de setembro de 2026
OPINIÃO

Sucesso da segurança de Goiás não serve para SP/RJ e Nordeste

Violência em Fortaleza, Recife e Salvador está faccionada como no eixo Rio – São Paulo e Rio, em que as organizações criminosas se misturam a negócios legais

Nilson Gomespor em
Foto: Divulgação/ SSPAP
Foto: Divulgação/ SSPAP

Nas últimas semanas, se multiplicaram as operações policiais e dos Ministérios Públicos na Capital paulista para prender donos de fintechs, bancos, restaurantes, padarias, redes de postos de combustíveis, motéis e outros negócios lícitos. Ué, cadê as montanhas de cocaína? Nem 1 grama nas buscas e apreensões de ontem, consequência de o PCC ter se tornado máfia, o entranhado na sociedade. A experiência pioneira é carioca, comércio de drogas e armas ao lado de botijão de gás, internet e apartamentos com um único destino, os cofres do Comando Vermelho. Em Goiás, a crueldade nunca chegou a esses requintes. Para ganhar amplitude nacional, o governador Ronaldo Caiado vai ter de adaptar o discurso.

Caiado regionalizou a saúde e inaugurou ontem o Cora, um hospital para tratamento de crianças com câncer, mas o que lhe dá popularidade no Estado é o sucesso na segurança pública. Os índices de violência caíram e os de satisfação subiram, aprovação na faixa dos 90%, a maior das unidades da Federação pesquisadas. Só que o estágio da marginalidade goiana é como a do eixo Rio – São Paulo em meados do século XX.

Em São Paulo, durante os governos do PSDB, parecia haver um pacto não firmado e muito menos escrito entre as autoridades e a máfia. Com isso, as reeleições se sucederam e o crime chegou ao ponto em que está, de fuzilar inimigos durante o dia no aeroporto mais movimentado do País ou no meio da rua da metrópole. Esse tipo de ação não se combate armando a polícia para atingir arrombador de casa ou ladrão de celular.

A estratégia usada com êxito em Goiás, de passar fogo em autores de delitos, seria pouco eficaz nos grandes centros, inclusive os de Salvador, Fortaleza e Recife, onde o crime só se equipara a Rio e São Paulo. Nas cinco zonas metropolitanas, não há mais fronteira entre o legal e o ilícito, entre o que pode e o que não pode, o honesto não pode andar nas ruas e os marginais podem fazer qualquer coisa.

Se fossem fazer a 3ª parte do filme “Tropa de elite”, o enfoque seria outro – a 1ª envolveu o consumidor da droga como corresponsável pelo tráfico e a 2ª equiparou os facínoras da política aos da polícia e dos morros. Caberia à nova versão explorar o amálgama das anteriores, com a novidade de não se saber mais as fronteiras do crime como nunca se soube seu rosto. Atualmente, só seguindo o dinheiro.

As favelas cariocas e paulistanas são irrepetíveis. Estratagema que funciona no chamado asfalto dificilmente teria efetividade entre o mar de barracos, até porque ali é somente a parte pobre da engrenagem. O grosso do lucro está com o povo fino da zona sul, dos jardins, dos morumbis. Câmera em farda tem lá sua utilidade, porém muito menos que o treinamento de auditores fiscais.

Os dois únicos lugares de Goiás com alguma concentração de foras da lei são a Grande Goiânia com Anápolis, e o Entorno de Brasília. Seria insanidade compará-los ao que acontece nas cinco áreas citadas. As soluções que dão certo em todas as urbes, exagero de câmeras e viaturas, é de pouca validade quando se enfrenta máfia. O estereótipo do sujeito escorado num poste sem luz à espera de usuário de drogas está mais defasado que máquina de escrever. Tiro de fuzil assusta a população desarmada, o que apavora o criminoso é uma polícia independente e honesta, focada em tecnologia da informação.

O crime organizado evoluiu e o poder público continua sem evolução nem organização. São muitas as polícias, estaduais (PM, Civil, Penal, Técnico-Científica) e federais (PF, PRF e até a Ferroviária), que precisam de investimento financeiro e mudança de paradigma. As operações se revelam úteis, de preferência subindo os morros e descendo os prédios envidraçados, circulando pelas ruelas da periferia e derrubando portões nos condomínios fechados, averiguando transações bancárias internacionais e esmiuçando balancetes de empresas em todas as atividades, formando agentes probos doutores em inteligência artificial e removendo os que consideram o serviço público uma forma de ficar rico.

 

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