terça-feira, 6 de outubro de 2026
Análise

Enquanto Lula conversa com Trump, direita fala sozinha em Brasília

Ato pela anistia expõe o esvaziamento do bolsonarismo no Congresso. Enquanto ex-presidente tenta manter viva a mobilização, governantes de Brasil e Estados Unidos iniciam aproximação

Bruno Goulartpor em
Enquanto Lula conversa com Trump, direita fala sozinha em Brasília
Protesto pela anistia em Brasília, nesta terça-feira (7). Foto Joédson Alves A/Br

Bruno Goulart

A manifestação convocada por aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) nesta terça-feira (7), em Brasília, para pedir anistia aos condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023 mostrou mais do que ruas vazias. Evidenciou o esvaziamento simbólico de uma direita que, até pouco tempo atrás, conseguia reunir multidões em torno de suas pautas. O ato, liderado pelo pastor Silas Malafaia e com a presença dos filhos do ex-presidente, teve início na Catedral Metropolitana e seguiu até a Praça dos Três Poderes.

Apesar da presença de figuras conhecidas — como a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL), que chorou durante o evento, e políticos como Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Gustavo Gayer (PL-GO) e o senador Wilder Morais (PL-GO) —, o público ficou muito abaixo do esperado. O cenário contrasta com o que se viu nos anos anteriores, quando bastava uma convocação para as ruas ficarem cheias de pessoas com as cores verde e amarelo, bandeiras do Brasil, de Israel e dos Estados Unidos.

Segundo o mestre em História e especialista em Políticas Públicas, professor Tiago Zancopé, o problema central da direita hoje é a falta de rumo. “A direita brasileira entendeu que a mobilização permanente seria o melhor caminho. Só que, quando você vai para a estratégia de uma mobilização permanente, você precisa ter um objetivo muito claro”, explicou. Para Zancopé, sem essa clareza, “você cria uma frustração muito grande e a pessoa para de ir”. Além disso, avalia que parte do público bolsonarista continua a ir aos atos “por tabela”, sem acreditar que a pauta possa gerar resultado real.

A crise de identidade se agrava, segundo o historiador, porque a aproximação recente entre Lula (PT) e Donald Trump — algo impensável até pouco tempo — mudou a percepção de parte da base bolsonarista. “Me parece que parte desse pessoal está vendo que a estratégia do Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos não foi benéfica para o Brasil. E as pessoas começam a olhar: se o próprio líder americano está falando que gostou do Lula, será que a gente não tem que dar um pouco de credibilidade para o nosso presidente?”, avalia Zancopé.

Leia mais: Já que a direita não quer, só a economia pode vencer Lula

A leitura do historiador é de que Lula sai fortalecido dessa mudança de cenário. “Ele fez uma ligação com Donald Trump, a ligação reverberou não só aqui no Brasil como nos Estados Unidos. Tudo aquilo que foi pensado como estratégia para enfraquecer o governo Lula fez foi fortalecer o presidente.”

Para Zancopé, essa transformação também tem um impacto prático no comportamento do eleitor de direita. “O cara olha e pensa: vou gritar por anistia ou vou agradecer o governo por tirar o desconto do meu salário com a isenção do imposto de renda? Parece que há temas mais urgentes do que essa pauta”, pondera.

Bolsonarismo confuso

A análise da advogada internacionalista Melissa Borges vai na mesma direção. Para Melissa, a aproximação entre Lula e Trump criou confusão dentro da base bolsonarista, que esperava uma rejeição mútua entre os dois líderes. “Os bolsonaristas estão confusos por conta dessa aproximação Trump-Lula, haja vista que Trump, depois do discurso do Lula na ONU, que foi bem decisivo. Ao invés de ter aquele esperado ódio, teve o efeito reverso: ele se abriu à conversa”, explicou.

Melissa analisa o diálogo entre os dois, que durou cerca de 30 minutos e envolveu altos escalões dos dois governos. “Trump delegou ao secretário de Estado Marco Rubio, que sempre foi o mais ferrenho contra os governos de esquerda da América Latina, para prosseguir com as tratativas com Geraldo Alckmin e com o Itamaraty.”

“Novo equilíbrio global”

A advogada lembra que essa mudança também reflete o novo equilíbrio econômico global. “O Brasil teve uma balança comercial vitoriosa em agosto. Isso mexeu muito com a credibilidade de Marco Rubio, porque a imposição das tarifas no Brasil não deu a Trump o poder de barganha prometido. Pelo contrário, teve resistência interna, principalmente dos fazendeiros americanos”, analisa.

Melissa destaca ainda que a China ampliou o espaço do Brasil no mercado internacional, especialmente com a redução da compra de sódio dos Estados Unidos. “Isso fez Trump perceber que o Brasil tem outros parceiros. E talvez por isso ele tenha decidido ouvir Lula com mais atenção”, observa. (Especial para O HOJE)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Bolsonarismo extrema direita manifestação em Brasília

Veja também

Flávio Bolsonaro se reúne com lideranças de Mato Grosso para ampliar apoio no segundo turno

Eleições 2026

Flávio Bolsonaro se reúne com lideranças de Mato Grosso para ampliar apoio no segundo turno

Ao lado de Mauro Mendes, Flávio Bolsonaro discute alianças para segundo turno
Lula reúne governadores do Nordeste para definir estratégias no segundo turno

Eleições 2026

Lula reúne governadores do Nordeste para definir estratégias no segundo turno

Lula discute campanha do segundo turno com governadores do Nordeste
Flávio Bolsonaro

Segundo turno

Em Goiânia, Flávio Bolsonaro defende mudança na Constituição para “redemocratizar” o país

Candidato do PL abriu segundo turno, na capital, ao lado de Caiado, Daniel e do governador de São P...
Ronaldo Caiado oficializa apoio a Flávio Bolsonaro em Goiânia

ELEIÇÕES 2026

Ronaldo Caiado oficializa apoio a Flávio Bolsonaro em Goiânia

Ex-governador de Goiás declarou apoio ao candidato do PL durante evento nesta terça-feira (6), que...
deputado estadual

nem ele votou nele

Candidato a deputado estadual em Goiás recebe zero voto: “Nem eu votei”

Raimundo Aguiar afirmou que desistiu da candidatura após pedido do partido e que não fez campanha ...
“Gay de Direita” anuncia apoio a Lula após receber 294 votos

"Adeus, bolsonarismo"

“Gay de Direita” anuncia apoio a Lula após receber 294 votos

João Pedro Satre apoiou Flávio Bolsonaro (PL) no 1º turno das eleições presidenciais
“Vamos formar uma frente ampla”, diz Grass ao iniciar busca por apoios no 2º turno no DF

POLÍTICA

“Vamos formar uma frente ampla”, diz Grass ao iniciar busca por apoios no 2º turno no DF

Petista afirma que já conversou com adversários do primeiro turno e pretende reunir lideranças po...
Daniel Vilela deve manter equipe de Caiado até fim da gestão, mas prepara mudanças

TRANSIÇÃO NO GOVERNO

Daniel Vilela deve manter equipe de Caiado até fim da gestão, mas prepara mudanças

Futuro governador deve evitar alterações imediatas e avaliar reforma administrativa para alinhar s...