quarta-feira, 7 de outubro de 2026
Alerta

Da empatia artificial ao risco humano: dilemas éticos de conviver com a IA

ssistentes virtuais, algoritmos e aplicativos oferecem suporte emocional e levantam debates sobre ética, emoções e limites humanos

Renata Ferrazpor em
IA
Foto:Bruno Peres/ABr

Em tempos de avanço tecnológico, as ferramentas de Inteligência Artificial (IA) têm conquistado espaço em praticamente todos os aspectos da vida. De assistentes virtuais a sistemas de recomendação de filmes e música,  mudança da forma como consumimos, nos comunicamos e até nos relacionamos com o mundo.

Aplicativos como Siri, Alexa e Google Assistente respondem a comandos de voz, controlam dispositivos domésticos inteligentes e ajudam na organização de tarefas rotineiras. Já serviços de streaming, como Netflix e Spotify, utilizam algoritmos para oferecer sugestões personalizadas, enquanto aplicativos de navegação, como Waze e Google Maps, calculam rotas ideais considerando trânsito, acidentes e condições climáticas. Além disso, sistemas de reconhecimento facial já são utilizados para desbloqueio de celulares, autenticação de transações bancárias e segurança pública.

A inteligência também ocupa a vida profissional e a forma como tomamos decisões. Empresas usam análise de dados para melhorar processos, otimizar vendas e identificar padrões de comportamento. Em hospitais, algoritmos ajudam a analisar exames e acelerar diagnósticos, enquanto softwares jurídicos verificam grandes volumes de documentos em segundos. 

“Ela muda não apenas como realizamos tarefas, mas também o que esperamos delas e quem as executa”, explica Jullena Normando, pesquisadora em  Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutoranda com estágio na Universidade da Califórnia, em San Diego (UCSD).

Segundo ela, é fundamental compreender que os algoritmos refletem escolhas humanas: dados enviesados ou decisões limitadas durante o treinamento podem se perpetuar e reforçar desigualdades.

Além das aplicações funcionais, a ela também assume papel relacional. Relatórios recentes, como o “Os 100 principais usos das inteligências generativa em 2025”, mostram que as três funções mais comuns da são suporte emocional, companheirismo e propósito de vida. Isso desataca que a ela está deixando de ser apenas funcional para se tornar uma presença no rorina humana.

Ética e limites de conviver 

A presença crescente dela na vida comum também levanta questões éticas complexas. Sistemas de recrutamento automatizados podem reproduzir preconceitos, algoritmos de reconhecimento podem falhar em identificar diferentes tons de pele, e o uso massivo de dados pessoais levanta riscos sérios à privacidade. 

“Grupos historicamente marginalizados podem ser ainda mais penalizados se um sistema automatizado não for cuidadosamente desenhado e treinado com dados genuinamente diversos, que refletem diferentes contextos”, alerta Jullena Normando.

Essas ferramentas já se tornou importante em múltiplos setores — desde casas inteligentes que controlam luzes e aquecedores, até reconhecimento médico e segurança pública. No entanto, estudiosos da área enfatizam que mais do que questionar o que a ela pode fazer, é necessário refletir sobre o que estamos entregando a ela e a quem ela serve. 

“Ela deve ser encarada como uma ferramenta de apoio, não como substituta do olhar humano, do vínculo terapêutico ou da ajuda profissional”, conclui o psicólogo clínico e doutor em Psicologia, Vinicius Xavier.

O desafio é aprender a conviver com ela, aproveitando seus benefícios, mas reconhecendo seus limites. Para Normando, a questão central é ética: “Precisamos de regulamentação, educação e conscientização. Ela pode ser uma ajuda poderosa, mas apenas se utilizada com responsabilidade. Do contrário, corremos o risco de naturalizar relações enganosas, reproduzir desigualdades e perder o controle sobre o uso”.

Alertam para os riscos emocionais da dependência  com a ferramenta

9 abre 2- Freepik

Um dos usos que mais tem crescido nos últimos anos é o suporte emocional por meio de chatbots, prometendo acolhimento e menos solidão, conselhos e orientação terapêutica. Embora sistemas desse tipo possam ser úteis, estudiosos alertam para os riscos psicológicos quando a ela substitui o atendimento profissional. 

Apesar da facilidade de acesso e da disponibilidade 24 horas, Xavier alerta que a relação humana na psicoterapia é insubstituível. “Psicoterapia é uma pessoa cuidando de outra com base em ciência. O acolhimento, a escuta qualificada. Uma máquina pode até dar respostas rápidas, mas nunca vai oferecer o cuidado profundo de uma relação terapêutica genuína”, afirma. 

O psicólogo clínico destaca que a essas ferramentas tecnológicas não consegue detectar nuances emocionais, sinais sutis de perigo iminente ou discernir a gravidade de sintomas, o que pode agravar quadros de sofrimento psicológico.

Jullena complementa: “Tratar elas como terapeuta ignora que esses sistemas são construídos por empresas com interesses mercadológicas: captar atenção, moldar comportamento e coletar dados. Estamos antropomorfizando esses sistemas, tratando-os como se fossem humanos. E isso é perigoso. O público naturaliza uma relação com uma entidade que não compreende o humano”. 

A ferramenta pode servir como ferramenta complementar — ajudando na organização de tarefas, monitoramento de humor ou análise de dados — mas nunca substituir a intervenção profissional.

Pesquisas internacionais mostram que usuários podem desenvolver vínculos temporários com chatbots. Um estudo da Universidade de Stony Brook (EUA), em conjuto com o Instituto Nacional de Saúde Mental e Neurociências da Índia, indicou que 1,2 mil usuários tiveram “conexão terapêutica” com chatbots em apenas cinco dias.

Leia mais: Sisu 2026 permitirá uso das notas das três últimas edições do Enem

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Sarampo avança nas Américas e Brasil reforça vigilância para evitar retorno da transmissão

ALERTA SANITÁRIO

Sarampo avança nas Américas e Brasil reforça vigilância para evitar retorno da transmissão

País registra 52 casos importados em 2026, enquanto Estados Unidos concentram o maior número de in...
PM prende mulher suspeita de série de roubos com simulacro em Goiânia

Crime

PM prende mulher suspeita de série de roubos com simulacro em Goiânia

Mulher de 41 anos teria usado uma Honda Biz e um simulacro de arma para ameaçar vítimas; celulares...
Serial killer em SP? Polícia investiga cinco corpos encontrados em sacos

MORTES EM INVESTIGAÇÃO

Serial killer em SP? Polícia investiga cinco corpos encontrados em sacos

Secretaria da Segurança Pública afirma que, até o momento, não há indícios de ligação entre ...
Goiânia faz blitz para alertar motoristas sobre pontos de alagamento

Atenção ao trânsito

Goiânia faz blitz para alertar motoristas sobre pontos de alagamento

Operação Tempo Fechado destaca 14 pontos críticos e orienta condutores sobre como agir durante o ...
Chegada das chuvas aumenta preocupação com dengue em Goiás e Goiânia

Alerta na saúde

Chegada das chuvas aumenta preocupação com dengue em Goiás e Goiânia

Estado soma mais de 103 mil casos confirmados de dengue e 81 mortes em 2026; em Goiânia, confirmaç...
UFG abre concurso com 34 vagas e salários de até R$ 13,7 mil

Concurso Público

UFG abre concurso com 34 vagas e salários de até R$ 13,7 mil

Oportunidades são para professores em diferentes áreas, com exigência de graduação e mestrado o...
João de Deus e centro espírita são condenados a pagar R$ 20 milhões

danos de abusos

João de Deus e centro espírita são condenados a pagar R$ 20 milhões

Justiça condena João de Deus e centro espírita por danos ligados a abusos sexuais
Motociclista de 50 anos é encontrado morto em córrego de Perolândia, em Goiás

ACIDENTE

Motociclista de 50 anos é encontrado morto em córrego de Perolândia, em Goiás

Polícia Militar (PM) chamou a corporação depois que o filho viu o pai no córrego, com a moto sob...