sexta-feira, 6 de novembro de 2026
desenvolvimento infantil

Racismo atinge uma em cada seis crianças na primeira infância no Brasil

Levantamento revela que mais da metade dos casos ocorre em escolas e creches, comprometendo o desenvolvimento infantil

Luana Avelarpor em
racismo
Foto: Divulgação

Antes mesmo de aprender a ler, muitas crianças brasileiras já aprendem o que é exclusão. Uma em cada seis, com até seis anos de idade, já foi vítima de racismo, segundo levantamento do Datafolha encomendado pela Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Entre os casos relatados, mais da metade ocorreu em creches ou pré-escolas, espaços que deveriam acolher, mas acabam reproduzindo as desigualdades da sociedade.

A pesquisa, feita com 2.206 pessoas em todo o país, sendo 822 responsáveis por crianças pequenas, revela o alcance precoce da discriminação racial. Os dados mostram que 16% dos responsáveis afirmam que seus filhos sofreram algum tipo de racismo, e 54% desses episódios ocorreram dentro das instituições de ensino. Outros 42% aconteceram em espaços públicos, como praças e ruas, e 20% nas vizinhanças.

Os números escancaram a naturalização do preconceito no cotidiano e também o abismo entre a realidade e a percepção social. Um em cada dez entrevistados ainda acredita que não existe racismo contra crianças, e 22% consideram que os casos são raros. O negacionismo, neste caso, é mais que um erro estatístico: é uma recusa em enxergar o país como ele é.

Entre os responsáveis pretos e pardos, 19% relataram ter presenciado situações de racismo contra crianças pequenas, proporção quase duas vezes maior que entre os responsáveis brancos, 10%. Essa diferença não é apenas uma variação de experiência, mas o retrato da desigualdade que define quem sofre e quem raramente percebe a dor.

Segundo a Fundação Maria Cecília Souto Vidigal, o impacto do racismo na infância vai muito além da ofensa. Estudos sobre desenvolvimento cognitivo indicam que até 90% do cérebro humano se forma nos primeiros seis anos de vida. Nessa fase, estímulos positivos moldam habilidades emocionais e cognitivas, enquanto experiências de discriminação geram o que especialistas chamam de estresse tóxico — um estado contínuo de alerta que interfere na formação da autoestima e na capacidade de aprendizado.

Quando a criança é rejeitada ou ridicularizada por características físicas, o corpo reage com a mesma intensidade de um trauma. A repetição desses episódios cria marcas invisíveis que se projetam na vida adulta: dificuldades de concentração, medo de exposição, insegurança social e, em alguns casos, adoecimento psíquico. O racismo, portanto, não é um acontecimento isolado — é uma condição que se instala cedo e molda a forma como o sujeito habita o mundo.

O ambiente escolar, responsável por introduzir a criança à vida em grupo, desponta como o espaço mais recorrente dessas violências. O dado, que poderia causar espanto, apenas confirma o quanto a educação brasileira ainda reflete padrões de exclusão herdados de uma sociedade racialmente hierarquizada. A creche, que deveria ser um lugar de acolhimento e aprendizagem, torna-se, muitas vezes, o primeiro espelho da desigualdade.

Outro ponto revelado pela pesquisa é o peso da escolaridade na percepção do racismo. Entre pessoas com ensino superior, 74% reconhecem que crianças pequenas estão expostas à discriminação racial. Entre aquelas com ensino fundamental, esse número cai para 53%. A diferença sugere que a capacidade de reconhecer o preconceito é também uma questão de letramento racial e de acesso à informação.

Duas décadas após a criação da Lei 10.639, que obriga o ensino da história e da cultura afro-brasileira e africana na educação básica, o país ainda falha em transformar a legislação em prática cotidiana. A norma, muitas vezes, permanece restrita ao calendário de datas comemorativas, tratada como exceção em vez de fundamento do currículo.

A primeira infância é o território onde o país revela suas cicatrizes mais fundas. Ali, entre brinquedos e cadernos, o racismo se disfarça de brincadeira, se infiltra nas palavras e ganha a força de uma marca duradoura. Quando a sociedade se recusa a enxergar essas feridas, priva suas crianças de algo fundamental: o direito de existir sem medo.

racismo
O racismo na infância mina a curiosidade e a confiança: na sala de aula, o país ensina quem pode sonhar e quem deve se calar. Foto: Divulgação

Leia mais: https://ohoje.com/2025/09/04/racismo-online-atinge-recorde-e-expoe-jovens-negras-como-principais-vitimas/

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Seu cachorro coça muito a orelha? Veja os sinais que podem indicar otite

ATENÇÃO!

Seu cachorro coça muito a orelha? Veja os sinais que podem indicar otite

Balançar a cabeça, apresentar mau cheiro e sentir dor ao toque são mudanças que merecem avaliaç...
Horóscopo do dia (07/11): veja as previsões para o seu signo

ASTROS

Horóscopo do dia (06/11): veja as previsões para o seu signo

Libra é o destaque desta sexta-feira, com oportunidades de recuperar o equilíbrio nas relações; ...
Goiânia recebe neste domingo (8) a Corrida 100% Você

ESPORTE

Goiânia recebe neste domingo (8) a Corrida 100% Você

Evento idealizado por Bell Marques e pelos filhos Rafa e Pipo terá percursos de 5 km e 10 km, com l...
marília mendonça

ETERNAS SAUDADES

5 anos sem Marília Mendonça: relembre a trajetória e os sucessos da Rainha da Sofrência

Da composição na adolescência aos grandes palcos, cantora goiana conquistou espaço no sertanejo ...
Horóscopo do dia (07/11): veja as previsões para o seu signo

ASTROS

Horóscopo do dia (05/11): veja as previsões para o seu signo

Quinta-feira traz reflexões sobre relacionamentos, oportunidades profissionais e organização das ...
Seu pet pode ter o sobrenome da família; veja como fazer o registro

CARAMELO COM NOME E SOBRENOME!

Seu pet pode ter o sobrenome da família; veja como fazer o registro

Documento reúne informações do animal e de quem cuida dele e pode ajudar em situações como desa...
Anvisa aprova semaglutida em comprimido para tratar obesidade

NOVA ALTERNATIVA

Anvisa aprova semaglutida em comprimido para tratar obesidade

Wegovy oral contém o mesmo princípio ativo da versão injetável e amplia as opções para pacient...
Seu pet é realmente feliz? Veja os sinais que ajudam a descobrir

INCONFUNDÍVEL!

Seu pet reconhece você pelo cheiro? Veja o que estudos mostram sobre cães e gatos

Animais conseguem diferenciar odores familiares e desconhecidos, mas também usam a voz, a aparênci...