segunda-feira, 21 de setembro de 2026
PL Antifacção

Projeto que equipara facções criminosas ao terrorismo gera crise entre Planalto e Congresso

Nomeado relator na sexta (7), Derrite apresentou o primeiro substitutivo ao “PL Antifacção” em poucas horas. Governo critica texto por ter sido feito às pressas e por desorganizar a legislação penal

Bruno Goulartpor em
Projeto que equipara facções criminosas ao terrorismo gera crise entre Planalto e Congresso
A Câmara dos Deputados deve votar nesta terça-feira (11) o projeto conhecido como “PL Antifacção”. Foto: Pablo Valadares/Câmara dos Deputados

Bruno Goulart

A Câmara dos Deputados deve votar nesta terça-feira (11) o projeto conhecido como “PL Antifacção” (PL 5.582/2025), que pretende endurecer o combate ao crime organizado no País. O texto original, enviado pelo governo federal, foi significativamente alterado pelo relator, deputado Guilherme Derrite (PP-SP), que anunciou mudanças no substitutivo nesta segunda-feira (10). As alterações no projeto foram recebidas com entusiasmo pela oposição, mas provocaram forte reação do Ministério da Justiça e de líderes da base governista.

O substitutivo de Derrite mantém a essência de enfrentamento às organizações criminosas, mas muda o eixo central do projeto. O ponto mais polêmico é a inclusão das atividades de facções na Lei Antiterrorismo (Lei 13.260/2016), ao equiparar suas ações aos atos de terrorismo. Essa ampliação, segundo o relator, busca “dar efetividade ao combate” e “tirar a timidez do texto enviado pelo governo”. Para o Planalto, a mudança “banaliza o conceito de terrorismo” e pode gerar interpretações internacionais indevidas, o que comprometeria acordos e a soberania brasileira.

Além disso, Derrite propõe o endurecimento geral das penas para todos os integrantes das facções, sem distinção de hierarquia ou relevância dentro do grupo. O relator retirou do projeto a possibilidade de redução de pena para membros de menor participação, medida que o governo via como incentivo à colaboração e à reintegração social. Para o deputado, que é ex-secretário de Segurança Pública do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), essa flexibilização “abriria espaço para o desencarceramento de soldados do crime”.

Leia mais: LDO e LOA seguem paralisadas na Câmara de Goiânia

Outro ponto que provocou embate no projeto foi a redução da participação federal nas ações de combate ao crime organizado. O substitutivo elimina a integração direta da Polícia Federal e do Ministério da Justiça nas operações conjuntas, o que deixaria o foco de atuação mais próximo das forças estaduais. Também foi suprimida a previsão de intervenção judicial em empresas suspeitas de ligação com facções, com a manutenção apenas do bloqueio cautelar de bens.

Divergências sobre projeto

Ao O HOJE, o deputado Alberto Fraga (PL-DF) elogiou o novo projeto e destacou o que considera um avanço na política de segurança pública. “O relator tirou a timidez do governo. As penas que se aplicam ao terrorismo passarão a valer também para o crime organizado. Crimes como o novo cangaço, ataques a presídios e instalação de barricadas serão tratados como graves. Só endurecendo as penas vamos coibir essas práticas”, afirmou. 

Para Fraga, colocar os chefes de facção em prisões de segurança máxima é medida essencial para impedir que continuem no comando de ações criminosas de dentro dos presídios. Já o governo federal reagiu com preocupação às alterações no projeto. O secretário nacional de Segurança Pública, Mário Sarrubbo, avaliou que o parecer de Derrite “desestabiliza o sistema penal e processual brasileiro”. 

Em entrevista à imprensa, Sarrubbo alertou que a inclusão das facções na Lei Antiterrorismo, no projeto, pode deixar o País “à mercê de interpretações externas”, o que afetaria a credibilidade internacional do Brasil. “Vamos ser francos. Se os Estados Unidos entenderem que o crime organizado está equiparado ao terrorismo, isso pode gerar sanções e afetar o País da mesma forma que ocorre em nações como a Venezuela”, disse Sarrubbo.

Derrite, por sua vez, defende que o endurecimento do projeto é “necessário e urgente” diante da expansão das facções criminosas em todo o País. Em seu parecer, o relator justifica que a Lei das Organizações Criminosas já estaria esgotada e não comportaria novos tipos penais. Por isso, propõe a atualização da Lei Antiterrorismo para incluir grupos criminosos, milícias e organizações paramilitares no projeto. (Especial para O HOJE)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Facções Guilherme Derrite PL Antifacção terrorismo

Veja também

Marconi Perillo

ELEIÇÕES 2026

Marconi Perillo recebe apoio de entidades de policiais e bombeiros

Candidato apresentou propostas para militares da ativa e da reserva durante reunião com representan...
Mensagens mostram contato de Ibaneis com Vorcaro durante negociação do Master

Investigação

Mensagens mostram contato de Ibaneis com Vorcaro durante negociação do Master

Registros indicam troca de documentos e conversas entre ex-governador e banqueiro durante tratativas...
Prazo para Mendonça responder a acusações de Moraes termina nesta segunda (21)

STF

Prazo para Mendonça responder a acusações de Moraes termina nesta segunda (21)

Moraes alega que os relatórios de inteligência da Polícia Federal (PF) enviados a Edson Fachin in...
Ciro Nogueira ataca Boulos e Lula após rumor sobre ministério

Operação Compliance Zero

PF apreende dólares, euros e liras turcas em escritório de Ciro Nogueira

Valores foram encontrados durante a 5ª fase da Operação Compliance Zero, que investiga suspeitas ...
Flávio Bolsonaro e pai de Neymar cobraram Vorcaro, aponta PF

"Estão me cobrando"

Flávio Bolsonaro e pai de Neymar cobraram Vorcaro, aponta PF

Mensagens indicam cobrança das partes por recursos ligados a filme sobre Bolsonaro e negociação c...
Celina anuncia 13 mil atendimentos para crianças com TEA e promete ampliar rede no DF

POLÍTICA

Celina anuncia 13 mil atendimentos para crianças com TEA e promete ampliar rede no DF

Governadora afirma que parceria com a APAE busca enfrentar fila por atendimento especializado e defe...
Celina leva agenda ao Gama e amplia articulação com diferentes setores no DF

POLÍTICA

Celina leva agenda ao Gama e amplia articulação com diferentes setores no DF

Governadora e candidata à reeleição assina ordens de serviço, visita obras e se reúne com repre...
Contratos milionários na Saúde de Goiás entram na mira da PF; investigação aguarda perícia

INVESTIGAÇÃO

Contratos milionários na Saúde de Goiás entram na mira da PF; investigação aguarda perícia

Apuração envolve empresas contratadas por hospitais estaduais e suspeitas investigadas pela Políc...