segunda-feira, 24 de agosto de 2026
ocupa centro

Ocupa o Centro fortalece uso cultural da Rua 8, mas revitalização para por aí

Projeto amplia circulação de pedestres e atividades culturais na Rua 8 e Rua do Lazer, enquanto especialistas sugerem ajustes para integrar outras áreas do Centro

Anna Salgadopor Anna Salgado em
rua 8
Fechamento da Rua 8 em horários específicos tem estimulado shows, feiras e convivência desde agosto de 2025 | Foto: Divulgação/SET

A cidade de Goiânia reacendeu o debate sobre seu Setor Central com a implementação do projeto “Ocupa o Centro”, uma iniciativa da prefeitura inspirada em lei de autoria da vereadora Aava Santiago (PSDB), que busca transformar a Rua 8, a histórica Rua do Lazer, em um polo de cultura e convivência. 

O projeto, que entrou em vigor em meados de agosto de 2025, completou cerca de três meses de aplicação em novembro, mas o entusiasmo inicial com a ocupação popular da via esbarra em um questionamento estrutural levantado por especialistas: a revitalização de Goiânia será apenas o “urbanismo de uma só rua”?.

A proposta central do “Ocupa o Centro”, instituída pela Lei nº 11.293, é restringir a circulação de veículos no trecho da Rua 8, entre a Avenida Anhanguera e a Rua 4, no Setor Central. O fechamento ocorre às sextas-feiras e sábados, a partir das 18 horas, e aos domingos e feriados, durante todo o dia, visando ampliar o espaço para pedestres. 

O objetivo da vereadora é resgatar a vocação cultural da Rua do Lazer, recuperando o protagonismo da região como opção de entretenimento e lazer. A parlamentar também defende que o projeto é um “marco regulatório permanente para a ocupação dos espaços públicos”.

A lei que deu origem ao projeto percorreu um longo caminho até ser efetivamente implementada pela prefeitura. Em 2021, Aava apresentou o Projeto de Lei 562/2021, que propunha o fechamento de parte da Rua 8 aos domingos e feriados para uso de pedestres e ciclistas. 

A proposta avançou apenas em 18 de abril de 2024, quando foi aprovada em segunda votação na Câmara Municipal e encaminhada para sanção ou veto do então prefeito Rogério Cruz (Solidariedade). Em 16 de outubro de 2024, a Comissão de Constituição e Justiça derrubou o veto do Executivo ao projeto, e, no dia 12 de novembro do mesmo ano, o Plenário da Câmara rejeitou o veto integral do prefeito, levando o presidente da Casa a promulgar a lei. Em dezembro de 2024, a norma foi oficialmente sancionada/promulgada como lei municipal nº 11.293.

Apesar disso, sua aplicação prática só ocorreu meses depois: em 15 de agosto de 2025, a prefeitura colocou o “Ocupa o Centro” em funcionamento. No fim daquele mês, a autora da lei observou publicamente que a iniciativa estava sendo executada pelo terceiro fim de semana consecutivo. Agora, com cerca de três meses de funcionamento, a cidade começa a perceber os primeiros impactos do projeto.

O urbanista Fred Le Blue, doutor em Planejamento Urbano e Regional, critica a forma como a revitalização está sendo conduzida, alertando para o risco de a iniciativa fracassar ou repetir erros do passado. Para ele, a ordem das ações está invertida: a revitalização precisa ocorrer antes do fechamento, pois sem infraestrutura básica como calçadas adequadas, iluminação, segurança e limpeza, o espaço não se sustenta. 

A ausência de manutenção básica foi um problema que, por anos, afastou frequentadores do centro. O especialista defende que a revitalização deve ser construída “a muitas vozes”, com protagonismo aos moradores e trabalhadores, e não apenas a comerciantes e incorporadores.

Le Blue critica duramente a concentração de esforços em uma única via, classificando a ação de “urbanismo de uma só rua”. Segundo ele, focar somente na Rua 8 é “perder a noção de floresta”. Goiânia tem diversas ruas históricas, mas o entusiasmo se concentra apenas na Rua 8, embora o centro ainda viva uma certa decadência, especialmente à noite e nos finais de semana. 

Ele sugere medidas simples e simbólicas, como aplicar a Lei da Fachada Limpa, para resgatar o orgulho dos goianienses e dar visibilidade à arquitetura Art Déco, que está em grande parte do Centro.

Outro ponto de alerta é o risco de elitização do Centro. Fred explica que, em muitas cidades, quando o espaço é valorizado, os aluguéis sobem, e a população tradicional é forçada a sair, fazendo o Centro perder sua identidade. Ele nota que a cena cultural, que já foi diversa e popular, foi perdendo espaço por falta de apoio e pressão econômica, restando hoje espaços mais elitizados. 

A professora de arquitetura Maria Ester de Souza, complementa que as propostas para o Centro são muitas vezes vistas como “maquiagem” e não olham para a região como um bairro que precisa ter sua diversidade preservada, olhando historicamente apenas para as avenidas Goiás, Anhanguera e para a Rua 8.

O professor de cinema Lisandro Nogueira, da Universidade Federal de Goiás (UFG), reforça que o que é necessário é uma política urbana séria, como a implementada em Curitiba, que revitalize o centro para que as pessoas morem lá efetivamente, garantindo vida noturna e cultural.

RUA 8
Urbanistas apontam que melhorias estruturais e ações contínuas podem ampliar os efeitos positivos para todo o Setor Central | Foto: Divulgação/Secom

Rua 8 ganha público, mas conflito com Cine Ritz expõe limites da intervenção

A reocupação do espaço gerou uma série de respostas, tanto positivas quanto negativas, entre o público e os estabelecimentos tradicionais da Rua 8. De um lado, frequentadores relatam uma maior sensação de segurança para estar na rua desde o fechamento, já que antes a ocupação era perigosa devido à passagem de carros e motos. 

Muitos notaram uma mudança positiva e “radical” com maior movimentação, programações e a abertura de novos bares. O movimento é visto como positivo para a revitalização e para o público, motivando alguns a explorarem e conhecerem outros lugares na região que não frequentavam antes. 

Uma frequentadora considerou que a nova política serviu para “formalizar” um movimento que já acontecia. Ela sugere que a iniciativa é um passo relevante para a prefeitura valorizar os espaços, talvez com a contratação de seguranças para atrair públicos diferentes, como famílias com crianças. 

Outra pessoa acha que o fechamento foi positivo para a Rua do Lazer, que estava “praticamente abandonada à noite”, mas, em sua perspectiva, o local está muito cheio agora, dificultando encontrar um lugar para sentar e ficar confortável.

Do outro lado, a implementação do projeto gerou um forte conflito com o Cine Ritz, o cinema de rua mais antigo e em atividade da Capital, considerado Patrimônio do Centro de Goiânia. O Cine Ritz denunciou ter sido alvo de vandalismo após o fechamento da Rua 8, tendo sua fachada pichada e vidros quebrados. 

O cinema ressaltou que o público, incluindo famílias e crianças, deixou de frequentar o local devido ao barulho excessivo, à falta de segurança e de estacionamento provocados pelo uso da Rua 8 para “festas e badernas”. O estabelecimento alegou que não foi consultado sobre as medidas de fechamento. 

A revitalização: um paradigma de “rua única”?

A concentração do projeto na Rua 8 levanta o dilema sobre a real capacidade do “Ocupa o Centro” de reverter décadas de abandono em todo o Setor Central. Aava defende que o projeto é parte de um bloco maior de propostas legislativas, e que outros projetos, como a extensão do calçadão da Rua do Lazer até a Rua 8 e leis de incentivo cultural, estão em debate na Câmara. Ela enfatiza que o objetivo é que o Centro seja permanentemente um espaço de convivência, não dependendo apenas de um calendário cultural.

Contudo, Fred Le Blue e a professora Maria Ester de Souza insistem que a atenção limitada à Rua 8 ignora a complexidade do Centro. A gestão do atual prefeito, Sandro Mabel, demonstrou interesse em reformular projetos anteriores. Mabel pretende focar a remodelação em todo o Centro, começando pelo Jóquei Clube, seguindo pela Rua 3 e Avenida Goiás (com incentivo à reforma de fachadas e paisagismo), e só depois reformular o uso da Rua 8, inspirando-se em vias europeias com cantinas italianas e músicos.

rua 8
Fechamento da Rua 8 em horários específicos tem estimulado shows, feiras e convivência desde agosto de 2025 | Foto: Divulgação/SET

 

Leia também: Acervo da Biblioteca Comunitária Guiomar Alves é inaugurado em quilombo de Cromínia com foco em autores negros e indígenas

 

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:

Veja também

Chikungunya avança mais de 400% em Goiás e acende alerta contra o Aedes aegypti

Atenção na saúde

Chikungunya avança mais de 400% em Goiás e acende alerta contra o Aedes aegypti

Enquanto os casos de dengue apresentam redução em relação a 2025 e a zika segue com baixa circul...
Governo de Goiás convoca 225 professores aprovados em concurso de 2022

Concurso Público

Governo de Goiás convoca 225 professores aprovados em concurso de 2022

Profissionais serão nomeados ainda em agosto e começam a atuar na rede estadual de ensino em setem...
Incêndio

FOGO NA SERRA

Incêndio já destruiu mais de 600 hectares em Goiás

Equipes do Corpo de Bombeiros e da Semad reforçaram o combate às chamas neste domingo diante do ri...
Avião

susto

Avião faz pouso forçado em rodovia de Goiás e assusta motoristas

Aeronave precisou interromper o voo durante o trajeto pelo interior de Goiás e acabou sendo retirad...
mulher

RELATO

“Eu amei muito ele”, diz mulher resgatada após passar cinco dias em cativeiro em Goiás

Emiliane Tamara Nunes, de 24 anos, afirmou que havia terminado o relacionamento com o ex-companheiro...
Azul

JUSTIÇA

Adolescente ganha R$ 10 mil após mudança de voo da Azul em Goiânia

Companhia antecipou trecho em oito horas, aumentou o tempo de conexão e fez estudante perder compro...
Incêndios mobilizam equipes no nordeste de Goiás neste fim de semana

COMBATE A INCÊNDIOS

Incêndios mobilizam equipes no nordeste de Goiás neste fim de semana

Combate às chamas reúne bombeiros, brigadistas e equipes ambientais em Colinas do Sul e na GO-239 ...
Rotatória

TRÂNSITO

Rotatória em frente ao Hugol em Goiânia será retirada; veja o que muda

Obra na Região Noroeste de Goiânia deve durar até 45 dias e prevê novos acessos, semáforos e si...