Agricultores tomam às ruas de Bruxelas contra acordo Mercosul-UE
Tratores tomam Bruxelas e agricultores pressionam líderes durante cúpula decisiva sobre o acordo com o Mercosul
Milhares de agricultores europeus ocuparam Bruxelas nesta quinta-feira (18) para protestar contra a política agrícola do bloco e, principalmente, contra o acordo Mercosul-UE. A manifestação ocorreu no mesmo dia em que líderes dos 27 países-membros participaram da última cúpula europeia do ano, considerada decisiva para o futuro do tratado.
Imagens mostram centenas de tratores circulando pela capital belga e manifestantes queimando pneus, além de atirar batatas e outros objetos contra policiais nas imediações do Parlamento Europeu. A polícia belga reprimiu o protesto com gás lacrimogêneo e canhões de água.

Agricultores temem ameaça comercial
Segundo as autoridades locais, o ato havia sido autorizado com a presença de até 50 tratores, mas mais de 1.000 veículos agrícolas chegaram à cidade, a maioria com placas da Bélgica. A estimativa oficial aponta cerca de 7.000 manifestantes. Em um dos momentos mais tensos, um trator foi dirigido contra uma linha da tropa de choque, sem registro de feridos.
Os agricultores afirmam que o acordo com o Mercosul ameaça setores sensíveis da agricultura europeia, como carne bovina, aves, açúcar e soja. Além disso, protestam contra a possibilidade de cortes nos subsídios do setor, tema que está em debate na Comissão Europeia no contexto das prioridades orçamentárias do bloco.
O acordo Mercosul-UE prevê a redução ou eliminação de tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Caso seja aprovado pelo Conselho Europeu, a assinatura do texto final está prevista para sábado (20), durante a cúpula de chefes de Estado do Mercosul. A proposta enfrenta resistência liderada pela França, enquanto Itália, Hungria e Polônia têm demonstrado apoio.
França se oporá à adoção do pacto
Durante a cúpula em Bruxelas, o presidente francês, Emmanuel Macron, afirmou que o país não apoiará o tratado sem novas salvaguardas para seus agricultores. “Quero dizer aos nossos agricultores, que manifestam claramente a posição francesa desde o início: consideramos que as contas não fecham e que este acordo não pode ser assinado”, declarou. Macron acrescentou que a França se oporá a qualquer tentativa de forçar a adoção do pacto.
Produtores franceses veem o acordo como um risco, argumentando que agricultores da América Latina estariam sujeitos a regras ambientais menos rigorosas. Embora a Comissão Europeia tenha apresentado garantias de proteção para setores considerados sensíveis, representantes do setor avaliam que as medidas são insuficientes.

Na terça-feira (16), o Parlamento Europeu aprovou dispositivos que criam um mecanismo de monitoramento do impacto do acordo sobre produtos como carne bovina, aves e açúcar. As regras permitem a aplicação de tarifas caso haja desestabilização do mercado, incluindo situações em que o preço de um produto latino-americano fique ao menos 5% abaixo do praticado na UE e o volume de importações isentas de tarifas aumente mais de 5%.
Apesar dessas salvaguardas, Paris pediu o adiamento da assinatura do tratado. O cenário ainda depende da posição da Itália, que tem sinalizado de forma ambígua nos últimos meses. Caso Roma se alinhe à França, os dois países, junto com Polônia e Hungria, podem formar uma maioria qualificada capaz de barrar o acordo.
Do lado sul-americano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que o Brasil não pretende prolongar as negociações. “Eu agora estou sabendo que eles não vão conseguir aprovar. Está difícil, porque a Itália e a França não querem fazer por problemas políticos internos. E eu já avisei para eles: se a gente não fizer agora, o Brasil não fará mais acordo enquanto eu for presidente”, declarou.