Mortes por afogamento infantil se repetem a cada verão
Dados mostram que a maior parte dos casos ocorre dentro de casa, especialmente em períodos de recesso escolar
O afogamento infantil no Brasil não é um evento raro nem imprevisível. Ele se repete com regularidade, especialmente nos meses de verão, quando escolas entram em recesso e a rotina doméstica se reorganiza em torno do calor e do lazer. Entre 2010 e 2023, o país registrou 71.663 mortes por afogamento, segundo dados oficiais. Parte expressiva dessas vítimas era formada por crianças pequenas, sobretudo na faixa de 1 a 4 anos, idade em que o afogamento figura entre as principais causas de morte. O dado desloca o problema do território da fatalidade para o da responsabilidade cotidiana.
Um risco previsível
A imagem mais recorrente associa o risco a praias, rios ou grandes piscinas públicas. Os números, no entanto, apontam para um cenário mais íntimo. A maior parte dos afogamentos infantis ocorrem dentro de casa. Piscinas residenciais concentram mais da metade dos casos nessa faixa etária, mas o perigo não se limita a elas. Baldes, bacias, banheiras, chuveiros, caixas d’água e outros reservatórios de pequeno porte integram um mapa de risco que atravessa o ambiente doméstico. Crianças pequenas não precisam de profundidade para se afogar. Bastam poucos centímetros de água e alguns segundos de distração.
Afogamento infantil: o perigo mora no ambiente doméstico
O período de férias amplia essa exposição. Com mais tempo livre e circulação constante entre casas de parentes, condomínios e áreas de lazer compartilhadas, a supervisão tende a se fragmentar. O cuidado é diluído entre vários adultos, ninguém se responsabiliza de forma exclusiva, e o risco cresce. Diferentemente de outros acidentes, o afogamento raramente é ruidoso. Ele acontece em silêncio, sem pedido de ajuda, sem tempo para correção tardia.
Dados da Sociedade Brasileira de Pediatria indicam que, em média, três crianças e adolescentes morrem por afogamento todos os dias no país. Segundo a entidade, cerca de 89% dos casos decorrem da ausência de supervisão direta e contínua. A estatística expõe um padrão recorrente: o afogamento infantil não costuma estar ligado a situações extremas, mas a falhas breves de atenção, à confiança excessiva no ambiente doméstico e à falsa ideia de que a presença de adultos, por si só, garante segurança.
A expansão do lazer aquático acentuou esse cenário. Piscinas privadas tornaram-se símbolo de conforto, valorização imobiliária e bem-estar. A água passou a ocupar lugar central no cotidiano das famílias, mas a cultura de prevenção não acompanhou esse avanço. Barreiras físicas, protocolos claros de vigilância e preparo para situações de emergência seguem longe de ser regra. O resultado é um risco previsível, que se reproduz a cada verão e atinge principalmente crianças pequenas, ainda incapazes de reagir sozinhas.
Estar presente não é o mesmo que vigiar
Especialistas em segurança aquática apontam a supervisão ininterrupta como a principal medida de prevenção. Não basta estar presente no mesmo espaço. É necessário observar ativamente, sem distrações, com capacidade física e técnica para agir em caso de emergência. Em residências, ao contrário de piscinas públicas, raramente há alguém designado exclusivamente para essa função. Em muitos casos, adultos se ocupam de outras tarefas, conversam ou utilizam o celular, enquanto acreditam manter o controle da situação.
A prevenção envolve também decisões estruturais. Cercas ao redor das piscinas, portões com fechamento automático, alarmes, câmeras e ralos anti-sucção reduzem riscos, mas não substituem a vigilância humana. Crianças não devem vigiar outras crianças. Adultos responsáveis por ambientes com água precisam conhecer técnicas básicas de primeiros socorros e ressuscitação cardiopulmonar. Banheiras, baldes e bacias devem ser esvaziados após o uso. Tampas de vasos sanitários precisam permanecer fechadas. Pequenas escolhas diárias acumulam impacto real.
Em situações de emergência de afogamento infantil , o tempo é decisivo. A orientação é acionar imediatamente o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência, pelo número 192, ou o Corpo de Bombeiros, pelo 193. Cada minuto sem atendimento reduz as chances de reversão de um quadro grave. Ainda assim, a maioria dos afogamentos ocorre longe de qualquer socorro imediato, o que reforça o peso da prevenção como única estratégia efetiva.
O verão, ao se repetir, não traz apenas calor e descanso. Ele expõe um problema que o país insiste em tratar como episódico. O afogamento infantil é conhecido, mensurável e evitável. Ele persiste não por falta de informação, mas pela dificuldade de transformar cuidado em prática permanente. Enquanto a água continuar sendo vista apenas como cenário de lazer, e não como espaço que exige vigilância constante, a estatística de afogamento infantil seguirá se renovando a cada temporada.

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