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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026
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Familiocracia

O que leva esposas de governadores e políticos ao centro da eleição de 2026

Movimento de mulheres de líderes políticos rumo ao Senado e à Câmara não é novo e chama atenção do eleitor para a perpetuação de famílias na política brasileira

Bruno Goulartpor Bruno Goulart em 5 de janeiro de 2026
O que leva esposas de governadores e políticos ao centro da eleição de 2026
Michelle Bolsonaro e as primeiras-damas de Goiás e Mato Grosso, Gracinha Caiado e Virgínia Mendes, são algumas das que devem concorrer. Fotos: Adalberto Ruchelle Hegon Guimarães, Walter Folador, Divulgação PL Mulher e Reprodução

Bruno Goulart

Um fenômeno antigo da política brasileira que, de dois em dois anos, retorna à política tanto no âmbito municipal quanto nos estaduais e nacional: o ingresso de esposas de políticos no jogo eleitoral majoritário e proporcional. Primeiras-damas e companheiras de lideranças nacionais e regionais surgem como pré-candidatas competitivas ao Senado e à Câmara dos Deputados, ancoradas em visibilidade pública, redes políticas consolidadas e, sobretudo, no capital eleitoral acumulado por seus maridos ao longo de mandatos e campanhas.

Em Goiás, o exemplo mais claro é o da primeira-dama Gracinha Caiado (União Brasil). Com protagonismo no governo do marido, o governador Ronaldo Caiado (UB) — especialmente na área social —, Gracinha deixou de ser coadjuvante para se tornar um dos nomes mais fortes da disputa ao Senado, de acordo com as mais recentes pesquisas de intenção de votos.

Gracinha Caiado

Segundo o especialista em marketing político Luiz Carlos Fernandes, trata-se de uma prática conhecida, embora adaptada às regras contemporâneas do jogo eleitoral. “É uma prática antiga. Qual é a diferença [hoje]? A diferença é que agora existe uma cota de 30% para as mulheres. E essa cota não se aplica só à candidatura, mas também ao Fundo Partidário e ao Fundo Eleitoral”, analisa ao O HOJE.

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Ou seja, além da transferência simbólica de prestígio, há também um incentivo financeiro objetivo. “Os caciques políticos têm todo o interesse: além de deixar a família no poder, a candidatura feminina traz duas vantagens: mantém o controle político e garante mais recursos para o partido e para as campanhas”, completa Fernandes.

Nesse contexto, Gracinha Caiado confirma que a decisão foi amadurecida no ambiente familiar, mas impulsionada pela projeção pública construída nos últimos anos. “Começaram a falar meu nome para a disputa e uma amiga me contou. Foi só aí que comecei a pensar no assunto e resolvi conversar em casa. Minhas filhas não queriam, por saberem das dificuldades da vida pública, e o Ronaldo deixou que eu tomasse minha decisão. Tenho certeza que ele vai apoiar minha campanha”, afirmou em entrevista ao jornal O Globo.

Michelle Bolsonaro

Ao mesmo tempo, o fenômeno extrapola Goiás. No plano nacional, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) desponta como uma das principais apostas do partido para 2026. Forte junto ao eleitorado conservador e evangélico, Michelle chegou a ser cotada como alternativa presidencial e hoje é vista como potencial candidata ao Senado pelo Distrito Federal. 

Situação semelhante ocorre no vizinho Mato Grosso, onde a possível candidatura de Virgínia Mendes, esposa do governador de Mato Grosso, Mauro Mendes (UB), à Câmara dos Deputados tem sido incentivada. Embora adote cautela, Virgínia reconheceu ao O Globo o apoio do marido: “O Mauro sempre apoiou meu trabalho social. Tenho certeza de que continuará me apoiando em qualquer missão”.

Para Fernandes, o traço comum é que a lógica do capital familiar não respeita fronteiras ideológicas. “Alguns vícios da política são adotados até pela esquerda. Essa ideia de herança natural, de que pelo fato de ser da minha família já é bom, extrapola ideologias”, afirma. O especialista em marketing político cita exceções históricas, como Lula e Iris Rezende, que não construíram herdeiros políticos diretos — embora, no caso goiano, a filha do ex-governador goiano, Ana Paula Rezende, tente ser candidata ao Senado em 2026.

Esquerda

Ainda assim, o movimento é mais visível à direita. A avaliação do especialista é que partidos conservadores têm apostado nessas candidaturas para ampliar o alcance junto ao eleitorado feminino, sem necessariamente fortalecer pautas feministas.

Mesmo ao tentar fugir dessa lógica, a esquerda ensaia movimentos semelhantes. Em São Paulo, o PSOL aposta na pré-candidatura de Natalia Szermeta Boulos, advogada e esposa do ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, à Câmara dos Deputados. Natalia, porém, rejeita a ideia de ser apenas um prolongamento político do marido. “Tenho mais de 20 anos de militância no MTST. Quem me trata apenas como ‘mulher do Boulos’ usa o machismo mais escancarado”, afirmou ao O Globo. (Especial para O HOJE)

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