domingo, 1 de novembro de 2026
OPINIÃO

Vitórias da direita tiram do poder da deusa Katy Perry a Maduro

No voto ou na marra, a esquerda vai sendo varrida das chefias de Estado e governo nas Américas, o que já acendeu a luz vermelha do PT, que tem em Lula um favorito na maior economia do Cone Sul

Nilson Gomespor em
EUA
No último sábado (3), os EUA interviu militarmente em Caracas e prenderam o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro Créditos: Marcelo Camargo/ ABr

As forças dos Estados Unidos, coordenadas pelo presidente Donald Trump, gastaram exatamente 47 segundos para tirar do poder o ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, e sua cúmplice, a primeira-dama Cilia Flores. O casal responde por crimes como tráfico de drogas e, como a Suprema Corte venezuelana é servil ao Executivo, jamais o entregaria para ser julgado no País em que estão milhões de suas vítimas, os dependentes químicos. Para dar ideia do prejuízo em saúde e economia, basta ler sobre a decadência das maiores cidades dos EUA, Nova York, Los Angeles e Chicago – a droga tomou conta das ruas. Em menos de 1 minuto foi retirado um mal que já durava quase três décadas, o que vai repercutir na política brasileira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva continua favorito para se reeleger, mas com a queda de Maduro a direita saiu das cordas, pois quase beijou a lona quando Trump, a pedido da família Bolsonaro, impôs o tarifaço a produtos brasileiros, depois amainado. Eis os dois fatores e os dois nomes em torno dos quais vai se concentrar o debate eleitoral. Permanecem pré-candidatos os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), e do Paraná, Ratinho Jr. (PSD). Ficaram pelo caminho os dois maiores, Tarcísio de Freitas (Republicanos) e Romeu Zema (Novo), dos Estados campeões em demografia, São Paulo (47 milhões de habitantes, quase 7 vezes mais que Goiás) e Minas Gerais (3 vezes mais). Tarcísio pode voltar, mas já foi.

Caiado e Ratinho têm grandes trunfos, como a honorabilidade e os seguidos bons governos, mas a palavra Bolsonaro ainda supera qualquer outro termo na direita nacional. O duplo impedimento (por estar inelegível e preso) do pai, Jair Bolsonaro, vitaminou a madrasta, Michelle, e o irmão mais explosivo, Eduardo, ex-deputado federal por São Paulo. Mas Jair escolheu Flávio, senador pelo Rio de Janeiro, para ser candidato a presidente da República pelo PL. Durante seu período no Palácio do Planalto (2019/2022), Bolsonaro se opôs ferrenhamente a Maduro e não reconhecia a legitimidade de seu mandato. Portanto, a queda do tirano da Venezuela conta ponto para o clã. Os governadores de direita caíram matando sobre o ditador, porém, os Bolsonaro haviam bebido água limpa.

A derrubada de Maduro fortalece Caiado em diversos âmbitos, como o da segurança pública, conforme se vê no exemplo de Nayib Bukele, presidente de El Salvador. Há um sentimento de que a esquerda convive com os autores de crime como se fossem vítimas da sociedade e não seus algozes. Por isso, a derrocada de um governante considerado chefão do tráfico internacional de drogas provoca empatia com quem combate ambos – o chefão e o tráfico. É o caso de Caiado. No entanto, a cobertura da imprensa nacional se concentrou nos protagonistas, Trump e Maduro, deixando pouco para os atores internos. Afinal, se o Brasil é considerado periferia nos embates ideológicos, imagine seus Estados-membros.

Em 1992, Hugo Chávez, o padrinho de Maduro, tentou entrar na presidência via golpe militar. Não funcionou. Foi para o infalível, o populismo. Ficou no cargo de 1999 até morrer, em 2013, quando foi sucedido por Maduro, sustentado no poder até o último fim de semana. Chávez tinha votos, seu sucessor só herdou dele o tino para a tirania. Fraudou seguidas eleições, seus mandatos não eram reconhecidos pela comunidade internacional e ficava por isso mesmo, graças aos apoios de Brasil, China e Rússia. Mas, no roubo mais recente, nem a diplomacia brasileira o alisou. O próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva não reconheceu a vitória cantada pelos bolivarianos, o movimento criado por Chávez.

Das lideranças latinas que ascenderam ao poder neste século, o único sobrevivente é Lula, que está no terceiro mandato, vai bem nas pesquisas para nova reeleição, e fez Dilma Rousseff sair do nada e ganhar de José Serra em 2010 e de Aécio Neves em 2014. Foi o auge da esquerda no lado de cá do Atlântico, até porque o conceito está bem alargado – até o Partido Democrata dos Estados Unidos e o Partido Liberal do Canadá são considerados esquerdistas. Até há pouco tempo, o 1º exercia o comando com o presidente Joe Biden e o 2º, com o primeiro-ministro Justin Trudeau. No mês passado, a superstar norte-americana Katy Perry e Trudeau assumiram o que o mundo já sabia desde que ele governava o Canadá.

No lugar de Biden, os eleitores americanos recolocaram Donald Trump, do Partido Republicano, e no de Trudeau, Mark Carney, do Partido Liberal, mas de ala diferente – presidiu o Banco do Canadá e o Banco da Inglaterra, uma mistura de Roberto Campos Neto e Gabriel Galípolo sem ministro pedindo para passar pano em instituição financeira encrencada. No México, foi mantida a esquerda com Claudia Sheinbaum. Na América Central, o astro é Bukele, pois a esquerda tem a mácula dos irmãos cubanos Castro, iniciadores do comunismo no continente. 

 

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