Por que Goiás virou destino de venezuelanos em busca de refúgio no Brasil
Estado ocupa a 10ª posição no ranking nacional de acolhimento; mercado de trabalho, custo de vida e garantias legais explicam a escolha dos venezuelanos pela capital goiana
Goiás é hoje o 10º Estado do Brasil que mais abriga venezuelanos, de acordo com dados obtidos pelo Mais Goiás junto ao Sistema de Registro Nacional Migratório da Polícia Federal. Em outubro de 2025, 10.703 pessoas nascidas na Venezuela residiam no Estado, sendo 5.533 homens e 5.162 mulheres.
O número coloca Goiás em uma faixa intermediária do ranking nacional, ao lado de outras unidades da Região Centro-Oeste. Embora distante da fronteira com a Venezuela, Goiânia tem se consolidado como destino para quem busca refúgio e oportunidades no Brasil. Estados como Mato Grosso registram 18.824 venezuelanos; Mato Grosso do Sul, 14.130; e o Distrito Federal, 6.636.
No topo da lista está Roraima, com 141.104 venezuelanos — o equivalente a um imigrante para cada grupo de 5,2 habitantes. Na sequência aparecem Santa Catarina (98.603), Paraná (87.273), Amazonas (56.124), Rio Grande do Sul (52.273) e São Paulo (45.631). Minas Gerais soma 16.210 venezuelanos e ocupa a nona posição, logo acima de Goiás.
Para o economista Luiz Carlos Ongaratto, a estrutura econômica de Goiânia e da Região Metropolitana exerce papel central nesse processo. Segundo ele, o predomínio dos setores de serviços, comércio, agronegócio e indústria leve cria um ambiente favorável à absorção de mão de obra.
“O que cria uma diversidade de oportunidades de trabalho que não exigem sempre qualificação muito específica. O setor de serviços responde por grande parte do PIB local e emprega muitos trabalhadores em funções operacionais, como atendimento, logística e serviços gerais”, explica.
Outro fator decisivo é o custo de vida. Ongaratto afirma que, em comparação com grandes metrópoles como São Paulo e Rio de Janeiro, Goiânia apresenta despesas mais acessíveis, especialmente em moradia e transporte.
“Cidades de porte médio oferecem qualidade de vida comparativamente mais acessível para famílias e trabalhadores, o que atrai migrantes que estão começando sua vida em um novo país. Essa relação entre custo de vida menor e oportunidades de emprego é um fator importante: em capitais maiores, os salários podem ser mais altos em algumas profissões, mas o custo com aluguel, transporte e alimentação também esmaga rapidamente a renda disponível”, avalia.
Além disso, a presença de redes de apoio fortalece o fluxo migratório. “Outro ponto importante é a rede de apoio local, onde algumas famílias já possuem parentes em Goiânia, o que facilita a vinda de mais amigos e familiares para a região”, completa o economista.
Do ponto de vista jurídico, o Brasil oferece um arcabouço legal considerado atrativo para venezuelanos em situação de refúgio ou migração humanitária. A advogada Paula Alexandrina, especialista em Direito Internacional e vice-presidente da Comissão de Relações Internacionais da OAB-GO, destaca que a legislação brasileira garante proteção ampla a esses migrantes, segundo ela, a Lei de Migração assegura igualdade de direitos, combate à xenofobia e permite a concessão de residência temporária, que pode se tornar permanente.
Ela lembra ainda que a Lei de Refúgio passou a reconhecer, de forma facilitada, a condição de refugiados venezuelanos diante da grave e generalizada violação de direitos humanos no país.
“O Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) do Brasil passou a reconhecer a prima facie (à primeira vista) a condição de refugiado para muitos venezuelanos, o que confere maior proteção a essas pessoas”, explica.
Segundo a advogada, as políticas de acolhimento e interiorização também ajudam a explicar a presença crescente de venezuelanos em Goiás. Até fevereiro de 2024, o Estado havia recebido 3.868 venezuelanos por meio de deslocamentos assistidos.
Entre 2018 e 2022, 39,1% de todos os estrangeiros registrados em Goiás eram venezuelanos. “A maioria dos venezuelanos que se mudam para Goiás busca novas oportunidades de emprego ou a reunião com familiares e amigos já estabelecidos na região, o que justifica o fluxo migratório para o Estado, e sobretudo para a Capital”, pontua.
Goiânia é vista como local de recomeço para os venezuelanos
Entre os próprios imigrantes, a capital goiana é vista como um local de recomeço. Um venezuelano que vive há três anos em Goiânia, e preferiu não se identificar, relata que a cidade ofereceu condições que ele não encontrou em outras regiões do País. “Aqui consegui trabalhar, alugar uma casa e colocar meus filhos na escola. Não é fácil, mas existe chance de seguir em frente”, diz.
O sentimento de esperança ganhou força no último fim de semana, após a divulgação da captura de Nicolás Maduro por militares da Delta Force, grupamento de elite das Forças Armadas dos Estados Unidos. No domingo (4), venezuelanos se reuniram na Praça da Paz, em Goiânia, para manifestar alívio e celebrar a possibilidade de mudanças no cenário político do país de origem. A concentração reuniu imigrantes que vivem principalmente na Região Noroeste da cidade.
“Mesmo longe, a gente nunca deixa de acompanhar o que acontece lá. Muitos aqui têm família na Venezuela. Qualquer sinal de mudança traz esperança”, afirmou outro venezuelano, também sob anonimato.
Enquanto o futuro político da Venezuela segue incerto, Goiânia permanece como um dos principais pontos de acolhimento no Centro-Oeste, combinando oportunidades econômicas, rede de apoio comunitário e garantias legais que ajudam milhares de venezuelanos a reconstruir suas vidas longe de casa.