segunda-feira, 5 de outubro de 2026
foco, sono e imaginação

Do toque à dispersão: o impacto das telas na infância

Uso precoce de dispositivos digitais afeta foco, sono e imaginação

Luana Avelarpor em
infância
Foto: Divulgação

O dedo pequeno corre pela tela com mais precisão do que vira uma página. O vídeo termina antes que a imagem possa ser retida. Outro começa sem intervalo. Para a geração Alpha, a experiência cotidiana se constrói nesse fluxo contínuo, no qual o tempo da infância já não é marcado pela repetição ou pela imaginação, mas pela velocidade.

No Brasil, esse deslocamento aparece com nitidez nos dados. A pesquisa TIC Kids Online Brasil aponta que 93% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos acessam a internet. A estatística, porém, diz pouco sobre o ponto mais sensível do fenômeno: o contato com telas começa cada vez mais cedo, muitas vezes antes dos dois anos, fase decisiva para a formação da atenção, da linguagem e da capacidade de sustentar imagens internas sem estímulo imediato.

Os efeitos desse ambiente acelerado já se manifestam no cotidiano. Em sala de aula, professores relatam dificuldade crescente de manter os alunos envolvidos em atividades que exigem continuidade. Em casa, pais descrevem crianças que trocam de interesse com rapidez, resistem ao silêncio e apresentam alterações no sono. A lógica do consumo fragmentado, típica das plataformas digitais, passou a organizar também a forma como muitas crianças percebem e respondem ao mundo.

“Esses conteúdos acelerados que invadiram a infância têm consequências sérias. As crianças não estão desenvolvendo foco, limites nem criatividade. O lúdico está sendo substituído por estímulos automatizados e vazios de significado”, afirma o ilustrador Guilherme Bevilaqua, conhecido como Prof. Laqua. 

A preocupação não se restringe ao campo cultural. Diretrizes da Associação Americana de Pediatria associam o uso excessivo de telas na primeira infância a atrasos no desenvolvimento da linguagem, dificuldades de socialização e problemas de comportamento. Mais do que o tempo de exposição, especialistas apontam o ritmo imposto pelas telas como fator decisivo: estímulos rápidos, recompensas imediatas e ausência de pausas reduzem a tolerância à frustração e à espera.

Na contramão desse modelo, ganham espaço experiências que não dependem da aceleração constante. Livros físicos, histórias contadas oralmente, brincadeiras tradicionais e animações que respeitam o tempo da criança reaparecem não como gestos nostálgicos, mas como tentativas de reconstruir um ambiente em que a atenção possa se alongar e a imaginação não precise ser guiada por algoritmos.

“Precisamos devolver às crianças o direito de imaginar. Isso não acontece com cinco vídeos por minuto nas redes sociais. A infância precisa de tempo, de silêncio, de páginas que viram devagar, de cores que não piscam”, conclui Laqua. 

A discussão, no entanto, ultrapassa escolhas individuais. Ao naturalizar uma infância sem pausa, a sociedade redefine o que espera das novas gerações: menos elaboração, mais resposta imediata. O risco não está apenas no excesso de telas, mas na perda gradual da capacidade de sustentar o tempo, algo que nenhuma tecnologia consegue substituir depois.

Leia também: https://ohoje.com/2026/01/12/wagner-moura-globo-de-ouro/

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