terça-feira, 6 de outubro de 2026
avenida 24 de outubro

Prefeitura impõe prazo para retirar ambulantes da Avenida 24 de Outubro e medida gera reação em Goiânia

Com prazo até 31 de janeiro para desocupação das calçadas, reordenamento urbano prometido pela gestão municipal enfrenta resistência de ambulantes divide comerciantes em um dos corredores comerciais mais tradicionais de Goiânia

Anna Salgadopor em
ambulantes
Foto: Divulgação/Secom

A Avenida 24 de Outubro, um dos eixos comerciais mais tradicionais de Goiânia, no setor Campinas, passa por mudanças. A prefeitura de Goiânia estabeleceu o dia 31 de janeiro como o prazo final para que os vendedores ambulantes desocupem as calçadas da via, visando a implementação de um projeto de reordenamento urbano e melhorias na mobilidade. 

A intervenção prevê a criação de recuos para estacionamento, adequações no sistema viário e a implantação de uma terceira faixa de rolamento com fluxo livre, seguindo modelos já aplicados nas avenidas Castelo Branco e 136.

Embora a gestão municipal defenda que a medida busca conciliar a fluidez do trânsito com a segurança de pedestres, a ação tem gerado forte resistência e críticas por parte dos trabalhadores informais e até de lojistas locais.

Visão dos ambulantes

Para muitos que ocupam as calçadas da 24 de Outubro como ambulantes, a avenida não é apenas um local de passagem, mas o sustento de décadas. Samuel Fernandes, que trabalha no local desde 2008, expressa o sentimento de desamparo da categoria, afirmando que o projeto prioriza o estacionamento em detrimento do “ganha-pão” do povo. Ele argumenta que a saída dos camelôs prejudica o consumidor final, que encontra produtos, como bermudas, por valores significativamente menores do que nas lojas físicas.

A situação é ainda mais complexa para trabalhadores ambulantes como Rodrigo Pires e Érica Pereira, cujas bancas são regularizadas perante o município. Rodrigo, que atua na região há 30 anos e paga impostos anuais, questiona a brevidade do prazo de desocupação e a falta de soluções concretas. 

“Como é que eles dão só 30 dias para a gente sair? Pega a gente de surpresa. Não tem como sobreviver de um dia para o outro”, lamenta. Ele chegou a sugerir que a prefeitura utilizasse a Praça Joaquim Lúcio para alocar os trabalhadores regularizados, revitalizando o espaço que hoje sofre com o abandono.

As opções apresentadas pelo município para os ambulantes também são alvo de críticas. Entre elas, vagas na Feira Hippie e a possibilidade de inserção em galerias na Região da 44. Para Shirley Ribeiro, ambulante, que atua há 25 anos em Campinas, a proposta desconsidera a realidade de quem vive do comércio de rua. 

“Aqui é varejo. Na Feira Hippie, o foco é atacado”, explica. Além disso, o custo dos aluguéis em galerias é visto como proibitivo, mesmo com a promessa de um aluguel social progressivo, que começaria com 30% do valor no primeiro ano.

 

 

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Enquanto a prefeitura sustenta que parte dos lojistas apoia a retirada por enxergar concorrência desleal, o próprio comércio local revela divisões. Júlia de Souza, lojista da 24 de Outubro, vê a mudança com preocupação. Para ela, a retirada dos ambulantes e a redução das calçadas para ampliar faixas de trânsito devem afastar pedestres e esvaziar a rua. “A 24 sempre foi assim. Tirar isso é prejudicar todo mundo”, afirma.

 

O temor é compartilhado por Camila Silva, comerciante da região, que lembra o que ocorreu no Centro de Goiânia após intervenções urbanas. “Organizaram, mas o comércio enfraqueceu”, relata. Ela também critica a falta de diálogo prévio com os lojistas, que só tomaram conhecimento das mudanças após o início das notificações. Ainda assim, alguns comerciantes mantêm a expectativa de que mais vagas de estacionamento possam atrair clientes que hoje evitam a região por conta do trânsito intenso.

 

Enquanto o debate se intensifica, equipes da Secretaria de Eficiência, da Secretaria de Planejamento e Urbanismo (Seplan), da Guarda Civil Metropolitana (GCM) e da assistência social (Semasdh) seguem realizando ações de orientação até o fim do mês. O secretário de Eficiência, Fernando Peternella, afirma que a gestão busca evitar prejuízos aos trabalhadores, oferecendo inclusão no Cadastro Único e orientações para formalização.

 

Para quem frequenta a avenida, no entanto, a medida parece desconectada das urgências da cidade. A auxiliar de limpeza Claudia Souza questiona as prioridades do poder público. “Tem boca de lobo entupida, gente em situação de rua, tanta coisa para resolver”, aponta. Para ela, a prefeitura deveria ter investido em um projeto de padronização, como galpões específicos para os ambulantes, garantindo organização, arrecadação de impostos e segurança.

 

Com o prazo se aproximando, o futuro de dezenas de trabalhadores permanece indefinido. Após o dia 31 de janeiro, caso não haja adesão voluntária às alternativas apresentadas, a prefeitura sinaliza que poderá adotar medidas mais rigorosas para assegurar o início das obras.

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