Afastamentos por burnout quintuplicam e pressionam a Previdência
Avanço do burnout no mercado de trabalho eleva licenças médicas e acende alerta fiscal no país
O número de afastamentos do trabalho por burnout cresceu de forma acelerada no Brasil nos últimos anos e passou a pressionar as contas da Previdência Social. Dados oficiais indicam que, entre 2021 e 2024, a concessão de auxílios-doença relacionados ao esgotamento profissional teve um salto expressivo, refletindo mudanças profundas nas relações de trabalho e no padrão de adoecimento da população economicamente ativa.
Em 2021, foram registrados pouco mais de 800 afastamentos por esse motivo. Três anos depois, em 2024, o total chegou a 4.880 concessões, o que representa um crescimento de quase 500% no período. A tendência se manteve em 2025: apenas no primeiro semestre, mais de 3,4 mil trabalhadores já haviam sido afastados, o equivalente a mais de 70% de todo o volume do ano anterior.

Burnout e a subnotificação dos casos
Especialistas apontam que o avanço do burnout pode ser ainda maior do que indicam as estatísticas oficiais. O diagnóstico costuma ser complexo e frequentemente aparece associado a quadros de depressão e ansiedade, o que dificulta a classificação precisa. Além disso, trabalhadores informais, que não contribuem para o INSS, ficam fora do levantamento, ampliando a possibilidade de subnotificação.
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O crescimento ocorre em meio a um cenário mais amplo de adoecimento mental. Em 2024, cerca de 472 mil benefícios por transtornos psíquicos foram concedidos, dentro de um universo de 3,6 milhões de auxílios-doença. Hoje, problemas de saúde mental já respondem por aproximadamente um em cada sete afastamentos, aproximando-se das causas físicas tradicionais.
Impacto financeiro e mudanças no trabalho
O avanço do burnout também tem reflexos diretos no orçamento público. As despesas com auxílio-doença passaram de R$ 18,9 bilhões, em 2022, para R$ 31,8 bilhões em 2024. No mesmo intervalo, os gastos totais da Previdência cresceram em ritmo bem menor, evidenciando um descompasso que acendeu o alerta no governo.
Entre os fatores associados ao aumento dos casos estão a intensificação do trabalho remoto, o tempo prolongado de conexão digital, a informalidade e a chamada “uberização” das relações laborais. Em 2023, uma normativa reforçou o reconhecimento do burnout como doença ocupacional, garantindo direitos como estabilidade temporária após o retorno ao trabalho. Já a exigência de mapeamento de riscos psicossociais nas empresas teve a aplicação de multas adiada e só deve entrar em vigor em 2026.
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Informalidade amplia vulnerabilidade
O cenário é ainda mais delicado entre trabalhadores informais, que enfrentam dificuldades para contribuir com a aposentadoria. Com alto nível de endividamento da população, muitos recorrem ao Benefício de Prestação Continuada como única forma de renda na velhice, embora ele não funcione como aposentadoria. Mudanças recentes nas regras de acesso ao benefício tendem a restringir a cobertura, agravando os efeitos combinados do desemprego, da informalidade e do burnout sobre a proteção social no país.