domingo, 20 de setembro de 2026
greve

Goiânia amanhece com greve na saúde por cortes salariais e falta de estrutura

Paralisação por tempo indeterminado mantém apenas urgência e emergência e mobiliza médicos, enfermeiros e técnicos da rede de saúde

Anna Salgadopor em
saude
Foto: Divulgação/Sindsaúde

Nesta terça-feira (13), profissionais da rede municipal de saúde de Goiânia entraram em paralisação por tempo indeterminado. O movimento, que reúne médicos, enfermeiros, farmacêuticos e técnicos, teve início com uma grande manifestação em frente ao Ciams Jardim América, às 9h, marcando o primeiro dia de uma mobilização que promete se intensificar nas próximas semanas. 

Além do ato central, também foram registrados protestos localizados, como a manifestação contra o fechamento da urgência do Cais Cândida de Morais.

A mobilização foi deflagrada após semanas de tensão entre as entidades de classe e a gestão do prefeito Sandro Mabel. Os profissionais se concentraram no Jardim América para denunciar o que classificam como “propagandas enganosas” da prefeitura, que, segundo eles, contrastam com a realidade enfrentada diariamente nas unidades, marcada pela falta de insumos básicos, medicamentos e pela insegurança crônica nos postos de saúde.

Embora o movimento tenha ganhado maior visibilidade no Ciams Jardim América, a paralisação afeta a rede municipal de forma ampla. Conforme determina a legislação e reforça o Sindicato dos Médicos no Estado de Goiás (Simego), os serviços de urgência e emergência estão sendo mantidos integralmente, a fim de garantir a preservação da vida dos pacientes. 

Em contrapartida, os atendimentos ambulatoriais, consultas de rotina e procedimentos eletivos foram suspensos, comprometendo o funcionamento regular da atenção básica em diversas regiões da Capital.

A insatisfação da categoria é descrita como profunda e sustentada por perdas salariais e condições de trabalho consideradas exaustivas. De acordo com o Simego, o estopim da greve foi o Edital de Chamamento nº 03/2025, que prevê redução de até 35% nos honorários médicos e estabelece jornadas de até 24 horas contínuas, sem descanso adequado.

A diretora do sindicato, Sheila Ferro, ressaltou que, mesmo diante da paralisação, há preocupação com os pacientes. “Serão feitas triagens para classificação dos atendimentos e, usando o bom senso, casos como renovação de receitas controladas serão atendidos para evitar que o quadro do paciente se agrave”, afirmou. O sindicato também enfatiza que o movimento não busca privilégios, mas condições mínimas para o exercício digno da profissão.

Outro ponto central da mobilização é a união entre diferentes categorias da saúde. A presidente do Sindicato dos Trabalhadores do Sistema Único de Saúde no Estado de Goiás (Sindsaúde-GO), Néia Vieira, destacou a adesão tanto de trabalhadores credenciados quanto de servidores efetivos. 

“Finalizamos agora o início do movimento grevista de todos os trabalhadores e trabalhadoras credenciados do município de Goiânia. Importante lembrar que houve a participação de todas as categorias e a luta está só começando”, declarou.

Segundo Néia, o movimento tende a se ampliar até o dia 20 de janeiro, quando uma nova assembleia poderá atrair servidores concursados, que também enfrentariam problemas como a ausência de vale-alimentação e perseguições internas.

LEIA MAIS: Fechamento de agências da Caixa em Goiânia reacende debate sobre exclusão financeira

Em resposta a greve dos profissionais da saúde SMS alega “medida técnica necessária”

Em resposta aos atos, a Secretaria Municipal de Saúde (SMS) e a prefeitura divulgaram notas públicas apresentando sua posição e os investimentos realizados na rede. A gestão municipal sustenta que o novo processo de credenciamento é uma medida técnica necessária para adequar os valores pagos à “realidade de mercado”, com base em estudos financeiros da Região Metropolitana.

O principal conjunto de argumentos da prefeitura está centrado na reestruturação física das unidades e no reabastecimento de materiais. De acordo com a SMS, mais de 40 unidades de saúde passaram por serviços emergenciais de manutenção predial no último ano, foram entregues 3 mil novos móveis para substituir equipamentos deixados em condições precárias pela gestão anterior e, em 2025, houve a aquisição e distribuição de mais de 200 tipos de medicamentos e insumos que estavam em falta. 

A prefeitura também informou que a empresa responsável pela higienização foi substituída e que o pagamento, antes previsto para o 20º dia útil, passará a ser feito no dia 25 de cada mês, com a justificativa de oferecer maior previsibilidade.

A secretaria ainda rebateu as críticas relacionadas à jornada de 24 horas, afirmando que a carga horária é escolhida pelos próprios médicos no momento da contratação e que o limite respeita a legislação brasileira e as recomendações do Conselho Federal de Medicina.

Enquanto a prefeitura apresenta números referentes a reformas, mobiliário e abastecimento, os trabalhadores relatam episódios de agressões e afirmam ser impossível manter a qualidade do atendimento diante de cortes salariais em um contexto descrito como de calamidade financeira.

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