segunda-feira, 28 de setembro de 2026
Eleições 2026

Bolsonarismo vive impasse e tenta fabricar um novo candidato a presidente

Articulação de Michelle Bolsonaro e do governador paulista pela prisão domiciliar do ex-presidente revela tentativa de reorganizar a direita, enfraquecer Flávio Bolsonaro e recolocar Tarcísio como nome viável contra Lula

Bruno Goulartpor em
Bolsonarismo vive impasse e tenta de fabricar um novo candidato a presidente
Publicamente, tanto Michelle quanto Tarcísio negam qualquer interesse eleitoral na articulação. Fotos: Reprodução Instagram, João Valério/Governo do Estado de São Paulo e Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

Bruno Goulart

A ofensiva de aliados do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) pela concessão de prisão domiciliar ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou contornos que extrapolam o debate jurídico ou humanitário. Nos bastidores da direita, o gesto é lido como parte de uma estratégia política mais ampla: reabilitar o ex-presidente no convívio público e, ao mesmo tempo, reposicionar o chefe do Palácio dos Bandeirantes como alternativa competitiva na corrida presidencial.

A transferência de Bolsonaro para o batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, a chamada Papudinha, foi comemorada por bolsonaristas como um avanço. Embora longe do objetivo final, o regime domiciliar, o movimento sinalizou para esse campo político uma inflexão no tratamento dado ao ex-presidente. Coincidência ou não, ocorreu poucas horas após Michelle Bolsonaro ser recebida pelo ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo relatos de bastidores, a ex-primeira-dama apresentou um memorial detalhado sobre o estado de saúde do marido e adotou um tom considerado cordial e pragmático. A avaliação de ministros é a de que Michelle levou informações relevantes, sobretudo após a queda sofrida por Bolsonaro enquanto estava sob custódia da Polícia Federal. Ainda que Moraes resista à domiciliar, aliados de Tarcísio apostam na possibilidade de pressão interna no STF para uma solução mais branda.

Interesse eleitoral

Nesse contexto, a defesa da prisão domiciliar passa a cumprir uma dupla função política. De um lado, reforça a imagem de Michelle como principal fiadora emocional e política de Bolsonaro. De outro, cria um ambiente favorável para que o ex-presidente seja persuadido a rever a escolha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como seu herdeiro eleitoral e passe a endossar Tarcísio, nome visto com melhores olhos pelo Centrão e pelo mercado financeiro por ser considerado mais competitivo contra o presidente Lula da Silva (PT).

Leia mais: Pré-candidatos ao governo intensificam agendas no início do ano em Goiás

Publicamente, tanto Michelle quanto Tarcísio negam qualquer interesse eleitoral na articulação. O discurso oficial insiste na preocupação com a saúde debilitada do ex-presidente. Porém, dentro do bolsonarismo, a neutralidade é vista com ceticismo. Parlamentares lembram que Michelle já deu sinais claros de preferência pelo governador paulista, como ao curtir uma postagem da primeira-dama de São Paulo que sugeria Tarcísio como o “novo CEO” do Brasil. A hipótese de uma chapa com Tarcísio na cabeça e Michelle como vice passou a circular com mais força.

A avaliação do sociólogo Celso Rocha de Barros, publicada na Folha de S.Paulo, ajuda a dimensionar o impasse. Segundo Barros, a mais recente pesquisa Quaest indica que a pré-candidatura de Flávio começa a se consolidar entre eleitores de direita, ainda que seus números sejam inferiores aos de Tarcísio. A rejeição à escolha do senador caiu, o que alimenta a esperança de crescimento, mas continua a ser uma aposta considerada arriscada.

Problema central

Para Barros, o problema central é que Tarcísio segue como sombra permanente. Sinais públicos de articulação com Michelle reforçam a percepção de que o governador de São Paulo não abandonou o projeto presidencial. Ao mesmo tempo, Flávio carrega passivos políticos relevantes, como o caso das rachadinhas e sua relação ambígua com o STF, casos que tendem a ganhar centralidade em uma campanha nacional.

No fim das contas, a disputa revela a dificuldade da direita brasileira em se reorganizar desde a derrota de Jair Bolsonaro nas urnas em 2022. A defesa da prisão domiciliar para o ex-presidente, nesse tabuleiro, funciona menos como ponto de chegada e mais como instrumento de reposicionamento interno. Entre o herdeiro biológico e o herdeiro político, o bolsonarismo segue dividido, à espera de quem conseguirá se apresentar, mais uma vez, como o “moderado” possível diante de um eleitorado ainda marcado pela vitória de Lula há menos de quatro anos. (Especial para O HOJE)

Siga o Canal do O Hoje e receba as principais notícias do dia direto no seu WhatsApp! Canal do O Hoje.

Tags:
Bolsonarismo direita Michelle Bolsonaro Presidência Tarcísio de Freitas

Veja também

Fábio Souza e Major Araújo

Eleições 2026

Justiça Eleitoral proíbe candidatos do PL de usar imagem de Bolsonaro em campanha

Decisão da 134ª Zona Eleitoral de Goiânia determina retirada de foto do ex-presidente de santinho...
ANTT suspende testes de radar que calcula velocidade entre dois pontos

TRÂNSITO

ANTT suspende testes de radar que calcula velocidade entre dois pontos

Tecnologia não registra apenas a passagem do carro pelo equipamento; sistema calcula quanto tempo o...
Goianos negociam 673 mil dívidas em quatro meses; número cresce 36%

CONTAS EM DIA?

Goianos negociam 673 mil dívidas em quatro meses; número cresce 36%

Levantamento da Serasa mostra avanço dos acordos entre maio e agosto; somente em uma ação realiza...
Pela primeira vez em Goiânia, exposição reúne 60 fotografias de Vik Muniz na Vila Cultural Cora Coralina

ARTE E CULTURA

Pela primeira vez em Goiânia, exposição reúne 60 fotografias de Vik Muniz na Vila Cultural Cora Coralina

Exposição percorre três décadas da produção do artista e reúne trabalhos feitos com açúcar,...
STF

SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL

Desconfiança no STF chega a 48% e atinge recorde, aponta Datafolha

Índice supera o registrado para Presidência, Congresso e partidos em levantamento realizado em mei...
Alta do gás motiva greve de revendedores em Goiás

Gás de Cozinha

Alta do gás motiva greve de revendedores em Goiás

Sindicato questiona reajuste de até R$ 8 imposto por distribuidoras e afirma que paralisação pode...
Atlético-MG x Santos: escalações, horário e onde assistir

Sulamericana

Atlético-MG x Santos: escalações, horário e onde assistir

Galo precisa vencer por três gols para avançar no tempo normal, enquanto o Peixe pode perder por a...
Grass mira diferentes públicos em maratona de sabatinas, reuniões e debate no DF

POLÍTICA

Grass mira diferentes públicos em maratona de sabatinas, reuniões e debate no DF

Candidato ao GDF também faz panfletagem no Restaurante Comunitário do Varjão e participa de debat...