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terça-feira, 20 de janeiro de 2026
OPINIÃO

Farras de Bruno são desserviços a Legislativos estadual e municipais

Toda uma geração de políticos pode apodrecer antes de amadurecer supondo que é correto gastar recursos públicos da Assembleia e das Câmaras de Vereadores com locações de palanques, diárias de servidores com desvio de finalidade e outros exageros

Nilson Gomespor Nilson Gomes em 20 de janeiro de 2026
Bruno
O que mais interessa à sociedade não é o proselitismo do presidente da Alego na tentativa de se eleger deputado federal, mas o que fica no município depois que ele embarca no avião ou no helicóptero e volta para Goiânia Foto: Sérgio Rocha/ Alego

No último fim de semana, a Assembleia Legislativa do Estado de Goiás bancou mais uma farra, a 33ª edição do projeto Deputados Aqui, uma gastança de dinheiro público. Desta vez, o furdúncio foi em Urutaí, que tem 3.700 moradores em todo o município, cerca de 2 mil na sede do município e nenhum interessado em receber Deputados Ali. O que mais interessa à sociedade não é o proselitismo do presidente da Alego na tentativa de se eleger deputado federal, mas o que fica no município depois que ele embarca no avião ou no helicóptero e volta para Goiânia. Tendo esses parlamentares como paradigma, a atual geração de políticos pode apodrecer antes de amadurecer supondo que é correto gastar recursos públicos para angariar votos.

O Legislativo de Urutaí está precisando de bons exemplos. Na semana em que Bruno Peixoto desembarcou de helicóptero no campo de futebol local, o presidente da Câmara de Vereadores, Éder Pimenta, foi afastado por responder à acusação de ter estuprado uma estagiária da Casa. Em seu lugar assumiu, às vésperas da chegada de Bruno, o vice-presidente Lindomar Veloso, que chegou a Urutaí mudando-se de Bacabal, no Maranhão, em 2019 e no ano seguinte já foi eleito vereador. 

Saiu acusado de estupro

Lindomar, 33 anos, filiado ao Podemos, poderia tirar lições da visita das autoridades. Estiveram lá no sábado (17) cerca de cem pendurados na Assembleia, inclusive os deputados Bruno Peixoto, Issy Quinan, Cristóvão Tormin e Luiz Sampaio, que na volta das sessões retorna à suplência. A reportagem de O HOJE viu de prefeito, além de Alexandre Araújo, o anfitrião, Felipe Dias, da vizinha Orizona. O que Lindomar teve para a aprender com a muvuca? Entendeu que se pode fazer campanha eleitoral com recursos públicos sem que as autoridades competentes impeçam. Vai saber que pode locar palanque em ano de eleição e pagar com verba oficial.

Esse é o recado que Bruno Peixoto já espalhou em 33 cidades, desde Goiânia (em dezembro), ao Oeste do Estado (como em Aragarças), ao Sudeste (em Campo Alegre), no Norte (em Minaçu), no Vale do Araguaia (em São Miguel), na Estrada do Boi (Cidade de Goiás), no Nordeste (em Campos Belos, na tríplice fronteira Goiás – Bahia – Tocantins). É um fracasso de público presencial e virtual (média de 3 visualizações por dia no Portal da Alego – nem os servidores que cuidam das mídias da Assembleia se submetem a ver aquilo).

A farra das diárias e do combustível

Outra farra é a das diárias, pois servidores de diversos órgãos são obrigados a trabalhar nos fins de semana, se deslocando em veículos alugados com dinheiro público, com combustível pago com verba oficial. Além disso, uma série de equipamentos de dezenas de órgãos da Assembleia e de repartições sérias, como a Defensoria Pública, são levados às praças que recebem o Deputados Aqui. Na teoria, acham que é correto, pois se trataria da prestação de serviços à sociedade. Na prática, um absurdo sem tamanho: os atendimentos, que segundo relatos estão na faixa dos 400 mil, se contabilizam desde quem está ali para ver show de cantores sertanejos até quem é beneficiado com atribuições dos Executivos estadual e municipais.

Um exemplo são os órgãos de saúde, pois médicos e dentistas que trabalham na Assembleia são deslocados para os comícios. Se a atribuição legal da Alego é fiscalizar e legislar, como é feita a contabilidade da campanha eleitoral? Em dezembro, saiu o escândalo dos R$ 12 milhões para os deputados comprarem roupas. Pegos com as penas na boca, as raposas se saíram com a desculpa de que as vestimentas adquiridas via dinheiro público serão uniformes dos gabinetes. O HOJE frequenta a Assembleia. Raríssimos servidores circulam por ali uniformizados. Antes do recesso, como no ano inteiro, viam-se o pessoal do deputado Eduardo Prado e algumas secretárias. Além deles, apenas os policiais e os bombeiros.

Outra aula para Lindomar é que não compensa pensar pequeno. Pode imaginar um gasto absurdo, que nenhum antecessor fez. Depois, saia da imaginação e passe para a ação: compre um avião, alugue um helicóptero, contrate 6 mil servidores sem concurso e outros 4 mil por vias transversais (Prefeitura de Goiânia, órgãos estaduais, prestadores de serviço). Infelizmente, Lindomar não é presidente ao mesmo tempo que Eurico Barbosa ou Hélio de Sousa. Aliás, além de Bruno, nenhum outro comandante da Assembleia teve a ousadia de inchar a folha a esse ponto, de chacoalhar o esqueleto em helicópteros alugados.

Urutaí, há 107 anos formando jovens e agora chega a Alego para deformar

Quando Lindomar for perguntado por algum conterrâneo sobre a qualidade dos políticos do Estado que o acolheu, qual será sua resposta? “Aqui, dinheiro é mato.” Vai narrar a imensurável folia de reis com que Bruno foi recebido em sua cidade adotiva. Os maranhenses vão acessar a internet em Bacabal e ficar sabendo que Urutaí faz parte da História de Goiás, não essa das farras de deputados bancada com dinheiro público. Urutaí é um polo de Educação no Centro-Oeste do Brasil há mais de um século, com a Fazenda Modelo de Criação, fundada pelo Decreto 13.197, de 25/9/1918. No 2º governo de Getúlio Vargas (1953), foi transformada em Escola Agrícola de Urutaí, depois Escola Agrotécnica Federal de Urutaí até chegar no hoje Instituto Federal Goiano.

10 situações para o Ministério Público de Goiás analisar

1) A circulação de parlamentares em aeronaves pagas com dinheiro público é condizente com a moralidade tão apregoada pelos integrantes da Mesa Diretora da Assembleia ou estaria havendo abuso do poder político e do poder econômico na pré-campanha de Suas Excelências?

2) É lícito fazer pré-campanha, em ano eleitoral, com dinheiro público?

3) Se o Legislativo tem de legislar e fiscalizar, pode investir tanto dinheiro em atividade alheia a suas atribuições?

4) Servidor da Assembleia se dignando a trabalhar em eventos de pré-campanha nos fins de semana podem receber diárias por isso?

5) Como é calculado o dia extra de odontólogos e médicos que se deslocam para prestar serviços nos comícios?

6) Os demais poderes, como a Defensoria Pública, são avisados com antecedência do proselitismo político dos parlamentares durante do Deputados Aqui?

7) É legal, do ponto de vista do ECA, para as crianças e os adolescentes presenciarem as indecências que ocorrem com o dinheiro público durante as edições do programa Deputados Aqui?

8) Em que parte da prestação de contas da Assembleia Legislativa de Goiás é acrescida a aba referente a camisetas comemorativas? Seria nos R$ 12 milhões utilizáveis, inclusive, para vestimentas?

9) Os editais de licitações da Assembleia, sobretudo quanto ao aluguel de equipamentos, teriam de prever que serão empregados durante comícios, com shows, arroz carreteiro etc., sem qualquer vínculo com as atividades-fim do Legislativo?

10) Se a Assembleia também pode, então, os Tribunais de Contas, o Poder Judiciário, a Defensoria Pública e o próprio Ministério Público também poderão fazer o Panelão do TCE, o Defensores Aqui, o Carreteiro do MP e o aluguel de helicópteros e aviões quando os magistrados, os defensores públicos, os promotores e os procuradores estiverem disputando voto? 

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