segunda-feira, 5 de outubro de 2026
OPINIÃO

Jair em casa e Michelle vice na chapa de Tarcísio presidente

Poder de articulação da ex-primeira-dama melhora a cela do marido, o que faz da Papudinha um estágio para prisão domiciliar, caso a própria família não prejudique com alguma postagem não ponha o trabalho a perder

Nilson Gomespor em
Michelle
Não adianta ter opinião favorável ou contrária, os números são implacáveis: a ex-primeira-dama e o governador de São Paulo continuam sendo os nomes da direita com melhor aceitação por quem vota Foto: Divulgação PL Mulher e Pablo Jacob Governo do Estado de SP

O cenário da pré-campanha presidencial está mudando mais que as nuvens de lágrimas no sucesso de Chitãozinho & Xororó. Lula já está reeleito, Jair Bolsonaro acabou. Lula não ganha mais de jeito nenhum, Tarcísio de Freitas é imbatível. Esses filhos do Bolsonaro todos têm o teto mais baixo que casa de conjunto, já esse Lulinha está envolvido no escândalo do INSS. O entra-e-sai de amor e ódio pelos dois grupos da polarização dificulta a vida dos adesistas, pois ficou impossível dizer quem é favorito. Na semana que começa, a novidade é a volta da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao centro das decisões.

Repercutiu tão bem que o cenário mudou de forma profunda e dois ejetados da corrida pelo Palácio do Planalto estão de volta, Michelle e Tarcísio, que fizeram dobradinha para melhorar a situação de Jair e podem receber dele o apoio para serem vice e presidente. Não adianta ter opinião favorável ou contrária, os números são implacáveis: a ex-primeira-dama e o governador de São Paulo continuam sendo os nomes da direita com melhor aceitação por quem vota. Pronto. O marido não a escolheu, Michelle, se for candidata, é por mérito, assim como Tarcísio, se encabeça a chapa, será graças a seu perfil e aos resultados como governador de São Paulo.

Muita gente quer o apoio de Jair Bolsonaro, pouca gente sabe o que ele passou em casa e, principalmente, na Superintendência da Polícia Federal, em Brasília. Além dos agentes da PF, uma pessoa está com ele sempre, à exceção de quando o Supremo Tribunal Federal só permitia visitas depois de humilhá-la: Michelle. Ao acompanhar de perto a recuperação do ex-presidente, notou que a diferença na saúde mental era acentuada, culminando com o surto que o levou a tentar se ver livre da incômoda tornozeleira eletrônica. Já no regime fechado, mesmo com o bom tratamento dos agentes que a própria se encarregou de elogiar, estava definhando. 

Tinha de aparecer um adulto entre os radicais

Algum adulto consciente tinha de deixar de fazer de Jair um totem de publicidade e agir em defesa de sua vida. Coube a Michelle. Exorcizou o ambiente e procurou aliados do marido que tivessem alguma porta com ministros do Supremo, sobretudo com Alexandre de Moraes. Conseguiu. Na tabela dos radicais até o mais comportado dos bolsonaristas, começa-se com quem acha que Jair deve ser inocentado de tudo, solto, candidato à presidência, com Moraes sofrendo impeachment no Senado, perdendo o cargo no Tribunal e sendo preso. Os mais ou menos se conformariam com a tal dosimetria, Bolsonaro ficando fechado sabe-se lá onde, só que cumprindo 22, 24, não os 27 anos a que foi condenado pela 1ª Turma do STF, composta de um inimigo (Moraes), um recente auxiliar do governo federal (Flávio Dino), o advogado particular de Lula até há poucos dias (Cristiano Zanin) e Carmen Lúcia e Luiz Fux.

A Solução Michelle uniu equilíbrio e possibilidade de discussão. O equilíbrio: um septuagenário doente, recém-operado diversas vezes, não poderia continuar 24 horas por dia em um prédio inadequado, por mais boa vontade que os policiais federais tivessem – e tiveram, segundo ela. O debate foi sobre a chamada subsidiariedade: o que pedimos é a volta dele para casa, mas, subsidiariamente, caso não seja essa a decisão de Vossa Excelência, que o sentenciado cumpra o regime em local menos danoso. A sensatez demonstrada por Michelle neste período em que o marido está preso provocou a ira dos radicais, entre eles um enteado, Carlos Bolsonaro. Claro, assim como Eduardo, Carlos às vezes sai do sério e desce o nível nas críticas. Entende-se, pois estão com o pai condenado por condutas que não seriam típicas, incurso em crime não admitidos, sofrendo injustiça etc.. 

Lealdade de Amin e Carol

Porém, a estupefação custou-lhes os mandatos. Eduardo perdeu o mandato de deputado federal por São Paulo e Carlos renunciou à vaga de vereador pelo Rio de Janeiro. Mas nenhum melhorou a situação do pai. Aliás, ocorreu o contrário. As ações do então deputado nos Estados Unidos ressuscitaram os índices de Lula, pois o presidente Donald Trump, com a mesma fúria usada para entrar na Venezuela e levar para julgamento o ditador Nicolás Maduro, supertaxou produtos brasileiros. Foi um horror para a direita e, sobretudo, para Jair Bolsonaro. Carlos também está com problemas e causando idem. Sua transferência de endereço eleitoral para Santa Catarina bagunçou as alianças, a começar do apoio que seu pai prometeu à reeleição do senador Esperidião Amin (PP-SC).

Michelle preside o PL Mulher no âmbito nacional. Não haveria lógica se concordasse com o que está acontecendo com a deputada federal Carol de Toni (PL-SC), bolsonarista fanática. Carol é pré-candidata ao Senado, recebeu Carlos em sua terra com pompa e circunstância, rodou o Estado com ele, até ressurgir o compromisso de Jair com Amin. Só estão em disputa duas cadeiras no Senado para cada unidade da federação e a ideia é lançar apenas dois nomes na chapa de reeleição do governador Jorginho Mello (PL-SC). A turma do Jair em Santa Catarina as reservara para Carol e Amin. Depois, para Carol e Carlos. Agora, não se sabe mais.

O pai conseguiu 70%, o filho está longe disso

Quando Carlos agride verbalmente a madrasta, mesmo que de forma indireta, seu pai pode não ser o eventual beneficiado com a defesa. O ex-vereador precisa dessa inflexão para alimentar seu eleitorado, já que o eleitor catarinense é anti-Moraes até a raiz do cabelo – não os do ministro e do senador Amin. Ao agradar o pessoal que tem sangue nos olhos, é preciso se lembrar também daquele que está sozinho numa cela, doente, velho e com mais processos esperando agenda para entrar em pauta. A expectativa era Carlos disparar na frente com os 70% dos votos que o pai teve em 2022 – mais precisamente, 69,27% no 2º turno. 

Na véspera do Natal, saiu pesquisa Neokemp que, após ouvir 1.200 entrevistados, divulgou que Carol tem 28,6%, Carlos 25%, Amin 16,3%, o petista Décio Lima 16,2% e Gilson Marques 4,5%. Caso Carol seja traída, pode ir para o Novo e fazer dupla com Marques. Também em dezembro, a CNN veiculou levantamento do Real Time Big Data em que, sem Carol, Carlos surge com 27%, Amin 21%; sem Amin, Carlos 25%, Carol 22%; sem Carlos, Carol 24%, Amin 21%. Em todas as pesquisas, quaisquer que sejam os adversários, o filho fica a mais de 40% longe dos votos do pai. Significa que o estilo Michelle dá resultados, já o radicalismo faz é tirar mandatos – na Justiça e nas urnas.

Moraes sabe o que é voltar para casa sob fogo

Se é que existe, ninguém do respeitável público possui áudio ou vídeo da conversa entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o ministro Alexandre de Moraes. O conhecimento que se tem é da consequência: desde a semana passada, a vida de Jair Bolsonaro está melhor graças à sabedoria de sua mulher. Moraes sabe o que é dividir sofrimento em casal, pois sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, está nas manchetes desde 17 de novembro, quando o Banco Central liquidou o Banco Master, em que o CEO era seu cliente Daniel Vorcaro.

Um escritório de advocacia firmar contrato com uma instituição financeira nada tem de errado. É igual ao presidente da República falar a diplomatas estrangeiros sobre o sistema eleitoral de seu país ou um grupo de manifestantes ficar em frente a quartéis e deles sair para uma praça pública. Portanto, a cônjuge de Moraes não cometeu crime e o cônjuge de Michelle, também não. São argumentos dos dois lados, um princípio centenário da democracia. 

 

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