Pedro Deoli narra viradas da carreira no podcast Manda Vê
Artista cearense apresenta o Funk Fortal e revisita decisões que moldaram sua carreira
Na última segunda-feira (19), o DJ, produtor e compositor Pedro Deoli participou do Manda Vê, apresentado por Juan Allaesse, e fez da conversa um extenso relato sobre origem, escolhas e permanência na música. A partir da própria vivência, o artista cearense apresentou ao público não apenas sua história pessoal, mas também os fundamentos do Funk Fortal, identidade sonora que criou para traduzir o repertório cultural de Fortaleza em linguagem dançante e contemporânea.
Logo no início do podcast, o clima foi de informalidade e celebração. Pedro Deoli agradeceu o convite, pediu licença para “entrar na casa” de quem acompanhava a entrevista e avisou que o encontro seria marcado por boas histórias. Entre brincadeiras e comentários espontâneos, o DJ destacou a satisfação de estar em Goiânia, cidade que, segundo ele, o recebeu de forma acolhedora e decisiva em um momento de transição de carreira. A identificação com o público goiano e a recorrência de apresentações na capital foram apontadas como fatores que o levaram a decidir pela mudança definitiva, mesmo mantendo vínculos afetivos e profissionais com Fortaleza.
Durante a conversa conduzida por Juan Allaesse, Deoli comentou a recente edição do projeto Nunca de Leve, idealizado por Vinícius Poeta e Som de Faculdade, ressaltando o cuidado artístico e a proposta de abrir espaço tanto para artistas em início de trajetória quanto para nomes já consolidados. Ele celebrou o recorde de público alcançado na última edição, com cerca de 1.200 pessoas em um espaço que comporta 1.500, classificando o resultado como um marco para o evento e para a cena local. Mais do que números, o DJ enfatizou a importância do reencontro entre artistas, produtores e público, algo que considera essencial para a vitalidade da música.
A entrevista também foi marcada por um retorno às origens. Antes da música, Pedro Deoli sonhava em ser jogador de futebol e chegou a investir seriamente nessa possibilidade ainda adolescente. A frustração com os limites desse caminho o levou a buscar outras formas de expressão, até que a música surgiu quase por acaso, em viagens com bandas de pagodão, quando aprendeu instrumentos de forma improvisada e descobriu o impacto do palco sobre sua vida. A partir daí, vieram experiências como dançarino, integrante de bandas e participante de projetos musicais intensos, com agendas cheias e pouca estabilidade financeira.
Um dos momentos mais emblemáticos relatados no podcast foi a recusa em vender uma banda por 20 mil reais a um então emergente Wesley Safadão. A decisão, tomada coletivamente, acabou gerando conflitos internos e culminou no fim do grupo meses depois. Pedro Deoli reconhece que o episódio deixou marcas, mas também entende que aquela escolha foi determinante para que ele seguisse outros rumos e acumulasse aprendizados que hoje orientam sua atuação como artista independente.
A virada definitiva aconteceu quando decidiu se tornar DJ e assumir o controle da própria trajetória. Sem espaço em eventos consolidados, ele optou por criar as próprias festas, investir em equipamento e se posicionar como showman, mesmo enfrentando preconceitos por falar ao microfone e por transitar entre gêneros. A estratégia deu resultado. Ao organizar eventos próprios, contratando DJs locais e estruturando a cena de forma colaborativa, Deoli construiu uma base sólida, chegando a realizar dezenas de edições consecutivas sem prejuízo financeiro.
Foi desse percurso que nasceu o Funk Fortal. No podcast, o artista explicou que o estilo não é apenas um subgênero do funk, mas uma proposta cultural que mistura elementos do forró, do pagodão, das torcidas organizadas e da musicalidade popular do Ceará. O uso de samples de arquibancada, caixas características e guitarras marcantes é pensado como forma de preservar memória e identidade. O objetivo, segundo ele, é fazer com que o público reconheça o ritmo pelo nome e o associe diretamente a Fortaleza.
Ao longo da entrevista, o artista também falou sobre fé, disciplina e constância. Disse que aprendeu a não esperar validação externa e a transformar o trabalho diário em método de crescimento. Comentou ainda sobre parcerias criativas, processos de produção musical e a importância de dividir responsabilidades sem perder autoria. Para ele, legado não se mede apenas em números ou alcance digital, mas na capacidade de criar algo que permaneça vivo na memória coletiva.
Encerrando a participação no Manda Vê, o DJ reafirmou o prazer de viver intensamente a música e as relações construídas ao longo do caminho. Entre memórias familiares, histórias de bastidores e planos futuros, Pedro Deoli deixou claro que o Funk Fortal é, antes de tudo, resultado de uma trajetória marcada por movimento, risco e insistência em ser fiel à própria verdade artística.
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