sexta-feira, 2 de outubro de 2026
NEGOCIOS

Pequi sem espinhos atrai investimentos milionários em Goiás

Aposta da Embrapa e da Emater-GO, o pequi sem espinho deixa o extrativismo, entra na lavoura comercial e amplia mercados

Otavio Augustopor em
Pequi sem espinhos atrai investimentos milionários em Goiás
Divulgação/ Emater

Durante décadas, o pequi esteve associado quase exclusivamente ao extrativismo no Cerrado, com colheitas sazonais, baixa previsibilidade e forte dependência das áreas nativas. Em Goiás, esse cenário começa a mudar de forma consistente. O avanço de variedades de pequi sem espinho, desenvolvidas pela pesquisa pública brasileira, inaugura uma nova fase para o fruto símbolo da região, agora inserido em um modelo de cultivo comercial planejado, com maior segurança, produtividade e retorno econômico.

A inovação, liderada por pesquisadores da Embrapa Cerrados em parceria com a Emater-GO, combina seleção genética e manejo tecnificado. O principal diferencial está no caroço sem espinhos, característica que facilita o consumo, reduz riscos ao consumidor e amplia o interesse da agroindústria. A previsão é que os primeiros pomares mais recentes iniciem colheita a partir de 2027, consolidando o pequi como alternativa estratégica de renda no campo goiano.

Pesquisa transforma símbolo cultural em ativo econômico

Mesmo sem os espinhos, o novo pequi preserva atributos essenciais ao mercado: sabor marcante, aroma intenso e coloração vibrante. Além disso, apresenta polpa mais grossa e suculenta, o que aumenta o rendimento industrial e amplia as possibilidades de uso, tanto no consumo in natura quanto no processamento.

Para a cadeia produtiva, a mudança representa um divisor de águas. O cultivo planejado permite padronização dos frutos, maior controle de oferta e previsibilidade de safra, fatores fundamentais para atrair investimentos e estruturar contratos com a indústria alimentícia, cosmética e farmacêutica.

Mudas valorizadas e mercado em aquecimento

O impacto econômico já é visível no mercado de mudas. Em Goiás, o produtor e viveirista Mauro Filho, da Plant Roots Viveiro Ambiental, comercializa entre 60 mil e 70 mil mudas de pequi sem espinho por ano. Cada unidade é vendida por cerca de R$ 150, valor muito superior ao do pequi tradicional, reflexo da demanda crescente e do potencial de retorno da cultura.

Além da venda de mudas, Mauro também investe no cultivo comercial. Ele mantém uma área com 4 mil pés de pequi sem espinho, dos quais metade já está em produção. Segundo o produtor, a variedade é mais precoce, com início da frutificação a partir do quarto ano e safras bienais, o que facilita o planejamento financeiro da atividade.

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Divulgação/ Emater

Reserva legal vira oportunidade produtiva

Desde os anos 2000, o plantio de pequi ocorre majoritariamente em áreas de reserva legal, que os produtores são obrigados a preservar por lei. Na prática, o Cerrado passa a ser também um espaço de produção sustentável, conciliando conservação ambiental e geração de renda.

Essa característica torna o pequi sem espinho especialmente atrativo para propriedades rurais que buscam diversificação sem ampliar o desmatamento. O modelo fortalece a imagem do agronegócio associado à sustentabilidade e atende às exigências de rastreabilidade e responsabilidade ambiental cada vez mais presentes no mercado.

Leia também: Mercado de saúde no Brasil deve crescer 9% até 2028 e atrair novos investimentos

Centro-Oeste amplia escala e profissionaliza manejo

O avanço não se limita a Goiás. No Mato Grosso, municípios como Gaúcha do Norte já somam cerca de 60 hectares cultivados com pequi sem espinho, com pomares que entraram em produção recentemente. A maior parte utiliza mudas enxertadas, tecnologia que reduz o tempo de entrada em produção e garante maior uniformidade das plantas.

Em condições adequadas, o pequi começa a produzir entre quatro e cinco anos, com estabilização produtiva a partir do oitavo ano. Uma árvore adulta pode render de quatro a cinco caixas de 30 quilos por safra. Apesar da rusticidade, técnicos destacam a importância de adubação correta, controle de pragas e acompanhamento técnico nos primeiros anos.

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Divulgação/ Emater

Do extrativismo à agroindústria integrada

Mesmo com o avanço do cultivo tecnificado, a produção nacional ainda é majoritariamente extrativista. Minas Gerais lidera o ranking, com mais de 42 mil toneladas colhidas, quase todas oriundas de áreas nativas. Goiás e Mato Grosso somaram cerca de 3,4 mil toneladas em 2024, segundo o IBGE, volume que já começa a incorporar áreas cultivadas.

A expectativa é que, nos próximos anos, o pequi sem espinho reduza a pressão sobre áreas nativas e estruture uma cadeia produtiva mais organizada. Além da culinária regional, o fruto abastece conservas e fornece óleo para as indústrias cosmética e medicinal, ampliando mercados e agregando valor. Com tecnologia, previsibilidade e sustentabilidade, o pequi deixa de ser apenas tradição e passa a ocupar espaço relevante na coluna de negócios do agronegócio goiano.

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