quinta-feira, 29 de outubro de 2026
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Polarização atende a Lula e Bolsonaro e limita alternativas da centro-direita

Analistas apontam que manutenção do confronto direto entre PT e bolsonarismo interessa aos dois polos, enquanto Centrão se fragmenta e segue sem nome competitivo

Bruno Goulartpor em
Polarização atende a Lula e Bolsonaro e limita alternativas da centro-direita
O cenário, segundo analistas, favorece o presidente Lula da Silva (PT), que observa a fragmentação do campo adversário enquanto insiste na manutenção da polarização. Fotos: Tânia Rêgo e Fabio Rodrigues-Pozzebom/ABr

Bruno Goulart

A divisão interna do Centrão e da centro-direita ganhou novos contornos nas últimas semanas e já produz efeitos diretos na corrida presidencial. A combinação entre o desgaste provocado pelo escândalo do Banco Master, que atingiu especialmente lideranças do bloco, e a ausência de um nome competitivo fora do bolsonarismo levou partidos como MDB, parte do PP e o União Brasil a considerar a liberação de suas bancadas e lideranças para apoiar quem julgarem mais conveniente em cada Estado. O cenário, segundo analistas, favorece o presidente Lula da Silva (PT), que observa a fragmentação do campo adversário enquanto insiste na manutenção da polarização.

Nesse contexto, a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) surge como peça central de uma estratégia paradoxal: embora não empolgue a centro-direita, mantém vivo o antagonismo com o PT. E isso interessa ao Planalto. Não por acaso, aliados de Lula evitam ataques diretos ao senador.

Lula avança sobre o Centrão

Ao analisar o movimento, o ex-deputado federal e ex-presidente do PSD em Goiás, Vilmar Rocha, avalia, ao O HOJE, que o núcleo do Centrão atualmente está concentrado na federação União Brasil-PP. “O Lula está operando no Centrão, oferecendo cargos e benefícios para dividir o bloco. A candidatura do Flávio cristalizou isso. Mas ela não representa as forças da centro-direita, e sim a família Bolsonaro”, afirma. Para Vilmar, a falta de uma alternativa viável abre caminho para a cooptação. “Como não tem outra candidatura qualificada, facilita para que Lula avance sobre o Centrão. O Flávio não tem qualificação política para representar a centro-direita.”

Leia mais: Lula vê vantagem em enfrentar Flávio Bolsonaro na disputa pelo Planalto 

Além disso, Vilmar destaca que a expectativa em torno do nome do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) esfriou. “Era a grande esperança das forças democráticas de centro. A essa altura, acredito pouco na candidatura dele. O Flávio está num vácuo, sem entusiasmo fora do bolsonarismo radical”, diz.

Mesmo jogo

Na mesma linha, o estrategista político Marcos Marinho avalia à reportagem que a polarização é funcional para ambos os lados. “Todas as pesquisas mostram que o teto do Flávio é baixo, porque ele carrega a rejeição do nome Bolsonaro e a própria rejeição pessoal”, afirma. Segundo Marinho, eleições presidenciais se decidem pela rejeição, especialmente no segundo turno. “Para o Lula, é muito mais seguro enfrentar alguém que você conhece, que já tem rejeição consolidada, do que um nome novo, que pode crescer.”

Marinho aponta ainda que o jogo é de longo prazo. “O Lula quer manter o Flávio para ganhar do Flávio. E o Flávio aceita esse jogo para manter vivo o nome Bolsonaro e se projetar para 2030, quando Lula não estará mais no cenário. Ambos estão jogando o mesmo jogo.”

Para o sociólogo e pesquisador Jones Matos, o favoritismo do atual presidente se apoia também nos indicadores econômicos. “Os dados são positivos, isso é um primeiro ponto. A direita busca uma alternativa, mas segue refém do Bolsonaro, o que leva à pulverização de candidaturas”, analisa. Nesse ambiente, o pragmatismo típico do centro político tende a prevalecer. “Talvez seja mais interessante liberar os partidos nos Estados, o que acaba favorecendo Lula, inclusive com apoios de setores bolsonaristas em legendas mais moderadas.”

Risco eleitoral

Já o cientista político Lehninger Mota destaca que o risco eleitoral afasta Tarcísio do jogo nacional. “Ele conversa melhor com o centro, que decide a eleição. Mas sem garantias de apoio exclusivo do Bolsonaro, o risco de ficar em terceiro lugar é alto. Para Tarcísio, não vale a pena correr esse risco”, afirma.

Enquanto isso, os partidos do Centrão seguem indefinidos. Há movimentos no PP para indicar o senador Ciro Nogueira (PI) como vice de Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que MDB e União Brasil avaliam rachar formalmente. “O MDB ainda não desistiu de ser vice do Lula”, observa Lehninger. Caso isso se concretize, a legenda pode cobrar alinhamento nacional, com reflexos inclusive em disputas estaduais, como em Goiás, que pode fazer com que o vice-governador Daniel Vilela ofereça palanque para Lula, num cenário onde o vice de Lula seja do MDB. (Especial para O HOJE)

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