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Livro revisita os últimos oito anos da escrita de Jheferson Rosa

Kuarup e outros textos reúne poemas, zines e manuscritos produzidos no período

Luana Avelarpor em
Rosa
Foto: Arquivo pessoal

Kuarup e outros textos chega ao público como a reunião de um material que nunca foi pensado para existir de uma só vez. Escritor, professor e designer, Jheferson Rosa apresenta no livro poemas, zines, notas e manuscritos produzidos ao longo de oito anos, organizados a partir de um recorte definido por ele como “uma seleção mais pessoal”. O volume articula um texto inicial de maior rigor formal com poemas avulsos que funcionam como bastidores do processo, descritos pelo autor como “uma edição do diretor”.

O gesto de seleção nasce de uma releitura crítica do próprio percurso. Rosa reconhece que seu livro de estreia, Avião de papel, já tinha caráter antológico, ainda que sustentado por coerência interna. Hoje, ele o vê como “uma fotografia daquele período em específico”, organizada com o apoio editorial de Lari Mundim, da Nega Lilu. O distanciamento do tempo permitiu identificar os textos que ainda dialogavam com sua escrita atual. A prolixidade da juventude exigiu cortes, limites e adaptações para que o conjunto se sustentasse como obra.

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Acompanhar Rosa é ver esse livro se formando aos poucos. Há anos sua escrita circula pelas redes, muito antes da pandemia, em poemas soltos, textos compartilhados e projetos independentes. Existe um orgulho específico em ver Kuarup e outros textos existir: não apenas pela força da obra, mas também por ela nascer em Goiás, fora do eixo tradicional do mercado editorial, sustentada por um trabalho construído com rigor e insistência. Trata-se de um livro que carrega o tempo da própria feitura e da permanência do autor no campo literário.

O eixo de Kuarup e outros textos se estrutura a partir de um manuscrito iniciado antes de uma viagem ao Chile, quando a proposta era reescrever poemas do livro Dança comigo enquanto eles dormem. Parte desse material permaneceu reconhecível; outra se transformou a ponto de dar origem a algo novo. Durante a viagem, feita com a esposa, Rosa escreveu nos deslocamentos e nos intervalos, até que o manuscrito assumisse outra densidade, atravessada por luto e obsessões. O resultado, segundo ele, foi “um objeto novo, que desemboca nos processos de luto com as pessoas e com a vida”.

A decisão de tornar visível o processo de escrita, com notas críticas e zines, reflete uma recusa deliberada da ideia de obra fechada e dialoga com a formação do autor, marcada pela circulação de zines, pela poesia falada e pelo trabalho coletivo. Nesse percurso, a figura do Monstro se impõe como elemento recorrente, intensificada após a morte da avó. Inspirada pelo verso de Victor Heringer segundo o qual “só o Monstro é original na morte”, essa figura passa a condensar a ambiguidade do luto e da experiência, atravessando o livro sem se resolver completamente. 

As perdas familiares atravessam o livro como ponto de partida, não como eixo único. Rosa associa a morte da avó à percepção de um limite da linguagem diante da dor do pai, quando nem o poema nem a linguagem familiar foram suficientes. Diante dessa falha, a escrita se desloca para o estudo e para a memória, percorrendo diferentes momentos da vida em busca de brechas possíveis da palavra. Esse movimento se materializa nas dedicatórias que abrem o livro, endereçadas ao Gui, Bianquinha, Madu, Sopeira e à avó “a quem pude perdoar”. Para o autor, essas figuras não aparecem por acaso: “todos marcaram minha vida e me apresentaram impossibilidades novas da linguagem”. As dedicatórias funcionam como um mapa afetivo do percurso e orientam o livro como gesto de honra aos que foram e aos que permanecem.

A família e a herança emocional aparecem como matéria constante da escrita. Rosa reconhece que, com o tempo, essa herança se torna mais visível, a ponto de afirmar que “cada dia que passa eu me torno mais meu pai”. A biografia, atravessada por afetos e violências, permanece como núcleo de sua literatura. Escrever, para ele, não é apenas registrar experiências, mas uma forma de compreender a vida e sustentar alguma possibilidade de comunicação com o mundo.

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Esse deslocamento se explicita no último texto do livro, intitulado “retorno às kitnets”. É ali que Rosa reflete diretamente sobre sua forma atual de escrever. “Hoje tenho tentado escrever com menor rigidez, bastante entrega e profissionalismo, mas sem querer entregar a maior obra de todas, ganhar os maiores prêmios”, afirma. Para ele, essas ambições fazem parte da carreira literária, mas não podem se impor como régua cotidiana. “Lógico que essas ambições fazem parte da carreira de um escritor, mas imagino que estar bem com seu texto é o que te faz prosseguir no final do dia.” Ao nomear o texto dessa forma, o autor se refere também à poesia do início da própria trajetória, quando morava pelo centro e pelo Setor Sul de Goiânia e “era divertido escrever um poema novo todo dia”.

Ao final, Rosa insere Kuarup e outros textos no mesmo campo político que atravessa sua trajetória editorial. Tanto o livro de estreia quanto o atual foram realizados com verbas de incentivo à cultura: Avião de papel com apoio municipal e agora Kuarup por meio do PNAB estadual. “Muitos autores bons se ‘aposentam’ sem publicar um livro, seus trabalhos se perdem. O que é um grande crime”, afirma. Para ele, cada desistência carrega uma perda coletiva: “a identidade da cidade e do povo dessa cidade morre um pouco mais sempre que um poeta desiste de escrever um poema”.

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Capa de Kuarup e outros textos, com arte de Bruna Cruz, que também auxiliou na curadoria dos zines do livro. Foto: Arquivo pessoal

SERVIÇO

Quando: Nesta sexta-feira (23)

Onde: Coletivo Centopeia – Entrada na Praça Wilton Valente Chaves – Av. Cora Coralina, 140 – St. Sul, Goiânia

Horário: 18h30

Entrada gratuita

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