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terça-feira, 27 de janeiro de 2026
FEMINICÍDIO

Goiânia participa de projeto nacional para reconhecer feminicídio como causa de morte

A capital é a primeira do país a testar metodologia que pode levar à criação de um código específico na Classificação Internacional de Doenças, em articulação com a Organização Mundial da Saúde

Luma Silveirapor Luma Silveira em 27 de janeiro de 2026
Goiânia participa de projeto nacional para reconhecer feminicídio como causa de morte
Goiânia testa metodologia que pode levar à criação de um código específico para feminicídio na CID | Foto: SMS

A Prefeitura de Goiânia passou a integrar uma iniciativa inédita coordenada pelo Ministério da Saúde que propõe o reconhecimento do feminicídio como causa específica de morte nas declarações de óbito. A ação é desenvolvida em parceria com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e tem como objetivo a criação de um código próprio na Classificação Internacional de Doenças (CID).

Goiânia foi escolhida para liderar a fase de testes do modelo conceitual e operacional por ser o único município brasileiro que conta com um comitê estruturado de vigilância e investigação de óbitos por causas externas envolvendo mulheres, além do histórico de atuação na notificação de casos de violência de gênero.

Segundo a médica epidemiologista e consultora do Ministério da Saúde, Fátima Marinho, a proposta brasileira já recebeu sinalização positiva da OMS. A etapa atual consiste em comprovar que o método é aplicável em diferentes contextos, a partir de uma matriz de decisão que está sendo testada em Goiânia com o apoio da Secretaria Municipal de Saúde.

Com a mudança, o feminicídio deixará de ser registrado apenas como homicídio nas declarações de óbito, permitindo identificar de forma mais precisa as mortes decorrentes da violência de gênero. Para a Secretaria Municipal de Saúde, a medida representa um avanço estratégico, já que o sistema de saúde é, muitas vezes, o primeiro ponto de contato das vítimas, mesmo quando não há registro policial.

A iniciativa também busca fortalecer a integração entre saúde, segurança pública e sistema de justiça, ampliando a vigilância epidemiológica e qualificando as respostas do poder público. O trabalho técnico teve início imediato após o convite do Ministério da Saúde, com a análise de casos e aplicação da metodologia proposta.

Além do Brasil, Colômbia e México já manifestaram apoio ao projeto e devem aplicar a mesma matriz de decisão após a conclusão da fase de testes conduzida em Goiânia.

Metodologia aplicada em Goiânia

Goiânia testa metodologia que pode levar à criação de um código específico para feminicídio na CID | Foto: SMS
Goiânia testa metodologia que pode levar à criação de um código específico para feminicídio na CID | Foto: SMS

O método prevê a triagem de mortes violentas e suspeitas, com base em marcadores como o vínculo entre vítima e autor, histórico de violência, contexto do crime e dinâmica do evento letal. Cada indicador recebe uma pontuação que alimenta a matriz de decisão, classificando o caso em níveis que vão de “certeza de feminicídio” a “não feminicídio”.

Nesta fase inicial, o comitê municipal utiliza óbitos já registrados para avaliar a viabilidade técnica do instrumento. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a iniciativa contribui para a produção de evidências científicas, o aprimoramento das políticas públicas e o fortalecimento das linhas de cuidado destinadas às mulheres em situação de violência.

Brasil tem leis sobre feminicídio, mas ainda não prevê registro como causa de morte

O feminicídio passou a integrar formalmente a legislação brasileira em 2015, com a Lei nº 13.104, que alterou o Código Penal para reconhecer o assassinato de mulheres motivado por violência de gênero. Mais recentemente, em 2024, uma nova atualização transformou o feminicídio em crime autônomo, desvinculando-o do homicídio qualificado e ampliando as penas previstas.

Apesar desses avanços no campo jurídico e penal, o crime ainda não é identificado de forma específica nas declarações de óbito. Atualmente, as mortes são registradas sob a categoria genérica de homicídio, o que dificulta a produção de dados precisos para políticas públicas de prevenção e enfrentamento da violência contra a mulher.

A medida que está sendo aplicada em Goiânia pode ampliar a vigilância epidemiológica, qualificar estatísticas oficiais e fortalecer a integração entre saúde, segurança pública e justiça.

Leia mais: IA contra o crime: Goiás apresenta plataforma de inteligência artificial para apoio à segurança pública

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