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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026
Fim de uma era

Orelhões começam a ser retirados e levam consigo décadas de histórias

Fim das concessões tirou a obrigatoriedade de manter orelhões em locais que já possuem cobertura de telefone celular

João Césarpor João César em 28 de janeiro de 2026
Orelhões
Goiás ainda possui 162 orelhões nas ruas e espaços públicos - Foto: Gabriel Louza/ Jornal O HOJE

Usar um telefone público é uma experiência que muitos jovens sequer conseguem imaginar. Ir até um estabelecimento, comprar uma ficha ou um cartão e ligar para alguém em um orelhão pode parecer algo irreal para crianças que já nasceram habituadas a smartphones, internet e aplicativos de comunicação.

Os Telefones de Uso Público (TUP), ou orelhões, como são popularmente conhecidos, fizeram — e ainda fazem — parte da história de grande parte da população brasileira. Em determinados períodos, foram o único meio de comunicação possível. No entanto, com o avanço das novas tecnologias, os orelhões tornaram-se obsoletos e caros de manter em funcionamento. Diante desse cenário, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) autorizou a retirada dos aparelhos das ruas.

O processo ganhou mais força com o fim das concessões, em 2025, o que liberou as operadoras da obrigação de manter os Telefones de Uso Público em locais já atendidos por sinal de telefonia móvel. Segundo dados da Anatel, divulgados na última quarta-feira (21), restam apenas 101 orelhões em funcionamento no Estado de Goiás. Outros 61 estão fora de operação, aguardando manutenção.

No Brasil, cerca de 38 mil orelhões ainda estão espalhados pelo território nacional. São Paulo concentra o maior número de aparelhos: 27.918 ativos e 808 em manutenção. Em seguida aparecem a Bahia, com 965 ativos e 525 em manutenção, e o Maranhão, com 653 ativos e 516 em manutenção. No auge, o País chegou a contar com cerca de 1,5 milhão de orelhões.

Atualmente, os TUP atendem principalmente áreas que não possuem cobertura por redes móveis de internet, como 4G e 5G, nem acesso a tecnologias via satélite. A expectativa é que, até 2028, os últimos exemplares sejam retirados, prazo considerado suficiente para que a cobertura dessas tecnologias chegue a todo o território brasileiro.

Em Goiás, o município de Cristalina lidera o número de aparelhos, com oito orelhões ainda instalados. Logo em seguida aparece Nova Roma, com seis. Os dados mostram que os telefones públicos ainda mantêm relevância no interior e em regiões mais afastadas dos grandes centros urbanos.

De acordo com a Anatel, as concessionárias ainda possuem obrigações regulatórias pendentes. Uma das principais é o compromisso de manter em funcionamento um número significativo de telefones públicos , estimado em cerca de 9 mil unidades  distribuídas em todo o País.

O prazo para a manutenção desses equipamentos se estende até o final de 2028. A exigência é considerada essencial, especialmente em áreas remotas ou localidades onde a qualidade e a cobertura dos serviços de telefonia móvel ainda são insuficientes ou inexistentes, garantindo um meio básico de comunicação para a população.

Em nota enviada ao jornal O HOJE, a Oi informou que continuará responsável pela manutenção e funcionamento dos telefones públicos em locais onde não existam outras opções de comunicação disponíveis. Em Goiás, a empresa foi a concessionária encarregada da gestão, instalação e manutenção desses equipamentos.

Já a Algar Telecom informou, também por meio de nota, que possui um plano de desativação dos telefones públicos, em conformidade com a nova regulamentação da Anatel e com a drástica redução do uso desses aparelhos pela população. Segundo a empresa, atualmente, mais da metade dos orelhões registram menos de uma chamada por dia.

Ainda assim, a Algar garante que manterá em operação os aparelhos que continuam sendo a única alternativa de comunicação em determinadas regiões, até que outras tecnologias cheguem a esses locais.

A vida com os orelhões

Para além dos números e das decisões regulatórias, a história dos orelhões também é feita de memórias pessoais. Para Kelyane Olanda, o primeiro contato com um telefone público aconteceu ainda na infância, entre os 8 e 10 anos. A cena ficou marcada pela simplicidade: ao lado da tia, teve apenas alguns segundos para falar com um primo. “Ela falava com um dos netos e me deixou falar com ele muito rapidamente”, recorda.

Antes da popularização dos celulares, o orelhão era essencial tanto em situações cotidianas quanto em imprevistos. Um exemplo ocorreu após uma prova de olimpíada estudantil, quando Kelyane percebeu que havia esquecido o celular em casa e recorreu a um telefone público para ligar para o pai. Na ocasião, outros adolescentes também formaram fila para fazer ligações semelhantes.

Diferente das gerações anteriores, ela não chegou a utilizar fichas, mas se lembra bem dos cartões telefônicos, vendidos com 20, 60 ou 100 créditos.

Mais do que um meio de comunicação, esses cartões tornaram-se objetos de coleção. “A gente olhava qual cartão comprar, porque tinham estampas coloridas e fotos. Minha tia e eu fazíamos coleção”, lembra. Assim, o orelhão não era apenas uma ferramenta de ligação, mas parte da rotina e da cultura das pessoas.

Hoje, diante da comunicação instantânea proporcionada pelos smartphones, a entrevistada reconhece os avanços tecnológicos, como a rapidez, o acesso facilitado e a sensação de segurança. Ainda assim, ela acredita que nem tudo foi ganho. “Pela frequência e rapidez, se perde o gosto dos momentos, o valor da voz na linha”, reflete.

 

Criados nos anos 1970, orelhões brasileiros ganharam o mundo

Orelhões
O design dos orelhões também foi adotado no Peru, Colômbia, Paraguai, Cuba, Angola, Moçambique e China – Foto: Gabriel Louza/Jornal O HOJE

Os telefones públicos sempre foram comuns, alguns deles com designs icônicos, como as cabines vermelhas na cidade de Londres. No Brasil, a inovação chegou com a arquiteta e designer sino-brasileira, Chu Ming Silveira, que chefiava o Departamento de Projetos da Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Também é possível encontrar o modelo brasileiro de orelhão no Peru, Colômbia, Paraguai, Cuba, Angola, Moçambique e China.

Os orelhões, como ficaram conhecidos, foram criados em 1971, com o nome dentro da CTB de Chu II. A ideia era encontrar uma solução em termos de design e acústica para protetores de telefones públicos, que fossem melhor que as já existentes. Primeiramente foram desenvolvidos os “orelhinhas”, usados em telefones públicos em ambientes fechados, depois as “conchas”, usados em ambientes semi-abertos.


Depois desses dois modelos, o mais difícil era criar uma solução para locais abertos, com muito ruído externo. Com isso, a arquiteta se baseou no modelo orelhinha, mas expandiu o conceito para que se adaptasse ao ambiente urbano. O material escolhido foi o fiberglass que, diferente dos outros modelos, não era transparente.


Chu Ming se inspirou na forma do ovo para desenvolver todos os formatos do projeto. A cúpula foi projetada com uma curvatura que oferecia proteção acústica de 40 a 90 decibéis, se o usuário estivesse posicionado sob ela. A maior parte do ruído que atingia o protetor era refletida para o exterior. O ruído restante era direcionado para o centro do raio de curvatura, uma área estrategicamente localizada abaixo do ouvido do usuário médio, a fim de minimizar a interferência na comunicação.

 

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