quarta-feira, 21 de outubro de 2026
Saúde em alerta

Pacientes denunciam espera de até 5 horas por radioterapia no Araújo Jorge

Com apenas três máquinas em funcionamento, pessoas relatam longos períodos no hospital para fazer procedimentos que duram 20 minutos

Renata Ferrazpor em
Radioterapia
Imagem cedida ao O HOJE/Mural por cores indica previsão de atendimento de cada aparelho, mas não evita longas horas de espera

Pacientes em tratamento contra o câncer no Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, relatam uma rotina exaustiva marcada por longas horas de espera para sessões de radioterapia. Em muitos casos, o tempo de espera chega a cinco horas, mesmo quando o procedimento em si não ultrapassa 20 minutos. A situação gera indignação, cansaço e sofrimento em pessoas já fragilizadas pela doença e pelos efeitos colaterais do tratamento oncológico.

Um dos relatos é o da aposentada Maria Rosa, de 65 anos, que enfrenta um mieloma múltiplo na coluna. Além da quimioterapia, ela precisa realizar sessões frequentes de radioterapia. Com horário marcado diariamente às 13h, Maria conta que raramente é atendida no período previsto.

“Eu chego no horário certo, mas quase sempre só consigo fazer a sessão perto das seis da tarde. Ficar sentada esse tempo todo, com dor na coluna, é muito difícil”, desabafa. Segundo ela, o problema não está nos profissionais, mas na falta de estrutura diante da alta demanda.

Cansaço, dor e impacto emocional

Os atrasos recorrentes provocam não apenas desconforto físico, mas também desgaste emocional. Muitos pacientes chegam sentem dores intensas, fadiga extrema e sofrem com náuseas e outros efeitos colaterais da radioterapia. Além disso, há relatos de pessoas que vêm do interior do Estado e precisam enfrentar viagens longas, acolhimento em casas de apoio, somadas a horas de espera nos corredores do hospital.

Edilson Batista, filho e acompanhante de Ivonete Batista, de 75 anos, que faz radioterapia na mama, relata que a mãe frequentemente demonstra resistência em ir às sessões. “Ela reclama muito do desconforto. Muitas vezes diz que não quer vir porque sabe que vai ficar horas esperando”, conta. 

Estrutura limitada diante da alta demanda por radioterapia

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Atualmente, o Hospital Araújo Jorge opera com apenas três aceleradores lineares de radioterapia, responsáveis por atender pacientes de todo o Estado de Goiás. A capacidade, no entanto, não acompanha a crescente demanda. De acordo com relatos, os equipamentos funcionam em regime estendido, muitas vezes acima do recomendado, o que contribui para falhas técnicas, necessidade de manutenção e atrasos na agenda.

Durante os atendimentos, as equipes responsáveis por cada aparelho de radioterapia identificados com os cartões das cores amarelo, azul e verde, utilizam um mural informativo para orientar os pacientes sobre o tempo estimado de espera. 

Em tese, o sistema serviria para dar previsibilidade ao atendimento: se um paciente com horário marcado para às 13h é informado de que o equipamento está com atraso de três horas, a sessão deveria ocorrer por volta das 15h. No entanto, na prática, essa previsão raramente se confirma. 

Relatos indicam que os atrasos se acumulam ao longo do dia, fazendo com que pacientes aguardem até quase 18h para realizar o procedimento, o que amplia o desgaste físico e emocional de quem já enfrenta um tratamento delicado.

O hospital, que é uma instituição filantrópica gerida pela Associação de Combate ao Câncer em Goiás (ACCG), atua majoritariamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

Paciente com doença grave que exige agilidade no tratamento

No caso do mieloma múltiplo, como o enfrentado por Maria Rosa, o atraso no tratamento agrava ainda mais o sofrimento. A doença afeta a medula óssea e pode provocar lesões ósseas, além  de dores intensas, perda de força e até paralisia. Por isso, a regularidade e a agilidade na radioterapia são fundamentais.

A reportagem entrou em contato com o Hospital Araújo Jorge para solicitar esclarecimentos sobre os atrasos, a capacidade operacional das máquinas e possíveis medidas para reduzir o tempo de espera, a resposta obtida foi que a instituição ainda precisa realizar checagem de informações com outras áreas.

Também foi procurada a Secretaria de Estado da Saúde de Goiás (SES-GO), que informou apenas que a regulação de atendimento no hospital é de responsabilidade da Secretaria Municipal de Saúde, mas não esclareceu para a reportagem informações a respeito de soluções como de repasses financeiros e compras de outras máquinas que possam resolver a questão da fila de espera e do grande número de atendimentos.

Diante das reclamações, pacientes e familiares cobram uma atuação mais efetiva do poder público, com repasse de recursos para aquisição de novas máquinas, modernização da estrutura e adoção de medidas emergenciais que garantam atendimento digno.

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