sexta-feira, 30 de outubro de 2026
Juros acima da média

Manutenção da Selic gera repercussão negativa no setor produtivo

Entidades projetam impactos da Selic sobre o crescimento econômico, crédito e emprego

João César Almeidapor em
Selic
Juros acima dos 10% prejudicam investimentos e crescimentos em empresas - Foto: Marcello Casal Jr./ABr

Nesta semana, o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano. O anúncio gerou repercussões negativas entre representantes da indústria, da construção civil e de sindicatos, cujas queixas se concentram nos impactos sobre o crescimento econômico, o crédito e o emprego.

A Confederação Nacional da Indústria (CNI), por meio de seu presidente, Ricardo Alban, criticou o patamar atual das taxas de juros, considerando-o um custo excessivo para a economia. A entidade argumenta que o Banco Central deveria ter iniciado o ciclo de flexibilização monetária, uma vez que os juros desconsideram a recente trajetória de desaceleração da inflação.

Em nota, Alban afirmou que manter a Selic nesse patamar prejudica a economia e aprofunda a desaceleração do crescimento. Na avaliação dele, o Copom precisa iniciar a redução dos juros já na próxima reunião.

A Confederação Nacional da Indústria observa que a inflação atual e as expectativas futuras se aproximam do centro da meta. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) encerrou 2025 em 4,26%, abaixo do limite máximo de 4,5%.

As projeções do Boletim Focus indicam inflação de 4% para 2026, com expectativa de convergência gradual para 3% nos anos subsequentes. No entanto, a taxa de juros real permanece elevada, girando em torno de 10,5% ao ano, patamar cerca de 5,5 pontos percentuais acima da taxa neutra, conforme estimativa do próprio Banco Central.

O setor da construção civil também demonstrou preocupação com a manutenção da Selic. Para o presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), Renato Correia, juros elevados restringem o crédito imobiliário, reduzem a demanda por novos empreendimentos e dificultam a viabilização de projetos. Segundo ele, essa política desacelera a atividade e afeta toda a cadeia produtiva, com possibilidade de efeitos prolongados sobre emprego e renda.

Para o assessor econômico da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg), Cláudio Henrique Oliveira, juros reais acima de 10% ao ano penalizam decisões de investimento e obrigam empresas a adiar expansões, especialmente pequenos e médios empreendedores. Ele explica que esses empresários não conseguem repassar o custo dos juros elevados aos consumidores e, por isso, são forçados a reduzir contratações e postergar melhorias em equipamentos.

Segundo Oliveira, o setor industrial segue apreensivo e vê na manutenção dos juros em patamar restritivo um obstáculo à recuperação da economia.

O economista reforça que, caso os juros permaneçam elevados, pode ocorrer uma deterioração do setor produtivo. “A incerteza sobre quando ocorrerá o primeiro corte gera paralisia nas decisões de capital. Sem acesso a crédito competitivo, investimentos em modernização e inovação tornam-se inviáveis para a maioria das empresas”, completa.

O cenário atual fragiliza a perspectiva de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em 1,8% para 2026. A economia brasileira permanece em um ciclo de baixo crescimento, impactada pela desconfiança empresarial e pela ausência de sinais de uma política monetária mais flexível. Essa dinâmica compromete tanto a competitividade da indústria quanto a possibilidade de uma recuperação econômica duradoura.

Reação sindical

A Central Única dos Trabalhadores (CUT) também criticou a manutenção da Selic. Segundo a entidade, a decisão mantém o Brasil no topo do ranking mundial de juros reais e prejudica a população. Para Juvandia Moreira, presidenta da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Ramo Financeiro (Contraf-CUT), “juros altos encarecem o crédito, diminuem o consumo e resultam em menos empregos”.

De acordo com a CUT, cada ponto percentual da Selic acrescenta cerca de R$ 50 bilhões aos gastos públicos com juros da dívida.

Já a Força Sindical acusou o Banco Central de favorecer a especulação financeira e virar as costas para os trabalhadores. Para a entidade, a política monetária atual reduz o crédito, favorece o endividamento das famílias e trava o desenvolvimento econômico.

 

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