Rio Verde soma mais de 100 ocorrências de violência doméstica e expõe alta busca por medidas protetivas
Medidas protetivas ultrapassam 100 em um mês e especialistas apontam que aumento das denúncias reflete mais confiança das vítimas do que avanço da violência
A cidade de Rio Verde, em Goiás, enfrenta um cenário preocupante em relação à segurança das mulheres, evidenciado pelos números registrados no início do ano. Somente no mês de janeiro, foram contabilizadas 120 ocorrências de violência doméstica no município. De acordo com os registros oficiais, a maioria das vítimas sofreu agressões físicas ou foi alvo de ameaças, situações que resultaram na prisão de 39 suspeitos.
A gravidade do problema também se reflete na alta demanda por proteção judicial. A Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher (Deam) de Rio Verde registrou a procura de mais de três vítimas por dia, totalizando mais de 100 medidas protetivas de urgência concedidas apenas em janeiro.
Em entrevista para o Jornal O Hoje, a Major da Polícia Militar Dayse Pereira Vaz Veiga, comandante do 3º Batalhão Maria da Penha, explicou que esse aumento nos registros não significa necessariamente um crescimento da violência, mas sim que as mulheres estão mais encorajadas a denunciar. Para ela, o fortalecimento dos canais institucionais, aliado à atuação especializada do 3º Batalhão Maria da Penha, tem sido fundamental para gerar confiança entre as vítimas e as forças de segurança pública, além de consolidar a rede de proteção no município.
A Major destaca ainda que a criação do 3º Batalhão possibilitou a implementação de um sistema contínuo de acompanhamento de mais de 1.300 Medidas Protetivas de Urgência atualmente ativas em Rio Verde. Ela ressalta que o município já contava historicamente com o trabalho da Patrulha Maria da Penha, e que esse acompanhamento permanente tem sido decisivo para evitar desfechos mais graves. “Muitas vezes, o aumento nos registros não representa maior incidência, mas sim uma maior disposição das mulheres em romper o silêncio e acessar os mecanismos de defesa disponíveis”, afirma.
Violência domesticas e feminicídio
Em Goiás, os casos de feminicídio passaram de 56 para 59 em 2025, representando um aumento de 6%, mesmo diante da redução de outros indicadores criminais. Para a advogada Bartira Miranda, o feminicídio possui dinâmicas próprias e não responde às mesmas estratégias policiais utilizadas no combate a crimes como roubos ou homicídios em geral.
De acordo com a Major Dayse, a violência contra a mulher e os feminicídios não estão restritos às capitais. Regiões populosas do interior do estado vêm apresentando padrões semelhantes aos dos grandes centros urbanos, o que evidencia o caráter estrutural do problema. Ela lembra que, no ano passado, Rio Verde viveu uma situação atípica com a atuação de um assassino em série, responsável por três das cinco mortes registradas no período, fato que causou grande impacto local..
A comandante ressalta que situações extraordinárias como essa exigem cautela na análise dos dados, pois não representam uma tendência regular da violência doméstica acompanhada pela rede de proteção. Ao longo dos anos de atuação da Patrulha Maria da Penha no município, apenas uma mulher que possuía Medida Protetiva de Urgência foi vítima de feminicídio. Outro caso ocorreu sem qualquer registro prévio contra o agressor, o que evidencia a complexidade do enfrentamento desse tipo de crime.

Segundo a comandante, a subnotificação ainda é sim uma realidade, especialmente no interior. Muitas mulheres permanecem em silêncio por medo de represálias, dependência emocional ou financeira, vergonha, pressão familiar e, em alguns casos, desconfiança inicial na capacidade do Estado em oferecer proteção efetiva. Em cidades menores, o receio da exposição social é ainda maior, já que vítima e agressor costumam integrar a mesma comunidade.
“A subnotificação ainda é uma realidade. Muitas mulheres permanecem em silêncio por medo de represálias, dependência emocional ou financeira, vergonha, pressão familiar e falta de confiança inicial na proteção institucional.” ressalta.
O trabalho desenvolvido pelo Batalhão Maria da Penha busca justamente romper esse ciclo, oferecendo acolhimento especializado, visitas técnicas, acompanhamento preventivo e fortalecimento da rede interinstitucional, para que a mulher compreenda que não está sozinha e que o Estado está presente.
Embora muitos feminicídios sejam precedidos por um histórico de agressões, a major avalia que a rede de proteção nem sempre consegue atuar de forma preventiva porque grande parte dessas violências não chega a ser formalmente registrada. Quando a mulher não acessa a Medida Protetiva e não entra no sistema de proteção, torna-se impossível uma intervenção precoce.
Por isso, ela considera equivocada a afirmação de que as Medidas Protetivas não funcionam. Em Rio Verde, por exemplo, com o acompanhamento ativo e sistemático de mais de 1.300 medidas em vigor, apenas uma mulher assistida foi vítima de feminicídio ao longo de anos de atuação da Patrulha e, mais recentemente, do 3º Batalhão Maria da Penha. Esse dado demonstra que, quando a vítima consegue acessar a rede e é acompanhada de forma contínua, o risco de desfechos fatais é significativamente reduzido.
A comandante enfatiza ainda que é impossível mensurar quantas vidas foram efetivamente preservadas por esse trabalho preventivo, já que a violência evitada não aparece nas estatísticas oficiais. “A prevenção bem-sucedida, muitas vezes, é invisível nos números, mas extremamente concreta na proteção de vidas”, destaca.
Ela ressalta que, entre as vítimas que possuíam Medida Protetiva, duas haviam solicitado formalmente a revogação da medida, com os pedidos ainda pendentes de análise pelo Poder Judiciário.