Sob câmeras e cobrança, reality shows refletem crise da saúde mental
Confinamento, julgamento público e vigilância permanente expõem mecanismos psicológicos que já operam fora da TV
O choro transmitido ao vivo, os conflitos sob observação contínua e a reação instantânea das redes sociais transformaram os reality shows em um espelho ampliado da saúde mental contemporânea. No Big Brother Brasil 26, episódios de ansiedade, instabilidade emocional e desistências não se restringiram ao entretenimento: passaram a sintetizar tensões que atravessam a vida cotidiana de milhões de brasileiros.
O formato de confinamento, aliado à exposição permanente e à lógica de avaliação pública, cria um ambiente de pressão extrema. Nesse contexto, reações emocionais intensas não surgem como exceção, mas como resposta previsível a estímulos contínuos de cobrança, imprevisibilidade e ameaça simbólica.
Saúde mental sob vigilância e estado de alerta
Elainne Ourives, psicanalista e especialista em reprogramação mental, avalia que esse tipo de ambiente ativa mecanismos primários do cérebro. “As pessoas vivem em um estado de alerta constante. O cérebro entra em modo de sobrevivência, e isso reduz a capacidade de raciocínio, empatia e foco”, afirma. Segundo ela, quando não há previsibilidade emocional, o organismo passa a operar sob ameaça contínua, mesmo que simbólica.
Esse funcionamento ajuda a explicar por que situações de confinamento e julgamento público produzem respostas tão intensas. O cérebro não diferencia completamente risco físico de risco emocional. Ambos acionam reações automáticas, como tensão muscular, hipervigilância, aceleração do pensamento e dificuldade de descanso. “É a mente tentando se proteger, mas pagando um preço alto”, observa Elainne.
Pressão social e o desgaste
Dados recentes ajudam a dimensionar esse cenário. A pesquisa Panorama da Saúde Mental, realizada pelo Instituto Cactus em parceria com o Datafolha e divulgada em 2024, apontou que 72% dos brasileiros se sentem emocionalmente sobrecarregados. Os sintomas estão associados à pressão por desempenho, pertencimento e reconhecimento, elementos amplamente reforçados tanto pela cultura digital quanto pelo próprio formato dos realities.
Na avaliação da especialista, o que se vê na televisão é a intensificação de um modelo já naturalizado fora dela. A lógica da validação constante e da exposição permanente reforça a ideia de que errar não é permitido e que o descanso precisa ser justificado. “O excesso de produtividade é socialmente validado. A pessoa é elogiada por estar sempre disponível, mas, internamente, está colapsando”, afirma.
No programa, esse ambiente ganhou contornos ainda mais sensíveis ao expor situações que despertaram, sobretudo entre mulheres, um sentimento coletivo de insegurança. Para Elainne, episódios assim ativam um estado de hipervigilância emocional que não se encerra com o fim da exibição. “Quando a mulher percebe que nem em um ambiente vigiado ela está totalmente segura, o corpo registra isso como ameaça. A mente não ‘desliga’ depois”, explica.
Autorregulação e limites como resposta à crise de saúde mental
Diante desse cenário, a especialista aponta a necessidade de interromper o estado de alerta crônico. “A respiração consciente é uma ferramenta central porque devolve ao corpo a sensação de segurança, sinalizando ao cérebro que ele pode sair do modo de sobrevivência”, diz. Ao reduzir a ativação fisiológica, a mente recupera clareza e capacidade de escolha.
Outro ponto central é a revisão de crenças automáticas que se intensificam em contextos de pressão, como “não posso falhar”, “preciso aguentar” ou “não posso mostrar fraqueza”. “Quando essas crenças não são questionadas, o esgotamento se instala como algo invisível, mas progressivo”, afirma.
Estudos de saúde pública confirmam esse padrão. A Organização Pan-Americana da Saúde registrou aumento superior a 25% nos casos de ansiedade e depressão no primeiro ano da pandemia. Pesquisas da Fiocruz também indicam crescimento de queixas como insônia, irritabilidade e tristeza persistente, especialmente entre mulheres e adultos jovens, grupos mais expostos à sobrecarga emocional.
“O burnout não acontece de um dia para o outro. Ele é o somatório de pequenas negações de si mesma, repetidas diariamente”, afirma Elainne. Para ela, o cuidado com a saúde mental exige mais do que pausas pontuais: envolve consciência emocional, reorganização interna e reconhecimento de limites.
Ao colocar emoções, conflitos e fragilidades no centro da narrativa, os reality shows ampliam o alcance de um debate urgente. O desafio, segundo a especialista, é transformar identificação em reflexão. “Reconhecer limites não é fracasso, é inteligência emocional. Não existe equilíbrio quando a mente opera em estado permanente de ameaça”, conclui.
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