domingo, 18 de outubro de 2026
Jornada de Trabalho

Em ano eleitoral, fim da escala 6×1 força convergência entre governo e oposição

Com amplo apoio popular e impacto direto na vida do trabalhador, proposta de modificar jornada de trabalho se torna incontornável diante do alto custo político a oito meses das eleições

Bruno Goulartpor em
Em ano eleitoral, fim da escala 6x1 força convergência entre governo e oposição
Parlamentares avaliam que rejeitar uma pauta que impacta o brasileiro em ano eleitoral seria muito arriscado. Foto: Jefferson Rudy Agência Senado

Bruno Goulart

A pauta do fim da escala 6×1, tratada pelo Palácio do Planalto como prioridade legislativa neste ano eleitoral, começa a desenhar um raro ponto de convergência entre governo e oposição. O movimento ficou explícito após o líder do bloco oposicionista na Câmara, deputado Cabo Gilberto Silva (PL), afirmar que a bancada está disposta a apoiar a mudança na jornada de trabalho, desde que o texto final não seja exclusivamente carimbado pelo Executivo.

De saída, a oposição tenta se afastar do discurso de obstrução ao projeto e adotar uma estratégia mais pragmática. O apoio ao fim da escala 6×1, segundo Cabo Gilberto, viria acompanhado da defesa da jornada 5×2, com possibilidade de reorganização das horas trabalhadas, além da unificação das quatro propostas que já tramitam na Casa. A ideia é construir um projeto do Congresso, ainda que o governo também se movimente para apresentar, após o Carnaval, uma proposta própria.

Fim da jornada 6×1, mas sem amarras

Nesse contexto, a fala do deputado federal José Nelto (União Brasil), em entrevista ao jornal O HOJE, ajuda a dimensionar o tom que deve marcar o debate. Para o parlamentar da bancada goiana, a discussão precisa ser desideologizada e ancorada na realidade econômica. “A escala 6×1 pode ser do governo, pode ser da oposição, pode ser de qualquer parlamentar. É uma discussão que terá que ser feita com muita seriedade e serenidade”, afirma.

José Nelto defende, como ponto de partida, a redução da jornada semanal para 40 horas, mas sem amarras que inviabilizem acordos entre patrões e empregados. “Quem quiser trabalhar mais também, nós não podemos proibir o empresário nem o trabalhador de trabalhar mais. Hora trabalhada, modelo americano, escala 5×2. Tudo isso a gente tem que debater”, pondera.

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Além da carga horária, o deputado chama atenção para fatores estruturais que, segundo José Nelto, não podem ser ignorados no debate. “O trabalhador que mora nos grandes centros levanta às 4 da madrugada e leva três horas para chegar ao trabalho. Ele não tem convivência com a família. Temos que olhar também a mobilidade urbana”, diz, ao ampliar o escopo da discussão para além da simples mudança na escala.

Ao mesmo tempo, o parlamentar faz um alerta direto sobre os riscos de uma aprovação apressada. “Eu sou muito preocupado com a economia, e não com a ideologia, porque ninguém come ideologia. Se a gente errar na economia, teremos milhões de desempregados”, afirma. Em tom crítico, completa: “Não podemos matar a galinha dos ovos de ouro. Aprovar isso de forma irresponsável, só para jogar para a plateia, não contem comigo”.

Oposição não tem alternativa

Do lado do governo, a leitura é de que a oposição tem pouco espaço para se colocar contra uma pauta com forte apelo popular. Questionada sobre como se dará essa adesão a um projeto liderado pelo Executivo, a presidente estadual do PT em Goiás, deputada Adriana Accorsi, é direta: “Eles não têm alternativa, pois é uma pauta apoiada pelo povo brasileiro”.

Accorsi afirma que o Planalto já trabalha na costura política para garantir maioria, com um compromisso central: a redução da jornada sem diminuição de salários, com atenção especial às mulheres, que concentram grande parte dos vínculos mais precarizados. Segundo a parlamentar petista, a expectativa é de que o projeto do governo avance rapidamente no Congresso.

Riscos

Nos bastidores, o clima é considerado favorável tanto na Câmara quanto no Senado. Na abertura do ano legislativo, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), sinalizou disposição para avançar no tema. O entendimento entre os parlamentares é o de que rejeitar uma pauta que tanto comove e impacta o eleitorado às vésperas das eleições seria um movimento muito arriscado. (Especial para O HOJE)

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escala 6x1 governo Lula Oposição

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