sexta-feira, 9 de outubro de 2026
Dia Nacional da Mamografia

Rastreamento do câncer de mama fica aquém do necessário

Sociedade Brasileira de Mastologia destaca a necessidade de ampliar a cobertura mamográfica pelo SUS, que atinge apenas 33% da população alvo no país

Luana Avelarpor em
mama
Foto: iStock

No Dia Nacional da Mamografia, a distância entre o que a ciência recomenda e o que de fato ocorre no sistema de saúde brasileiro volta a se impor como um obstáculo central no enfrentamento do câncer de mama. Embora o rastreamento anual a partir dos 40 anos seja orientação do Ministério da Saúde e de entidades médicas, a cobertura do exame segue muito abaixo do patamar necessário para produzir impacto consistente na mortalidade feminina.

“A realidade, no entanto, se apresenta muito aquém do ideal”, afirma Gustavo Machado Badan, presidente da Comissão de Imagem da Sociedade Brasileira de Mastologia (SBM). Segundo ele, dados mais recentes indicam que apenas 33% da população-alvo realiza mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “O desejável é que 70% das mulheres façam o exame todos os anos”, diz.

A mamografia de rastreamento permanece como a estratégia mais eficaz para detectar tumores em estágios iniciais, condição que amplia as possibilidades terapêuticas e reduz a necessidade de intervenções agressivas. “Evidências acumuladas ao longo de décadas demonstram que programas organizados de rastreamento mamográfico estão associados a reduções consistentes da mortalidade por câncer de mama, especialmente quando realizados de forma regular e contínua”, destaca Badan.

Uma análise recente de grande abrangência reforça esse cenário ao apontar que mulheres que aderiram ao rastreamento apresentaram redução de 40% a 50% no risco de morte por câncer de mama em até dez anos após o diagnóstico, em comparação àquelas que não realizaram o exame.

A periodicidade, contudo, é determinante para que esse efeito protetor se mantenha. “Feita de forma ocasional, e não anualmente, o exame reduz seu efeito protetor, que é a detecção de tumores em estágios iniciais. Como consequência, há o risco ampliado de mortalidade”, afirma o mastologista.

Levantamento baseado em dados do DataSUS revela que, entre 2013 e 2022, apenas 22% das mulheres de 40 a 49 anos realizaram mamografia ao longo de uma década. Nesse mesmo intervalo, 54% dos casos diagnosticados ocorreram nos estágios III e IV da doença, considerados avançados. Para a SBM, os números evidenciam o custo direto da baixa adesão ao rastreamento nessa faixa etária.

Outra preocupação recai sobre os limites etários tradicionalmente impostos às diretrizes de rastreamento. “Estudos e modelos contemporâneos demonstram que mulheres mais velhas, com boa condição clínica e expectativa de vida superior a 7 anos, continuam a se beneficiar do rastreamento mamográfico”, ressalta Badan.

Além das barreiras estruturais, a disseminação de informações sem respaldo científico também contribui para afastar mulheres do exame. “A desinformação pode levar as mulheres a acreditarem que a mamografia não traz benefícios, o que não é verdadeiro à luz das evidências científicas”, afirma o especialista.

Para Guilherme Novita, presidente da SBM, os ganhos do diagnóstico precoce vão além da sobrevida. “O diagnóstico precoce proporcionado pela mamografia está associado a tratamentos cirúrgicos menos extensos, muitas vezes sem necessidade de quimioterapia, maiores taxas de cirurgias conservadoras da mama e melhores resultados estéticos”, afirma. “São benefícios que por si só justificam a realização do exame de forma frequente e regular”, conclui.

Leia mais: Influenciadora relata diagnóstico de câncer raro associado a implante de silicone

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